04/09/2002 - 7:00
O principal ativo da multinacional suíça Nestlé atende pelo nome de Nescafé. A marca, criada em 1938 sob inspiração do governo brasileiro ? que sugeriu à direção da companhia que inventasse o primeiro café em pó industrializado ?, está avaliada hoje em US$ 12,8 bilhões, de acordo com a consultoria Interbrand Corporation. A cada segundo são degustadas três mil xícaras deste café solúvel em todos os cantos do planeta. Isto lhe garante a confortável posição de a bebida mais consumida do mundo nesta categoria. No Brasil ? onde as vendas totais da Nestlé somam US$ 2,5 bilhões por ano ? a marca também faz bonito. É líder com 67% do mercado. Números, sem dúvida, impressionantes. Isso, contudo, não satisfaz o apetite de Ivan Zurita, presidente da subsidiária local. É que em meio à safra de boas notícias, a empresa que ele dirige permanece na segunda posição no ran0king dos exportadores de café solúvel, segmento que movimenta US$ 200 milhões por ano. A pole position está nas mãos da brasileiríssima Companhia Cacique de Café Solúvel, com uma fatia de 30% dos embarques do produto.
Zurita, contudo, espera virar rapidamente este jogo. Em meados de 2003, entra
em operação a maior fábrica de Nescafé do mundo. A unidade, instalada em Araras (SP), vai consumir investimentos de R$ 95 milhões e possibilitará triplicar a produção atual para 32 mil toneladas por ano. O alvo dos executivos da Nestlé é o mercado do Leste Europeu, leia-se Rússia, que responde por metade dos ganhos da Cacique. Não é de hoje que a multinacional suíça tenta se aproximar da arqui-rival. No período 1999-2001 suas exportações saltaram de 5,4 mil toneladas para 13 mil toneladas. No primeiro semestre deste ano, a empresa saboreou sua primeira vitória, ao embarcar 8,3 mil toneladas, 952 toneladas acima do total vendido pela principal concorrente. A obstinação da Nestlé é tanta que a companhia fechou suas fábricas na Argentina e no Chile para concentrar-se totalmente no Brasil.
A movimentação da multinacional é encarada com naturalidade pela principal rival. ?Não nos preocupamos com o que os concorrentes estão fazendo?, diz Sergio Pereira, diretor internacional de Marketing da Companhia Cacique. Segundo ele, a estratégia da empresa consiste em consolidar sua posição nos países onde já atua com as marcas próprias: Pelé e Cacique, além de firmar-se como um importante fornecedor mundial de café para grifes de terceiros (supermercados e companhias alimentícias, por exemplo). Pereira lembra que a Cacique jamais ficou de braços cruzados assistindo ao avanço dos competidores. ?Investimos pesado nos últimos anos, principalmente em produtos inovadores como o café freeze dried (secado a frio), cujo valor de mercado atinge US$ 12 o quilo, o dobro do tipo comum?, conta.
A nova planta, instalada no complexo industrial de Londrina (PR), consumiu US$ 30 milhões e tem capacidade para fabricar 1.800 toneladas do café freeze dried. ?Vamos atingir o pico de produção em 2003, dois anos antes do previsto?, festeja o diretor da Cacique. Quanto ao domínio do mercado russo e dos demais países do Leste Europeu, o diretor da Cacique confia em um trunfo, de certo, difícil de ser batido: a imagem e a assinatura de Pelé, o garoto-propaganda mais famoso do planeta.