28/07/2001 - 7:00
Os Estados Unidos são o país da diversidade também no mercado financeiro. Basta dar uma olhada na relação de produtos segmentados disponíveis. Lá existem contratos de hipoteca para gays, conta bancária para idosos e fundos de investimento para deficientes físicos. E há uma explicação justa. Imagine uma bolsa onde há mais de 2 mil ações com liquidez negociadas diariamente. E onde todo mundo é investidor, do rico ao pobre, do jovem ao velho. ?A segmentação evita que o aplicador fique perdido no meio de tantas opções?, explica Noriko Yokota, diretora de renda variável do Citibank. Ficou animado? Calma. O mercado brasileiro ainda é infinitamente menor que o americano. Mesmo assim, este é um conceito que vem ganhando força. Prova são os produtos direcionados ao público feminino. Já existem por aqui conta bancária (do Banco Safra), plano de saúde (da Cigna), seguros e até clube de investimento (da Senso Corretora de Valores) só para mulheres. Todos prometem
tratamento diferenciado. Mas será que existe algo a mais por
trás do marketing cor-de-rosa? Na maioria dos casos, o mais importante para você (a rentabilidade) não sofre qualquer
impacto diferenciado por causa do rótulo.
Eis um exemplo. O ?Bom Senso Feminino?, um clube de investimentos que alia aplicações em renda fixa e variável, é feminino só no nome. O que você poderia esperar de um produto com esse apelo é que, como nos Estados Unidos, ele concentrasse as aplicações em empresas com atuação voltada para o público feminino, como indústria de cosméticos. Só que aqui no Brasil, sequer existe número suficiente de companhias segmentadas de capital aberto para formar uma carteira. ?Optamos então em buscar boas oportunidades entre grupos considerados socialmente responsáveis?, diz Danielle Cidade, gerente de negócios da Senso. Em termos de rentabilidade, o clube feminino teve variação negativa de 9,6% no último ano. Se você comparar com o Ibovespa (-16,88%), foi melhor. Já se a sua opção tivesse sido um fundo de renda fixa (3,13%) ou um de ações (-8,1%), sairia perdendo. O que reforça o que a maioria dos analistas diz. ?Um bom investimento independe de sexo?, reforça Noriko.
Para o educador financeiro Victor Zaremba, só vale a pena a compra de um produto segmentado se houver vantagem exclusiva para seu bolso. Como exemplo, ele cita os seguros de carro. O número de sinistros no trânsito entre as mulheres é inferior aos entre homens. E a diferença permite que as seguradoras ofereçam descontos para o primeiro grupo. É o típico caso em que um produto direcionado significa ganho real.
De olho nesse mercado, a Cigna lançou o seguro feminino Proteção Mais, que destina até R$ 100 mil em casos de diagnóstico de câncer de mama ou do aparelho reprodutivo. É uma boa opção, mas atenção: não pode ser encarado como única proteção. Se você pretende investir apenas num seguro de vida, esse produto não é adequado. Ele funciona como um complemento de garantia,
já que só se refere a um tipo de fatalidade. É bom lembrar
que outros planos também têm mecanismos que pagam parte
do seguro em vida.
Agora, que vantagem existe em ter uma conta bancária feminina? O Cheque Mulher, do Safra, tem as mesmas tarifas de uma conta convencional. A diferença está na flor desenhada nas páginas do talão. Então, ao escolher um investimento, avalie bem as características e riscos de cada opção. Ainda mais se você estiver atuando no mercado de ações. Quando o assunto é finanças, não vale a pena pagar mais ou correr o risco de ganhar menos apenas para carregar um rótulo no portfólio. O objetivo é potencializar os lucros, jamais os gastos. Assim, o critério de exclusividade feminina não deve ser decisivo na escolha de uma aplicação financeira. O que vale é comparar o desempenho na ponta do lápis e deixar a flor apenas para comemorar os lucros obtidos.