01/04/2016 - 11:11
O ex-ministro alemão das Relações Exteriores Hans-Dietrich Genscher, que comandou durante quase 20 anos a diplomacia do país e teve um papel-chave na reunificação da Alemanha, faleceu na quinta-feira aos 89 anos.
Este ex-dirigente do Partido Liberal, que foi uma das figuras mais populares do país, morreu vítima de uma parada cardíaca, cercado pela família em sua casa de Wachtberg-Pech (oeste), indicou seu gabinete em um comunicado.
O porta-voz da chanceler Angela Merkel saudou um “grande europeu e um grande alemão” que “influenciou como poucos na história da Alemanha”.
Ao longo de 18 anos (1974-1992) como ministro das Relações Exteriores, Hans-Dietrich Genscher aplicou a chamada “Ostpolitik”, a política de aproximação com a Europa do leste comunista, recusando-se a abominar o inimigo soviético, e negociando quando era possível para desativar a Guerra Fria e a corrida armamentista, que tinha as duas Alemanhas na linha de frente.
Após a morte em menos de três anos de três governantes soviéticos, Genscher rapidamente viu na ascensão de Mikhail Gorbachov uma oportunidade histórica. Ele apoiou a Perestroika (reestruturação) e a Glasnost (transparência) para reformar e liberalizar uma URSS em crise, mas que no fim acelerariam a queda do bloco soviético.
Uma imagem ficou gravada na memória dos alemães: Genscher anuciando em 30 de setembro de 1989, na embaixada da Alemanha em Praga, que as autoridades tchecas haviam cedido e permitiriam a viagem para a Alemanha Ocidental de centenas de refugiados que fugiam da Alemanha Oriental.
“Viemos para afirmar a vocês hoje que a sua saída…”, começou a dizer, mas o restante da frase foi abafada pelos gritos de entusiasmo dos refugiados. A situação abria um grande buraco na Cortina de Ferro, algumas semanas antes da queda do Muro de Berlim.
O auge da carreira deste liberal, que atuou nos dois governos do social-democrata Helmut Schmidt e do conservador Helmut Kohl, aconteceu um ano mais tarde, em setembro de 1990, com o Tratado “Dois mais Quatro”, que liberava o país da tutela de americanos, soviéticos, franceses e britânicos, imposta desde o fim da Segunda guerra mundial.
“Foi o momento mais emocionante de toda minha carreira”, admitiu Genscher, que conseguiu superar os receios das quatro potências vitoriosas. Duas semanas depois, a Alemanha estava reunificada.
Considerado alguém sem carisma físico, Genscher sempre encarnou uma voz da razão, apreciada pelos alemães, e defendeu uma política de “distensão ativa” com Moscou.
Depois de deixar o governo em 1992, Hans-Dietrich Genscher permaneceu ativo por muitos anos no Bundestag (Parlamento). Conseguiu manter e utilizar os bons contatos com a Rússia.
Em 2012 e 2013, sua diplomacia secreta teve um papel crucial para convencer o presidente russo Vladimir Putin a libertar em dezembro de 2013 Mikhail Khodorkovski, ex-magnata do petróleo e opositor detido há 10 anos.
A situação foi considerada um grande êxito para a diplomacia alemã.
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