17/06/2009 - 7:00

O presidente Lula acordou tenso na manhã da terça-feira 9. Não conseguiu esperar até a hora de uma reunião com os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Paulo Bernardo, do Planejamento. Sua aflição tinha a ver com o tema do encontro: a divulgação do desempenho do PIB brasileiro no primeiro trimestre. Uma hora antes, Lula ligou para Paulo Bernardo, que havia acabado de receber os relatórios do IBGE com o número fatídico.
E anunciou ao presidente: a economia recuou 0,8 % em relação ao trimestre anterior, que já havia sido negativo. A constatação, explicou o ministro, colocava o Brasil em recessão técnica. “O resultado me deixou triste”, afirmou Lula à tarde, em um evento público. Mas naquele momento ele já sabia que não havia motivo para tanta tristeza. Embora negativo, o número do IBGE era bem melhor do que o esperado pela maioria dos analistas e pelo próprio governo, que falavam em -1,5%.
E a tal recessão técnica era mais uma expressão verbal do que um fenômeno sentido nas lojas e nas ruas. Numa analogia com as telenovelas, é como um beijo técnico entre dois atores: parece de verdade e pode emocionar quem está vendo de fora, mas não continua após a câmera desligar.
Para o presidente Lula, queda de 0,8% do PIB no primeiro trimestre foi uma triste surpresa

Ministro Guido Mantega acertou: resultado foi melhor que o esperado e indica crescimento em 2009
A economia, de fato, recuou 4,5% nos dois últimos trimestres. Um olhar a longo prazo, porém, revela que ela ainda registra um crescimento de 3,1% nos quatro trimestres terminados em maio, em relação ao período anterior.
E, mesmo vislumbrado isoladamente, o recuo do primeiro trimestre ainda demonstra uma maior resistência brasileira à crise internacional do que a que ocorre no restante do mundo. Numa lista de 36 países que já divulgaram seus resultados do primeiro trimestre, o desempenho nacional é o oitavo melhor.
A surpresa positiva fez muitos economistas revisarem estimativas, acreditando agora que é possível que se concretizem as previsões de Mantega de crescimento em 2009. Alguns já falam em 3% no fim de 2009, abrindo caminho para voltar a crescer em 2010. Não no nível dos últimos dois anos, perto de 6%, mas num patamar melhor do que o do início da década.
O que fica claro, na análise dos primeiros seis meses de crise, é que, embora o mercado externo tenha sido prejudicado, a atividade econômica doméstica continuou forte. Tanto a importação quanto a exportação tiveram queda de 16% em relação ao último trimestre do ano passado. A indústria foi quem mais sofreu, com queda de 3,1%, na comparação com o fim de 2008. A agropecuária teve queda de 0,5%. Mas o setor de serviços, pouco influenciado pelo mercado externo, cresceu 0,8%. A principal surpresa positiva foi a alta de 0,7% no consumo das famílias.
Com renda em alta, desemprego concentrado em alguns setores e a volta do crédito ao mercado, os consumidores não só mantiveram inalterados os gastos do dia a dia como voltaram a consumir bens de maior valor agregado. Surtiram efeito as medidas tomadas pelo governo, como a redução do IPI para veículos.
Com a medida, o setor automotivo conseguiu recuperar no mercado interno parte das vendas perdidas na exportação e acumula crescimento de 3,2% nos últimos 12 meses terminados em maio. De qualquer forma, os dados apresentados na semana mostram um retrato do passado. “É um olhar pelo retrovisor. A economia já está dando sinais de recuperação e está melhor que outras economias do mundo”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Dados mais recentes já mostram essa recuperação. Em abril, a produção industrial cresceu 1,1%, em relação a março. A produção de carros subiu 6,7% em maio, em relação a abril. O emprego industrial ainda continua em queda, mas outros setores, mais ligados ao mercado interno, já estão contratando. O Caged, que registra as contratações com carteira assinada, mostra um saldo de 106 mil vagas em abril. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, afirma que o saldo de maio será maior.
O índice de desemprego nas regiões metropolitanas, do IBGE, já recuou para 8,9% em abril, depois de ter chegado ao pico de 9% em maio. Ainda não dá para afirmar com certeza que o pior já passou, mas dá para dizer que o Brasil está conseguindo passar pela crise mundial sem naufragar. E que não há razões para o presidente Lula ficar triste.
