Foi uma semana daquelas. Dólar em alta, Bolsa em queda e o risco Brasil lá em cima ? na segunda e terça-feiras. Depois disso, como num filme de naufrágio, a calmaria caiu sobre o mercado. Da quarta-feira em diante foi Bolsa em alta, risco Brasil em queda e dólar estável na direção de R$ 2,40. E assim chegou-se à sexta-feira, em paz. Presente aos dois momentos da semana, essencial para explicar tanto um quanto o outro, esteve o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Foi a semana dele. De braços cruzados, sem lançar mão do poder de fogo da mesa do BC, Armínio operou o mercado através da imprensa ? viu o dólar subir e descer mas não reagiu comprando ou vendendo. Apenas falou no começo e no final da crise, calando-se no meio. Seu rosto rosado e a sua voz pausada ocuparam a telinha da TV na segunda e na sexta-feira para sublinhar as intenções do momento. ?O que vai acontecer no futuro não sabemos, mas eu tenho uma visão otimista. Os últimos dias deram sinais positivos entre os indicadores financeiros?, disse o presidente do BC na manhã de sexta 17, durante um seminário no Rio em que se discutiram os três anos da política de metas inflacionárias. O pior já havia passado e o mercado acreditava que Armínio havia conseguido o que queria ? uma mudança de patamar na cotação do dólar, suficiente para ajudar a fechar as contas externas do País mas não demasiada para incidir de forma dramática sobre as metas de inflação. ?Excelente. Olhe o dólar onde está hoje. Os resultados falam por si. Armínio é um craque?, celebrou o economista Edmar Bacha, do BBA.

No começo da semana foi diferente. Na segunda 13 Armínio entrou no ar às sete da manhã, vestindo roupa de bombeiro mas fornecendo combustível para a crise. Em entrevista ao Bom Dia Brasil, justificou as reações do mercado aos candidatos de oposição (?eu não sou pessimista, mas me junto aos que estão preocupados?); disse que os fundamentos da economia não são bons (?eles estão no caminho certo, mas isso pode mudar?) e terminou cogitando a possibilidade de o Brasil tornar-se uma Argentina: ?Não é a minha expectativa, mas temos de ser realistas e admitir que essa possibilidade existe. Temos de evitar dar pequenos passos na direção errada.? Na semana anterior o mercado fechara sob ataque dos especuladores, com o dólar em alta e o risco Brasil subindo rapidamente. Os mercados atribuíam a Lula essa movimentação e as declarações de Armínio reforçaram a tendência, ou pelo menos não se opuseram a ela. Por quê? ?O BC deixou o câmbio subir, botando a culpa no fato externo, quando na verdade queria uma desvalorização do dólar para melhorar o resultado da balança comercial?, interpreta Luiz Antonio Neves, diretor da corretora Planner. Desde janeiro, e mesmo considerando-se a mini da semana passada, o real desvalorizou-se apenas 8% frente ao dólar. Todo mundo no mercado acha muito pouco frente às necessidades externas da economia. ?O fato é que o dólar a R$ 2,30 estava barato demais e sofreria uma correção. O que aconteceu foi um movimento acelerado?, diz José Berenguer, tesoureiro do BBA. E também um movimento em gangorra. Antes de acalmar em R$ 2,47, na sexta-feira, o dólar chegou a bater em R$ 2,52 na tarde segunda ? com um empurrãozinho do presidente do BC.

Vistos em retrospecto, os fatos se alinham com a teoria de que Armínio operou para elevar a cotação do dólar. Ao reforçar em público as dúvidas do mercado sobre os candidatos e ao sublinhar as fragilidades estruturais da economia, ele mais ou menos autorizou uma mudança de patamar nas cotações. Ao fazê-lo, aliás, confirmou o que todos os operadores pensavam e já haviam transformado em preço. ?O mercado funciona com sua própria lógica?, afirma Diniz Pignatari, do banco holandês ING. ?A cotação do dólar caiu na quarta-feira porque ela incluía uma queda do Serra nas pesquisas ainda maior do que a que realmente aconteceu.? Há aqui um maquiavelismo. Como bom operador, Armínio sabia que o risco da vitória de um candidato de oposição já estava precificado pelos operadores, assim como os problemas estruturais da economia. Logo, admitir esses problemas poderia ser inócuo do ponto de vista das contas públicas, mas muito útil ao candidato do governo, José Serra. O ex-ministro da Saúde tem pedido mais empenho ao governo em sua campanha, e Armínio, ao acenar com a ameaça da Argentina e da oposição, pode estar fazendo justamente isso. E há uma coincidência adicional. ?Armínio mudou o discurso na semana passada, logo depois de Lula deixar claro que ele não ficaria no BC?, diz Neves, da Planner.

Mas a movimentação do presidente do BC envolveu mais do que uma elevação controlada da cotação do dólar e algumas alfinetadas nos candidatos de oposição. Havia também a parte bombeiro da operação. Ela incluía oferecer aos operadores algumas indicações de que a economia poderia ter boas notícias, para contrapor às pedras do mercado. No Brasil de hoje, isso quer dizer redução da taxa de juros. O Copom se reúne esta semana, nos dias 21 e 22, e existe uma boa possibilidade de que os juros venham a cair ? ou, pelo menos, é isso que Armínio e mesmo o ministro Pedro Malan andaram sugerindo ao mercado. ?A inflação cairá. É nisso que estamos de olho. Se a inflação cair…?, disse Fraga na televisão. Já o ministro disse na quarta-feira que a trajetória dos juros é declinante, acompanhando a inflação que este ano será inferior à do ano passado: ?Essa trajetória da inflação é que deve marcar a decisão do BC. ? Há nessas declarações um forte otimismo, considerando-se que os analistas contabilizam 8% de inflação nos últimos 12 meses, bem acima do teto da meta de 5,5% deste ano. Mas o BC tem dito estar de olho também em outros fatores para decidir as oscilações da Selic. ?Vamos ter de ver se há retração na economia?, disse na quarta-feira Ilan Goldfajn, diretor de política econômica do BC, sinalizando, também ele, que a possibilidade de queda dos juros é real.

 

Para que pudesse exibir um ar tranqüilo no seminário de sexta, o presidente do BC contou com uma providencial ajuda do ministro da Fazenda, Pedro Malan. Na tarde da terça-feira 14, enquanto o dólar ainda avançava morro acima, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, entrou em cena com o esguicho na mão. ?Para governar até o último dia deste mandato, não precisamos receber recados de quem quer que seja?, iniciou. Em seguida, anunciou um corte de R$ 5,3 bilhões no orçamento da União, explicando que a medida implicaria enxugamento de até 25% nas verbas de alguns ministérios. Ele tomara a decisão da tesourada na semana anterior ao anúncio, mas esperou o momento certo de fazê-lo. Justamente quando o mercado estava mais alvoroçado, Malan apareceu com sua fórmula, dura, de compensar perdas de arrecadação estimadas pelo governo em R$ 6,4 bilhões ?
R$ 4,9 bilhões, em razão da não cobrança de CPMF nos meses de junho, julho e agosto, aumento de gastos com pessoal de
R$ 1 bilhão e, ainda, déficit de R$ 500 milhões nas contas da

Anderson Schneider
?A hipótese Argentina não está afastada?
?Também me preocupo com os candidatos?
Armínio Fraga

Previdência. Para mostrar que não abre mão do superávit fiscal de 3,5% do PIB, Malan adiantou que nos próximos dias divulgará a nova alíquota de IOF, maior que a atual de 1,5%. ?Ao cortar o orçamento, mostramos que seguimos firmes com nossos compromissos pela estabilidade?, disse à DINHEIRO, na sexta-feira, o economista João Guilherme Reis, secretário de Política Econômica da Fazenda. Do lado social, a disposição ortodoxa de Malan significa que o Fundo de Combate à Pobreza, criado pelo ex-senador Antônio Carlos Magalhães com verbas da CPMF, perderá nada menos do que R$ 1 bilhão. Na prática, o Fundo está extinto até segunda ordem. A medida repercutiu tão bem na praça financeira que na mesma terça-feira a avaliadora Fitch engavetou a idéia de rebaixar a nota de risco do Brasil. No início da noite de quinta-feira, um privilegiado espectador da cena econômica resumia à DINHEIRO suas impressões sobre a semana que recolocaram Armínio Fraga e o BC no coração da guerra financeira. ?O Brasil sofreu, sim, um ataque especulativo?, disse Everardo Maciel, o secretário da Receita Federal. ?Foi pequeno, mas foi.?

Com reportagem de Ana Santa Cruz e Fabiane Stefano

Rota de fuga

Nos próximos dias a Receita Federal vai divulgar a conclusão de investigações feitas nos últimos dois anos sobre as famosas contas CC-5, usadas para a remessa de dinheiro do Brasil para o exterior. O resultado é uma bomba. ?Nossos auditores descobriram remessas ilegais de mais de R$ 5 bilhões para outros países entre 1995 e 1999?, adiantou à DINHEIRO o secretário da Receita, Everardo Maciel. ?A maior parte do dinheiro teve um primeiro estágio no Paraguai ou no Uruguai. Pediremos ao Ministério Público a instauração de centenas de processos criminais.? A investigação partiu de um dossiê preparado pelo procurador da República, Celso Antônio Três. Ele rastreou US$ 124 bilhões em remessas em contas CC-5, entre janeiro de 92 e dezembro de 98, onde estão detectados US$ 8,1 bilhões remetidos ilegalmente. ?Um escândalo como esse só ocorreu por negligência na fiscalização?, disse o procurador ao editor Hugo Studart. A Receita, por sua vez, destacou por dois anos 12 auditores que analisaram nada menos que 125 mil transações financeiras, feitas por cerca de 2.500 pessoas. O trabalho se concentrou em remessas feitas através das CC-5 em bancos de Foz do Iguaçu, no Paraná, e ao longo da fronteira brasileira no Rio Grande do Sul. ?Descobrimos ilegalidades e operações suspeitas em 99% das remessas analisadas?, diz o coordenador geral de Fiscalização da Receita, Paulo Ricardo Cardoso.