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O bilionário Constantino: A sua empresa já é avaliada em US$ 6 bilhões

Até agora, a sorte tem andado ao lado do empresário Constantino Jr. Desde que ele criou a Gol, em 2000, duas das principais companhias aéreas do País, Transbrasil e Vasp, desapareceram dos céus. A maior delas, a Varig, virou uma sombra apagada do que já foi. E até mesmo um acontecimento trágico para a aviação ? o 11 de setembro de 2001 ? acabou ajudando. Isso porque, ao reduzir a demanda aérea global, aquele evento permitiu à Gol adquirir aeronaves de primeira geração a um custo menor. Toda essa sorte, porém, seria inútil se Constantino não tivesse uma idéia brilhante acoplada à capacidade de tirá-la do papel. Ao lançar a Gol com investimento inicial de US$ 20 milhões, o projeto era colocar no ar uma empresa aérea de baixo custo que fosse referência mundial. Deu certo. E muito mais rápido do que ele imaginava. Do nascimento aos dias atuais, a Gol já se valorizou 30.000% e hoje vale inacreditáveis US$ 6 bilhões. ?Foi a maior criação de valor da história da América Latina?, diz Constantino à DINHEIRO, com a voz baixa e um olhar até certo ponto envergonhado. Quem o encontra pela primeira vez logo percebe que o orgulho não está entre seus pecados capitais. Mineiro de Patrocínio, ele é daqueles que respondem a um simples ?como vai? com um resignado ?sobrevivendo?.

Nesses últimos seis anos, Constantino fez muito mais do que sobreviver. Na prática, ele reescreveu a história da aviação brasileira e sua Gol já tem quase 40% do mercado doméstico. Neste ano, a empresa deverá transportar 20 milhões de passageiros, faturar R$ 4 bilhões e lucrar quase R$ 800 milhões. Além disso, ele realizou junto à Boeing a maior encomenda de aviões já feita na América Latina. Não por acaso, a Gol acaba de ser escolhida pela Aviation Week como a mais eficiente do mundo, com uma rentabilidade de 20% num setor que, além de regulado, é marcado por colossais prejuízos. É nesse céu de brigadeiro que a empresa enfrenta seu maior desafio: o de continuar inovando e reduzindo custos na posição de líder, e não de franco atirador. ?O trem que te atropela, geralmente, é aquele que você não vê?, filosofa Constantino (leia abaixo sua entrevista à DINHEIRO). Mesmo bilionário, esse tímido empresário, um dos mais bem-sucedidos do País, continua avesso a badalações e 100% focado no trabalho. E seu modo de encarar o futuro é promissor para a sua empresa. ?Eu sei que, dentro de alguns anos, alguém será melhor do que a Gol de hoje?, diz ele. ?A nossa luta é fazer com que sejamos nós mesmos?. Entre as inovações recentes, a Gol agilizou o embarque dos passageiros sem bagagens com um sistema que permite o check-in pelo celular. Além disso, para reduzir custos, os novos aviões terão um número de assentos 30% maior. E isso sem espremer passageiros, garante Constantino.

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Inovação: Funcionária da Gol faz o check-in pelo celular em Congonhas para agilizar o embarque

Nessa sua nova etapa, a Gol teria plenas condições de colher lucros ainda maiores, impondo tarifas mais caras aos passageiros. Constantino, porém, garante que sua empresa não trilhará esse caminho. ?A nossa missão agora é popularizar a aviação em toda a América do Sul?, diz ele. ?Para isso, os preços têm que continuar caindo?. Pelas suas contas, o Brasil transporta anualmente 48 milhões de passageiros, mas, na prática, apenas 8 milhões de pessoas efetivamente voam ? algumas, várias vezes por ano. O mercado potencial, porém, seria de 20 milhões de pessoas. ?O nosso modelo de negócios estimula a demanda com preços menores?, diz ele. E a idéia é disseminar esse modelo em outros países. A Gol, que já voa para Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, está chegando ao Chile e ao Peru. E terá rotas diretas entre esses países, sem passar pelo Brasil.

Esse novo plano da Gol já com vento favorável no mercado financeiro. Michael Linenberg, analista da Merrill Lynch, projeta uma alta de quase 50% das ações da empresa, o que jogaria o valor de mercado para US$ 9 bilhões. ?Com a chegada de novas aeronaves, a companhia deverá ocupar rapidamente o espaço da Varig?, diz ele. A Gol, que iniciou 2006 com 42 aeronaves, fechará o ano com 62. Mas será que agora, sem ameaças externas no horizonte, a Gol mudaria sua filosofia? ?A política de baixo custo está no DNA da empresa?, garante o analista de um grande banco de investimentos. ?Se eles mudarem, perderão completamente a identidade?. Ou seja: na prática, não há quem aposte numa Gol acomodada e menos competitiva.

“A AVIAÇÃO HOJE É MUITO MELHOR”
Constantino Jr., dono da Gol, avalia que o consumidor não deve lamentar a agonia da Varig


DINHEIRO ? Gol e TAM têm 90% do mercado. Criou-se um duopólio?
CONSTANTINO JR.
? A concentração não significa falta de competição. A percepção de que há menos concorrência e tarifas mais altas se deve ao fato de que a Varig reduziu drasticamente a oferta na alta temporada.

Os preços subiram?
Em alguns vôos, o passageiro só conseguiu comprar os últimos assentos, com tarifa cheia. Mas a tendência, que será mantida no mercado brasileiro, é de redução de tarifas. E isso é medido por um indicador chamado yield, que é o preço da passagem por quilômetro. De 2001 para cá, a queda foi de 50%. É o que nós chamamos de efeito Gol.

Mas com a Gol no topo do mercado a coisa muda, não?
Não. Alguns têm a percepção equivocada de que as empresas estão explorando o cliente com tarifas altas, no momento de pico. A nossa percepção é inversa. É a de que o mercado cresce porque os preços estão baixos.

A Gol ajudou a afundar a Varig?
Não. Há problemas de gestão que vinham de muito tempo. Mas não posso negar que a entrada da Gol criou um novo paradigma no mercado. Aqui, a gente sai de casa todos os dias com o espírito de melhorar. Por isso, não gosto de vincular o nosso sucesso a uma história de fracasso.

É possível lucrar com preço baixo?
Claro que é. Nossa lógica é gerar sempre mais demanda. Em todas as rotas em que nós iniciamos operações, o mercado cresceu 20% de cara.

Mas não haverá uma acomodação com margens maiores?
A nova missão da Gol é popularizar o transporte aéreo. Se queremos mais gente voando, o preço não pode subir.

O mercado é pouco explorado?
É. Existem oito milhões de pessoas que voam. Nós avaliamos que pelo menos 20 milhões de brasileiros podem vir a utilizar o transporte aéreo.

De qualquer forma, vocês prometem reduzir custos por virtude, e não por pressão da concorrência.
Seja como for, a nossa filosofia não muda. Nós nascemos no setor de viagens interestaduais de ônibus, que transporta 180 milhões de passageiros por ano. Vamos imaginar que sejam 60 milhões de pessoas efetivamente viajando. Destes, 20 milhões vivem em áreas de influência de aeroportos. Portanto, dá para fazer o mercado da aviação mais que dobrar. Aqui, não existe nem vai existir relaxamento.

Como vocês vão expandir a oferta?
Nós começamos o ano com 42 aeronaves, hoje estamos com 51 e vamos receber mais 11, chegando a 62 ainda neste ano. Fizemos um pedido de 101 aeronaves junto à Boeing, que é a maior encomenda da história na América Latina. É só avião novo.

Por que um pedido tão grande?
Porque a nossa idéia é voar sempre com uma frota padronizada e nova. A idade média dos aviões, que hoje é de 7,3 anos, irá cair para 4,8 anos já em 2007. A estratégia pressupõe aviões capazes de preservar a pontualidade, a boa imagem e a eficiência, com um custo menor com manutenção.

Vocês podem agora vir a sofrer o ataque de concorrentes menores?
Normalmente, o trem que atropela é aquele que a gente não vê. Mas eu diria que a Gol, em 2000, quebrou paradigmas. Lançamos reserva pela internet, check-in pela internet, vôo noturno com preço de ônibus e financiamento em 36 vezes. Com isso, a Gol virou referência. Agora, nosso exercício é outro. Nós sabemos que amanhã alguém será melhor do que a Gol de hoje. E trabalhamos duro para que sejamos nós mesmos. Para que um novo entrante se estabeleça, terá de quebrar paradigmas. Mas estamos atentos.

Deve-se chorar a agonia da Varig?
Eu diria que hoje a aviação brasileira é muito melhor do que no passado. As empresas têm um balanço mais forte, mais pessoas viajam e a tarifa nunca foi tão baixa. E o mercado continuará sendo competitivo.

Recentemente, o sr. apareceu numa lista de bilionários globais. O que isso mudou na sua vida?
Nada. Continuo focado no trabalho e tentando dar o melhor. A criação de valor da Gol está muito mais voltada para o sonho de popularizar o transporte do que para o enriquecimento pessoal. Nossa vida sempre foi transporte de passageiros e vai continuar sendo. Na Gol, o desafio era reescrever a história da aviação a partir de um papel em branco. Misturamos pessoas jovens com outras experientes, mas todas com espírito inovador. Deu certo.