“A Turquia está muito doente. Seu futuro será decidido no fio da navalha”, afirma o líder nacionalista Devlet Bahçeli, que não hesita em dar este alerta, convencido de que a estratégia do governo de manter o país sob tensão o empurra para a ruína.

“Quando os nacionalistas turcos chegarem ao poder, os homens-bomba, os assassinos e os violadores vão se esconder”, proclama o presidente do Partido da Ação Nacionalista (MHP). “Nós somos os guardiões intrépidos da Turquia”, enfatiza.

Em cada um de seus discursos, Devlet Bahçeli, de 67 anos, profere as mesmas palavras, misturando retórica patriótica inflamada e críticas ao presidente Recep Tayyip Erdogan, convencido de que será ouvido em um país extremamente polarizado pelo conflito curdo e treze anos de um reinado islâmico-conservador.

Durante as eleições parlamentares de 7 de junho, o MHP chegou em terceiro lugar com 16,4% dos votos. As pesquisas apontam um resultado um pouco inferior no próximo domingo.

Mas Bahçeli não está disposto a renunciar ao discurso ultranacionalista do movimento que ele dirige há vinte anos.

Não surpreendentemente, fez da retomada do conflito com os curdos seu principal tema de campanha. E os “pontos fracos” do regime de Erdogan frente à rebelião curda seu alvo principal.

“Olho por olho, sangue por sangue, vingança, vingança!”, gritaram no último domingo quase 20.000 de seus partidários. “Não há necessidade de vingança”, respondeu Bahçeli. “Sentem-se e vocês vão ver cair aqueles que ferem a nós, os turcos”.

Desde o início, o MHP se opôs categoricamente às negociações de paz lançadas no final de 2012 pelo governo com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Seu fracasso em julho e a retomada dos combates entre as forças de segurança turcas e os rebeldes, que causaram a morte de mais de 150 policiais e soldados, só reforçou sua convicção de que a luta pela autonomia da minoria curda (20% da população) colocam em perigo os alicerces da República.

“Os muros que asseguravam a nossa segurança foram destruídos e nossa identidade nacional, assim como o nosso futuro, foram feitos reféns”, afirmou Bahçeli. “Eu vejo em seus olhos que o MHP ainda está aqui (…) para provar que continuamos de pé.”

Mesmo se o MHP rompeu com os protestos de rua mortais que construíram a péssima reputação de seus “Lobos cinzentos” nos anos 1970 e 1980, seu eleitorado continua profundamente ligado à defesa da “identidade turca”.

“Eu voto para o MHP desde 1973 e meu partido nunca me traiu. Mesmo se eu for o último do mundo a fazê-lo, eu vou continuar a votar nele”, disse um dos seus partidários mais leais, Sezgin Turan, um professor aposentado de 60 anos.

“Nós não nos opomos às minorias”, acrescentou, “mas há uma diferença entre odiar os estrangeiros e defender nossa nação”.

“Eu voto no MHP porque eu sou um turco e eu acredito que a Turquia deve primeiro servir aos turcos”, acrescenta Mehmet Gursel, um estudante de literatura de 23 anos que veste orgulhosamente o emblema com três crescentes do partido.

“O MHP é o único partido que não põe em causa o nosso caráter turco e que não vende o país aos estrangeiros”, acrescenta.

Após as eleições de 7 de junho, Bahçeli haviam negado categoricamente qualquer coalizão com o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Erdogan.

Além do fim das discussões com o PKK, ele exigiu a retomada das investigações anticorrupção contra a comitiva do homem forte do país e sua renúncia em exceder prerrogativas de chefe de Estado.

Desta vez, o líder do MHP parece mais aberto a um acordo com o atual governo se, como as pesquisas preveem, o AKP seja forçado a compartilhar o poder.

“O MHP não é o partido que diz não”, afirmou no domingo.

O professor de ciência política Ilter Turan, da universidade Bilgi de Istanbul, duvida, no entanto, da força de tal coalizão.

“Ambos dizem que seu parceiro não é confiável e, ao mesmo tempo, tentam provar para a sua própria base que fazem mais do que o outro”, explica.

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