08/05/2002 - 7:00

Preste atenção em alguns movimentos empresariais recentes. Na área de alimentos, a Sadia acaba de anunciar o fim de suas atividades na Argentina. No setor de autopeças, o México tornou-se o segundo maior mercado para os produtos brasileiros, atrás apenas dos Estados Unidos ? a Argentina, que até o ano passado ocupava esse posto, caiu para o quinto lugar. No aço, a Companhia Siderúrgica Nacional está finalizando os estudos para associar-se à Bethlehem Steel, a principal siderúrgica americana. Na indústria automobilística, a Marcopolo, maior fabricante nacional de ônibus e carrocerias, está prestes a iniciar suas exportações para os Estados Unidos. Mas repare no detalhe: os veículos não sairão da linha de produção de Caxias, no Rio Grande do Sul. Serão fabricados numa nova planta da empresa localizada no norte do México, em Monterrey. Todos esses lances têm algo em comum: revelam a ambição dos empresários de associar-se a um clube poderoso, capitaneado pelos Estados Unidos. Trata-se da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o maior bloco comercial do mundo, que terá um PIB de US$ 11,5 trilhões, 800 milhões de habitantes e reunirá 34 países a partir de 2005. ?Quero exportar para os Estados Unidos de qualquer forma, com a Alca ou sem ela?, afirma José Rubens de La Rosa, presidente da Marcopolo. O pragmatismo empresarial levou a empresa a optar pelo México. Lá, os ônibus são feitos dentro das especificações exigidas pelo governo de George W. Bush e entram com alíquota zero nos Estados Unidos, um país que importa US$ 1,3 trilhão por ano e tem déficit com quase todos os seus parceiros comerciais ? o Brasil é uma das poucas exceções.
O movimento dos empresários é emblemático por uma outra razão. Nos últimos oito anos, a diplomacia brasileira lançou olhares apenas para o Sul. A estratégia assumida do Itamaraty era fortalecer o Mercosul e tentar atrair outros países para o bloco, além de Argentina, Uruguai e Paraguai, com o objetivo de reforçar a liderança geopolítica do Brasil na região e falar grosso com os Estados Unidos na mesa de negociações. Mas eis o resultado: o comércio entre os quatro países do Mercosul em 2002 ficará abaixo de US$ 10 bilhões, ou seja, será inferior até ao do marco zero do tratado, que foi assinado em 1994, entre as montanhas de Ouro Preto. Em seis dos sete primeiros anos do bloco, o Brasil foi deficitário no comércio com seus parceiros ? o rombo acumulado chega a US$ 3,4 bilhões. ?O Mercosul implodiu?, aponta Ademerval Garcia, que representa os produtores de suco de laranja. ?Insistir será perda de tempo.?

Aviões e Sapatos: na Alca, a Embraer ganhará músculos para enfrentar a Bombardier (foto à esq.); no setor de calçados, empresários planejam dobrar as vendas para os Estados Unidos
A constatação revela que o Brasil começou a se render aos fatos e também levanta a urgência de um novo enfoque para a política comercial brasileira. As grandes oportunidades, claramente, não estão localizadas abaixo da linha do Equador, mas sim na fronteira Norte. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, que analisou 45 setores da economia nacional, apontou que o Brasil teria muito a ganhar ? principalmente no aço, na agroindústria, na área têxtil e de calçados ? se aderisse à Alca. Quanto? Projeções dos próprios empresários apontam um potencial imediato de aumento de vendas da ordem de US$ 5 bilhões, que poderiam se somar aos US$ 14,5 bilhões que o Brasil exportou aos Estados Unidos em 2001. ?A desvalorização cambial fez do Brasil um país muito mais competitivo?, afirma Lia Valls Pereira, autora do relatório, feito sob encomenda do Ministério do Desenvolvimento. Um outro estudo, divulgado pela Receita Federal na quinta-feira 2, reforça a tese. A partir de dados de recolhimento de impostos e taxas de importação e exportação no Sistema de Comércio Exterior entre 1997 e 2000, os técnicos mapearam todas as relações comerciais do Brasil com os outros 33 países que formam a Alca e fizeram simulações do que representaria a flexibilização das barreiras alfandegárias entre eles. ?O acordo pode ser bom para todos países envolvidos?, indica a coordenadora de Política Tributária da Receita Federal, Andréa Lemgruber Viol. Confira os dados: no período estudado, o número de empresas exportadoras cresceu 6,3%, com o ingresso de 1,7 mil novas firmas. Enquanto isso, o número de importadores recuou 9,97%. Mais importante: o aumento mais significativo ocorreu nas vendas de produtos de alto valor agregado, como aviões, helicópteros e celulares, no espaço da Alca. Os celulares made in Brazil faturaram US$ 910 milhões, ou 16,2% do total. ?Isso demonstra que é falsa a tese de que, diante da concorrência americana, o Brasil só poderá exportar produtos de baixo conteúdo tecnológico?, afirma.

Frango e Ônibus: enquanto a Sadia estima vender US$ 500 milhões no mercado americano, a Marcopolo, de Rubens de La Rosa, produz no México veículos vendidos nos EUA
De olho nessas oportunidades, vários empresários têm dedicado grande parte do seu tempo a fazer contas sobre o impacto da Alca. O exportador de sucos Garcia calcula que sem as restrições não-tarifárias, que hoje elevam o preço dos derivados de cítricos em 40%, o Brasil poderá ganhar US$ 1 bilhão só no mercado americano. Luiz Fernando Furlan, presidente da Sadia, vislumbra um naco de US$ 500 milhões nos Estados Unidos para a venda do frango brasileiro. No ano passado, sua empresa, que exportou
US$ 1,6 bilhão, não faturou um centavo no mercado americano em razão de barreiras protecionistas. ?A única forma de resolver esse problema é aderir à Alca e negociar, em vez de apenas reclamar?, diz Furlan. Na Argentina, onde a Sadia atuava desde 1992, as vendas recuaram de US$ 50 milhões para apenas US$ 3 milhões em 2002. Ou seja: a aposta da empresa no Mercosul morreu de inanição. A Embraer, que exportou US$ 2,8 bilhões no ano passado, é também entusiasta de um bloco comercial que vá do Alasca à Patagônia. Hoje, como seu grande rival é uma companhia canadense, a empresa já sai em desvantagem no mercado americano. ?Se estivéssemos no clube, teríamos condições melhores para enfrentar a Bombardier?, afirma o vice-presidente Henrique Rzezinski. Exemplos como esse são generalizados. Entre os produtores de sapatos, a Abicalçados, entidade que representa o setor, estima um potencial imediato de aumento nas vendas da ordem de US$ 1,1 bilhão. Na área têxtil, a Coteminas, que exportou US$ 160 milhões para os Estados Unidos em 2001, vê espaço para dobrar os negócios se as barreiras forem eliminadas ? o setor é sujeito a uma tarifa média de 15% e a cotas que limitam as exportações. ?Não tenho medo da Alca porque somos competitivos?, afirma José Alencar, o dono da empresa. Paulo Skaf, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, faz coro: ?Podemos exportar, por baixo, US$ 700 milhões a mais para os Estados Unidos até 2007?.
Há ainda outra razão que faz os empresários brasileiros olharem com inveja para a fronteira ao Norte. Trata-se da miragem mexicana. Em 1994, ano da criação do Mercosul, o México aderiu ao Nafta, unindo-se ao Canadá e aos Estados Unidos. Para os críticos, era um sinal de rendição e de aceitação de uma postura subalterna em relação ao vizinho mais forte. Mas hoje os mexicanos exportam US$ 135 bilhões para os Estados Unidos ? quase dez vezes mais do que o Brasil ? e têm um superávit anual de US$ 30 bilhões com os americanos. Com acesso livre aos Estados Unidos, os mexicanos negociaram acordos com diversos países ? um deles deve ser assinado com o Brasil até junho deste ano, zerando as alíquotas de 2,6 mil produtos. É a grande aposta da indústria automobilística, que no primeiro bimestre deste ano exportou US$ 131,2 milhões para o México, três vezes mais do que para a Argentina. ?Esse já é o nosso segundo maior mercado e também o mais promissor?, aponta Lourenço Oricchio, diretor para as Américas da Sabó, a maior indústria de autopeças de capital nacional. Sua empresa vendeu US$ 25 milhões para o Nafta em 2001 e espera dobrar de volume até 2005. Uma das formas de atingir a meta é iniciar a produção local no México, algo que já está em fase de análise.
O sucesso mexicano, ancorado no livre comércio, leva alguns analistas até a tripudiar do Brasil. ?Não consigo entender vocês?, disse à DINHEIRO Hermínio Blanco, idealizador da política de abertura e ministro do Comércio do México entre 1994 e 2000, período em que os negócios no Nafta saltaram de US$ 300 bilhões para US$ 702 bilhões. ?Preferem ficar de fora da Alca, mesmo tendo um déficit de US$ 1,5 bilhão com os Estados Unidos.? Os sindicalistas americanos também custam a compreender a posição brasileira. Eles calculam que 1 milhão de empregos cruzaram a fronteira do Rio Grande, depois que grandes multinacionais decidiram aproveitar a mão-de-obra barata e abundante para produzir no México e vender nos Estados Unidos. ?A criação da Alca irá transferir ainda mais empregos dos Estados Unidos para outros países da América Latina?, afirma John Sweeney, presidente da AFL-CIO, a maior central sindical do país.
É evidente que nada garante que o fenômeno mexicano se repita com o Brasil. No caso do México, o governo americano ofereceu uma série de vantagens porque há um problema crônico de imigração entre os dois países. Mas também nada indica que os Estados Unidos, que têm um déficit anual de US$ 450 bilhões com o resto do mundo, sejam o bicho-papão do comércio global. ?Tudo dependerá da nossa capacidade negocial?, afirma o empresário Jorge Gerdau Johannpeter. Ele fala com conhecimento de causa. Dono de usinas no Canadá e nos Estados Unidos, Gerdau já fatura US$ 1 bilhão no mercado norte-americano. Instalar-se na América do Norte foi a forma de fazer parte do clube dos ricos, a despeito das intermináveis discussões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Seu exemplo, hoje seguido pela CSN, revela um outro aspecto da globalização: apesar dos acordos comerciais, em muitos casos é preciso atender grandes mercados com produção local. Isso, de certa forma, protege o Brasil. ?Não existe a menor hipótese de uma multinacional americana deixar de investir no Brasil para atender o mercado brasileiro com exportações?, afirma José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors. ?Se a Alca vier a ser aprovada, os negócios da GM no Brasil irão crescer no dia seguinte.?
Todos esses argumentos têm sido levados ao governo brasileiro, que ainda adota uma postura cautelosa. Até porque a autorização concedida pelo Congresso americano ao presidente Bush para negociar a Alca, o chamado fast-track, impõe uma série de amarras em setores em que o Brasil é competitivo. Além disso, volta e meia, os americanos dão mostras de prepotência, como fizeram na semana passada ao incluir o Brasil na lista dos países que mais promovem a pirataria. Em outra manobra, o Congresso americano aprovou a farm bill. Trata-se de um pacote de subsídios de US$ 45 bilhões para os agricultores americanos. ?Nos termos do fast-track, a Alca não interessa ao Brasil?, disse o ministro Sérgio Amaral, do Desenvolvimento, ao chefe da sucursal de Brasília da DINHEIRO, Marco Damiani. ?Mas se conseguirmos negociar nos nossos termos, para vender tudo o que queremos de aço, café, calçados, têxteis e suco de laranja, será o grande negócio da década.? É exatamente isso que os empresários começaram a cobrar do governo: a busca de uma negociação vantajosa para o Brasil, em vez de um discurso repleto de lamúrias e reclamações. Na sexta-feira 3, Amaral viajou para Washington onde iria encontrar-se com o secretário de Comércio americano, Robert Zoellick, e com o vice-presidente Dick Cheney. Pode ser um bom começo.