O Netscape chegou ao fim. Na semana passada, a AOL anunciou que o navegador pioneiro na internet será retirado de cena a partir de 1º de fevereiro. Após esta data, todo e qualquer suporte do produto estará inativo. Apenas versões antigas estarão disponíveis para download. “Nossas equipes investiram muito tempo e energia na tentativa de reanimar o Netscape, mas esses esforços não foram prósperos em ganhar mercado frente ao Internet Explorer da Microsoft”, informou o diretor da AOL, Tom Drapeau. Mais do que a simples aposentadoria de uma ferramenta de acesso à rede, o desaparecimento do Netscape significa o fim de uma era na história da internet. Seu surgimento representou a popularização da internet. Até então, a rede era um espaço acessível para universidades, grandes corporações e instituições, como as Forças Armadas. O Netscape levou a internet para dentro das casas e a transformou num instrumento de uso cotidiano, como a televisão e o rádio. “Ele foi um browser revolucionário, adorado e cultuado por uma legião de internautas”, lembra Cid Torquato, especialista em economia digital. “Em termos práticos, seu fim não representa muita coisa, mas em termos culturais sim, pois desaparece um dos ícones pioneiros da internet.”

Lançado em 1994 pelo então estudante Marc Andreessen, o Netscape se tornou uma sensação imediata. Em meados dos anos 90, era usado por cerca de 90% dos internautas. No entanto, sua rápida ascensão foi também responsável pelo seu declínio, pois despertou o apetite da Microsoft para a internet. “O Netscape pegou a Microsoft de calças curtas. A empresa de Bill Gates queria ser a dona da internet, mas, pela primeira vez, teve que se adaptar ao mundo e não o mundo a ela”, acredita Alexander Mandic, um dos precursores da internet no Brasil. A batalha entre as empresas ficou conhecida como a guerra dos navegadores da web. A integração do Internet Explorer ao Windows foi um dos principais motivos que levou a Microsoft a enfrentar um processo antitruste. Mas a Microsoft prevaleceu. Hoje, o Explorer detém 80% dos acessos à rede. O Netscape possui apenas 6%

Andreessen, porém, sempre carregará no currículo o título do “homem que fez a Microsoft tremer”. Ele era um jovem precoce que começou a se destacar no colégio pelo conhecimento em computadores. Com pouco mais de 20 anos, criou seu primeiro browser, o NCSA, na Universidade de Illinois (EUA). Em seguida, desenvolveu o Mosaic, um navegador mais amigável e compatível com PCs. Sua popularidade não demorou a despertar o interesse de Jim Clark, fundador da Silicon Graphics, que viu no Mosaic uma grande oportunidade comercial. O resultado dessa parceria foi o Netscape. Do dia para a noite, o jovem Andreessen, que ganhava US$ 6,8 por hora no Centro Nacional de Aplicações Supercomputacionais na Universidade de Illinois, acumulou um patrimônio de US$ 171 milhões.

Quando o Netscape estava perdendo a batalha para o Explorer, em 1999, Andreessen e Clark o venderam para a AOL por US$ 4,2 bilhões. Andreessen permaneceu como chefe de tecnologia da empresa. Mas o Netscape jamais retomaria o antigo prestígio. Para Mandic, não foi novidade. “Tudo que a AOL fez até hoje na web deu meio errado. A empresa comprou o navegador, mas não fez nada com ele. Mesmo antes do anúncio de seu fim, já não se conseguia fazer o download.” Logo Andreessen deixaria o cargo para criar a Opsware, especializada em serviços para a web. Hoje, o ídolo dos anos 90 ainda figura no cenário digital. Lançou em 2004 a plataforma Ning, que permite a criação de redes sociais personalizadas. Aos 37 anos, o milionário ainda mantém contato direto com os internautas por intermédio de seu blog Pmarca.