29/10/2008 - 8:00
O ENCONTRO DE TERÇA-FEIRA 21 NA FLÓRIDA num seminário sobre empregos foi o primeiro em público e sinaliza uma brutal guinada se o democrata Barack Obama vier a ser eleito para a Casa Branca. Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve (1979/1987), é hoje um dos seus principais gurus econômicos e tem fama de atacar qualquer mal pela raiz ? não importa o custo. Na conferência, Volcker disse que Wall Street ?bagunçou as coisas? e que o próximo presidente enfrentaria o desafio de devolver aos cofres públicos o dinheiro que havia sido usado para salvar o sistema financeiro. ?Temos que reconstruir este sistema inteiramente, para que nunca mais a economia como um todo seja ameaçada por uma moratória em Wall Street?, disse Volcker. É o pensamento de Volcker: arrumar a casa, custe o que custar.
Analistas políticos americanos dizem que a associação é boa para os dois lados. Para Obama, é o aval de um especialista respeitado até mesmo entre os republicanos e uma garantia de que ele está disposto a uma atuação firme para controlar a crise. Para Volcker, é a chance de se reabilitar por ter provocado uma recessão global no início da década de 80 para combater a inflação que ameaçava os Estados Unidos naquela época. Ao subir repentinamente a taxa de juros, Volcker salvou os Estados Unidos, mas empurrou países como Brasil e México para a moratória da dívida externa. Hoje, como os países emergentes são credores externos e detentores de grandes reservas, esse risco não existe mais e Volcker é visto por muitos como a pessoa certa para solucionar a crise ? ele seria o oposto de Alan Grenspan, cuja política de frouxidão nos juros agora é considerada a raiz da crise das hipotecas.
O linha-dura de 81 anos e parcos cabelos brancos não é a única cabeça estrelada da equipe de conselheiros econômicos de Obama. O grupo ainda inclui os ex-secretários do Tesouro Robert Rubin e Lawrence Summers e a conselheira da Casa Branca Laura Tyson. Mas a influência de Volcker cresceu durante a campanha, especialmente com o aprofundamento da crise financeira. O próprio Obama fez a afirmação durante o último debate com McCain. ?Em política econômica, eu estou junto com Warren Buffett e o ex-presidente do Fed Paul Volcker. Eles influenciaram minhas idéias e estarão ao meu lado na Casa Branca?, afirmou Obama, em resposta a uma provocação de McCain sobre as credenciais ?socialistas? do adversário. Tem a mão de Volcker a proposta de Obama de um pacote de US$ 60 bilhões, com corte de impostos e gastos do governo para criar empregos públicos para tentar conter o aumento do desemprego. Também foi por influência do ex-presidente do Fed que Obama apoiou tão prontamente o pacote de resgate do sistema bancário de US$ 700 bilhões apresentado pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, com modificações sugeridas por Volcker. Em Washington, especula-se que, se for eleito, Obama poderia nomear Volcker para o Tesouro. Há pressão do mercado financeiro sobre os dois candidatos para que nomeiem o titular logo depois das eleições, bem antes da posse em janeiro. O candidato democrata não confirma. Com ou sem o cargo, é certo que se Obama for eleito na semana que vem o antigo xerifão do Fed terá um lugar privilegiado junto ao ouvido presidencial.