16/08/2000 - 7:00
Uma velha piada do mercado editorial dizia que, com a moda dos livros de gestão, logo alguém publicaria algo com o título ?Administrando com Genghis Khan?. Pois esse livro acaba de sair, e é excelente. Escrito por Cynthia Crossen, editora sênior do The Wall Street Journal, ele esmiuça as biografias de dez magnatas de várias épocas, explicando o que Bill Gates e o conquistador mongol têm em comum, qual a semelhança entre a Nasdaq e o mercado de futuros de tulipas, no século 17, e onde está o parentesco entre a Companhia das Índias e a bolha da Internet. ?The Rich, and how they got that way? (Os Ricos, e como eles se tornaram o que são) é um livro fascinante e assustador. Dele se conclui que, de Machmud de Ghazni, um mercador afegão do século 11, a Hetty Green, a grande especuladora de Wall Street do começo do século, os ricaços têm um perfil muito semelhante. E a história, para o bem e para o mal, se repete com semelhança assustadora.
Os muito ricos são diferentes das pessoas comuns, mas muito semelhantes entre eles. O livro conta como, ao longo dos tempos, os acumuladores de fortunas têm a sorte ou o brilhantismo de descobrir maneiras inéditas de ganhar dinheiro. Se Bill Gates anteviu a mina de ouro de vender sistemas operacionais para computador, Genghis Khan percebeu que ganharia mais cobrando impostos das terras conquistadas, em lugar de simplesmente matar os habitantes e roubar o ouro. Diferente do que diz a lenda, Khan só executava os adversários se fosse inevitável (quando mandou cozinhar vivos um grupo de inimigos, foi apenas para evitar que suas almas voltassem para assombrá-lo).
Os milionários possuem em comum muitos traços de estilo. São obsessivos e workaholics como Hetty Green, que guardava suas roupas e às vezes dormia em sua sala no Chemical Bank, onde fazia negócios. Ou Richard Arkwright, dono dos primeiros moinhos mecanizados, que trabalhava quinze horas por dia mesmo depois de se tornar o homem mais rico da Inglaterra. E são bons de marketing, como Genghis Khan, que se aproveitava da fama de mau para conquistar cidades sem precisar usar a força. Não é de hoje que exercem o direito à excentricidade: o afegão Machmud possuía uma coroa de ouro tão pesada que tinha de ser suspensa sobre sua cabeça por uma corrente. Doris Duke, herdeira de uma fortuna do tabaco, fazia festas para seu camelo de estimação.
O que mais surpreende, porém, é como as práticas empresariais se mantém ao longo do tempo. No século 18, o especulador John Law criou a Companhia das Índias, destinada a colonizar o Mississipi. Suas ações logo se tornaram os papéis mais negociados da Europa. Mentindo sobre o desempenho da empresa e apresentando previsões irreais de crescimento, fez com que elas se valorizassem mais de vinte vezes em semanas. Virou o homem mais rico do mundo, foi promovido a ministro das finanças e causou tamanho furor especulativo que nobres vinham de toda a Europa para comprar ações, fazendo fila durante horas diante da companhia. Na rua, corcundas alugavam suas costas para servir de escrivaninha, donos de casas vizinhas alugavam suas salas para quem aguardava o atendimento. Quando os especuladores perceberam que se tratava de uma bolha, passaram a vender ações em massa. Um deles decidiu realizar lucro, levou pilhas de ações à empresa e exigiu pagamento em ouro. Saiu com três carroças cheias. Quando tudo veio abaixo, Law fugiu do país e o governo ? sócio da companhia ? teve de baixar um confisco da moeda para impedir o povo de trocar as ações por dinheiro.