Morte de narcotraficante expõe a força militar do cartel CJNG, aprofunda o vazio de poder na organização criminosa e abre caminho para uma disputa interna que pode ampliar a violência no México.A morte do mais poderoso narcotraficante do México, Nemesio “El Mencho” Oseguera, pelo Exército mexicano, não parece ter limitado o poder do grupo criminoso antes liderado por ele, o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG). Por outro lado, deixou um vazio de poder na organização que abre uma corrida sucessória capaz de ampliar a violência no país.

O grupo criminoso reagiu com força. Em Jalisco, sua base, vias foram bloqueadas e veículos incendiados. Por todo o país, células da organização atearam fogo em comércios e espalharam terror entre a população. No Aeroporto Internacional de Guadalajara, houve relatos de disparos e da presença de homens armados, o que gerou pânico entre os passageiros. Pelo menos 73 pessoas já morreram, incluindo 25 membros da Guarda Nacional.

Até o momento, o incidente apenas evidenciou o amplo poder que o CJNG mantém em várias regiões do país, com presença dispersa tanto em atividades legais quanto ilegais. A resposta brutal deixou clara sua robusta estrutura bélica e sua capacidade de rápida mobilização.

Já o futuro hierárquico da organização permanece indefinido. A morte de El Mencho, líder de perfil altamente personalista, deixou o cartel sem um sucessor evidente. Nesta segunda-feira (23/02), o secretário da Defesa Nacional do México informou que “El Tuli”, seu principal braço direito e responsável pela logística do grupo, além de peça-chave na reação ao operativo, também foi morto pelas forças de segurança.

Segundo análise da Procuradoria-Geral da República do México, “El Sapo”, responsável por centros de treinamento onde recentemente foram encontrados centenas de corpos em valas clandestinas, desponta como um dos possíveis nomes para assumir o comando. A hipótese de uma disputa interna também permanece aberta, o que poderia intensificar ainda mais a violência no país, assim como aconteceu após a prisão dos líderes do Cartel de Sinaloa (leia mais abaixo).

O que é o Cartel Jalisco Nueva Generación e como ele opera?

“El Mencho” fundou o cartel em 2009 e, segundo especialistas, trata-se de uma das organizações do narcotráfico mais poderosas do México. O chefe morto era um dos principais responsáveis pelo tráfico de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos. O governo americano havia colocado uma recompensa de 15 milhões de dólares por sua captura.

“É certamente uma das organizações mais poderosas do México em termos de capacidade militar, de recrutamento e de armamento”, afirma à agência de notícias AFP David Mora, especialista do centro de análise Crisis Group.

Os negócios do cartel se expandiram para outras atividades criminosas, como extorsão, roubo de combustível e tráfico de pessoas, segundo o Departamento de Administração para o Controle de Drogas (DEA). Os crimes garantem forte receita e grande capacidade econômica.

Tal atuação se assemelha à do crime organizado brasileiro que, como mostraram operações recentes, também é capaz de ampliar seu poder em diversos setores formais e informais.

Contudo, enquanto organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) dominam presídios e áreas urbanas, os cartéis mexicanos e, em especial, o CJNG, têm uma estrutura de poder mais ampla, capaz de controlar regiões inteiras e rotas internacionais sob emprego de um poder bélico ampliado e embates diretos com o Estado.

Narcotráfico internacional, sequestro, estrutura de um “narcoestado” são comuns nos cartéis mexicanos. O cartel de El Mencho passou a empregar até mesmo drones e dispositivos explosivos improvisados. “O CJNG se caracteriza por estar sempre disposto a desafiar o governo mexicano”, diz Mora.

Muitas vezes, o cartel divulga imagens de seus sicários exibindo armas e poderio paramilitar, como veículos blindados. Em 2020, atentou contra o atual secretário de Segurança Pública do México, Omar García Harfuch, quando era chefe da polícia da Cidade do México. Também esteve por trás do assassinato do prefeito de Uruapan, Carlos Manzo, em novembro passado.

“Na sua narrativa, eles sempre estão muito dispostos a desafiar e mostrar sua capacidade operativa. Não hesitam em realizar ataques de forte impacto político, como o contra García Harfuch”, afirma Mora.

Reação violenta mostra força do grupo

Os bloqueios e incêndios empregados pelo CJNG nos últimos dias se espalharampara Puerto Vallarta, para o estado vizinho de Michoacán e para Puebla (centro), Sinaloa (noroeste), Guanajuato (centro) e Guerrero (sul).

O CJNG é a organização criminosa dominante em vários estados, mas em outros disputa território com grupos rivais. “O que vimos hoje é justamente uma demonstração de onde eles operam e onde podem infligir violência”, diz Mora.

O analista de segurança nacional Gerardo Rodríguez afirma que as autoridades tinham medido sua reação. “O que não estava no radar era que a reação tivesse alcance nacional” e que células aliadas fossem ativadas em todo o país, argumenta.

Apesar disso, o cartel não conseguiu impedir que Oseguera fosse abatido e que seu corpo fosse levado pelas autoridades à Cidade do México. “Em termos táticos e operacionais, é uma operação muito bem‑sucedida do governo da República”, afirma.

Quem assume o comando do cartel de Jarisco?

Os cartéis mexicanos também compartilham a característica de alavancar uma hierarquia personalista. Lideranças como Nemesio Oseguera atuam sob o mesmo modelo dos conhecidos narcotraficantes Joaquín “El Chapo” Guzmán e Ismael “El Mayo” Zambada, ambos presos nos Estados Unidos. Oseguera tinha presença onipresente no CJNG e não deixou sucessores claros.

O cartel de Jarisco havia se fortalecido justamente após o enfraquecimento do Cartel de Sinaloa por disputas internas após a extradição de Guzmán e Zambada para os Estados Unidos.

O filho mais velho de El Mencho, conhecido como “El Menchito”, foi condenado no ano passado à prisão perpétua nos EUA e não deve assumir um papel relevante na reestruturação da organização.

Ao mesmo tempo, o portal mexicano Político MX destaca que especialistas desconsideram a capacidade do enteado de Oseguera assumir a liderança. Juan Carlos Valencia González, conhecido como R3, é tomado por autoridades como um “líder sanguinário”, mas carece do peso necessário para comandar o cartel, dizem.

A morte do braço direito de El Mencho, El Tuli, também amplia o vazio de poder na organização. Agora, a aposta de veículos especializados é que Julio Alberto Castillo Rodríguez, “El Chorro”, genro de Mencho e operador no porto de Manzanillo, bem como Hugo Gonzalo Mendoza Gaytán, “El Sapo”, chefe regional em zonas de alto conflito, são os favoritos para o cargo.

Segundo o portal mexicano El Financiero, parceiro do grupo Bloomberg, a Procuradoria Geral da República do México acredita que El Sapo conta com maior apoio para assumir a função.

Segundo o Tesouro americano, ele é conhecido por suas estratégias de recrutamento e liderança das células armadas do cartel.

Os EUA também acreditam que ele estaria por trás de um campo de recrutamento do CJNG em Teuchitlán, Jalisco, onde recentemente foram encontradas centenas de peças de roupa, sapatos, bolsas e restos mortais em uma vala clandestina, no que foi chamado pelas autoridades de “centro de extermínio”.

“Diz-se que o campo era dirigido por Mendoza, que ordenou aos tenentes que treinassem os novos recrutas do CJNG e matassem aqueles que desobedecessem às instruções. Mendoza também esteve envolvido no assassinato de vários agentes da lei mexicanos”, destacou o Tesouro americano, em trecho obtido pelo El Financiero.

“Outras peças fundamentais identificadas pelas agências mexicanas e americanas incluem Audias Flores Silva, ‘El Jardinero’, responsável por células armadas e logística em vários estados do país”, diz o Político MX.

Aumento da violência

Outros cenários possíveis incluem o cartel continuar operando sem seu líder ou entrar em uma guerra interna pela sucessão. Neste caso “teríamos um aumento da violência homicida”, afirma o especialista em segurança David Saucedo. O risco é que outros cartéis também decidam avançar sobre áreas do CJNG, o que escalaria a onda de violência no país.

Foi o que aconteceu após a prisão de El Chapo, em 2023, que disparou violentos protestos no estado de Sinaloa e uma violenta disputa interna. O processo não apenas colapsou a organização como abriu confrontos com outros carteis, incluindo o de Jarisco, transformando Sinaloa em uma zona de guerra.

gq (AFP, OTS)