A decisão foi anunciada na noite da quinta-feira 23. Até mesmo executivos da diretoria da Telefônica foram pegos de surpresa com a notícia: Fernando Xavier Ferreira, presidente do grupo, deixara o comando da companhia. Em seu lugar, assumirá o atual presidente da empresa no Peru, o brasileiro Antônio Carlos Valente. Xavier, segundo informações oficiais, foi quem teve a iniciativa de se desligar da empresa. Os motivos, segundo nota da empresa, limitam-se aos tradicionais “irá se dedicar aos tradicionais “irá se dedicar a projetos pessoais”. Mas de acordo com a avaliação do mercado, a mudança foi resultado de um processo de desgaste ocorrido ao longo dos últimos anos. A gota d?água teria sido a forma como Xavier conduziu a negociação para a compra da operadora de TV por assinatura TVA. Ele optou por uma estratégia de conflito com as autoridades em Brasília, resistentes ao negócio ? a Telefônica chegou a publicar comunicados questionando a posição oficial.

 

A postura teria indisposto Xavier com várias partes envolvidas na transação, dos diretores da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aos seus chefes na Espanha. A indicação de Antônio Carlos Valente para substituí-lo pode ajudar a por panos quentes no mal-estar. Valente foi vice-presidente do órgão regulador e tem bom trânsito por lá. Em novembro de 2004, renunciou ao cargo para assumir a Telefônica no Peru, posição que ocupou até agora. ?Antônio Carlos foi um dos melhores diretores que a Anatel teve?, disse um especialista do setor. ?Ele tem uma rara cultura regulatória.?

Outra hipótese aventada para a mudança de comando seria a necessidade, detectada pela matriz, de um novo perfil para a presidência da empresa no Brasil. “Xavier era a pessoa certa para assumir a empresa logo que ela foi privatizada”, afirmou uma fonte da empresa. ?Tinha bom relacionamento com o governo tucano e conhecia a máquina, o que era estratégico na época.? Agora, a empresa quer alguém mais criativo e ousado para os negócios De qualquer forma, Xavier deixa um legado positivo, pelo menos nos números. Em oito anos, capitaneou investimentos de R$ 20 bilhões e dobrou o número de linhas telefônicas ativas para 12 milhões no Estado de São Paulo. Nos primeiros nove meses deste ano, graças ao avanço da banda larga e à redução de custos, apurou lucro líquido de R$ 811,8 milhões, 14,4% mais do que no mesmo período de 2005.

Mas não evitou as diferenças com o ex-subordinado Manuel Amorim, responsável pelas operações da empresa em São Paulo. Depois de um período na Espanha, Amorim voltou ao Brasil em setembro passado para substituir Xavier na presidência do conselho de administração da Vivo, a operadora de telefonia móvel cujo controle a Telefônica divide com a Portugal Telecom. Agora, Amorim tinha a expectativa de assumir também o comando do grupo no Brasil. Mas é Valente quem deve fazer surgir uma nova Telefônica.