No livro Um teto todo seu, a inglesa Virginia Woolf questiona o fato de as mulheres ?nunca terem feito uma descoberta, nunca terem sacudido um império e não serem as autoras das peças de Shakespeare.? A teoria de Virginia Woolf, que escreveu o livro em 1928, é que bastaria dar à mulher o seu próprio espaço, o seu teto, que ela iria ?sair da obscuridade??. Pois bem, hoje boa parte das mulheres conquistou o seu próprio teto. Debaixo desse teto, porém, há muito o que fazer: cuidar da carreira, da casa, do marido, dos filhos e ainda arranjar um tempinho para fazer ginástica. Elas saíram da obscuridade e entraram numa roda-viva sem precedentes. Entramos na era da mulher múltipla, uma mulher que precisa fazer várias coisas ao mesmo tempo e, de preferência, sem perder a calma. ?O impacto disso é um grande stress e uma sensação de que se está sempre com a conta no vermelho?, diz a psicanalista Magdalena Ramos, co-autora do livro E agora o que fazer? A difícil arte de criar os filhos.

De acordo com o último levantamento mundial, há cerca de 854 milhões de mulheres que trabalham fora de casa nos quatro cantos do globo, o que significa 32% da força de trabalho. No Brasil, segundo o IBGE, a participação feminina no mercado de trabalho subiu de 19% para 48% nos últimos trinta anos. Esse exército de mulheres deve aumentar nos próximos anos. Atualmente, nas escolas brasileiras de segundo grau, 60% são alunas e 40% são alunos. Nas universidades brasileiras, a proporção é de 56% e 44%, respectivamente. Nessa viagem sem volta, as mulheres têm de cumprir as várias tarefas sem deixar a peteca cair. A novidade é que, ao contrário do que se imaginava, o cérebro humano não está estruturado para processar duas coisas ao mesmo tempo. Segundo cientistas americanos, o que ocorre é uma troca de funções e não uma sobreposição.

Por isso, o melhor a fazer é organizar o seu tempo. Basta um pouco de disciplina. Estabeleça um horário fixo para ficar com os filhos, por exemplo. Mas tem que ser uma coisa rígida, um período em que você não atende o telefone, não marca nenhuma reunião de trabalho, ou seja, não está para mais ninguém. ?A rotina deixa as crianças mais seguras, elas sabem que há um momento no dia em que a mãe está reservada para elas?, explica Rosa Bernhoeft, consultora em gestão de carreira. Bernhoeft, que há mais de 20 anos acompanha o dia-a-dia de executivas em grandes empresas, diz que outra medida importante é deixar a culpa de lado. ?A mulher só é bem-sucedida quando ela está bem-resolvida nas questões pessoais?, diz a consultora. Está sem tempo de fazer ginástica? Que tal às 6h30 da manhã? Em vez de ficar reclamando da falta de tempo para fazer exercício (enquanto devora uma torta de morango) que tal esticá-lo? Se você acordar uma hora e meia mais cedo, poderá colocar a ginástica em dia. E ainda vai ouvir dos colegas que está com uma cara ótima logo pela manhã. A psicanalista Magdalena Ramos, que também é coordenadora do Núcleo de Estudos do casal e da família da PUC de São Paulo, dá outra dica para essas mulheres de 1001 atividades: ?É preciso pedir a colaboração do marido nos assuntos domésticos?, ensina. Mas, atenção: ele vai fazer as coisas do jeito dele e não do seu. Nada de reclamar. Afinal, você pediu ajuda. Como ninguém vem ao mundo com manual de instrução, cabe a cada mulher perceber como girar nessa roda-viva. Cada uma no seu ritmo, cada uma no seu tom. Sem esquecer que se tivessem nascido algumas poucas décadas atrás, a vida poderia ser bem diferente. Com a palavra, Virginia Woolf: ?Minha crença é que, se vivermos aproximadamente mais um século e tivermos o hábito da liberdade, um salário e o próprio quarto; se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, então chegará a oportunidade?.