09/06/2001 - 7:00
Nenhuma adversidade parece atingir a Nokia, a gigante de celulares. Tome-se, por exemplo, as oscilações do dólar no Brasil. Diante do risco de perder mercado com o aumento do custo da matéria-prima, que encareceu seus produtos, a empresa deu uma volta de 180 graus e virou a produção para o consumidor externo. Há algumas semanas, a Nokia Brasil converteu-se numa das maiores plataformas de exportação do grupo, atendendo a praças tão distintas como Uruguai e Venezuela, Argentina e Colômbia. O finlandês Sven Markelin, presidente da companhia no Brasil, deflagrou um processo ambicioso para tornar a fábrica de Manaus na base de lançamentos de produtos da marca para toda a América do Sul. ?Já iniciamos o envio dos celulares para países como o Chile, e passaremos a substituir todas as vendas no continente que eram cobertas pelas fábricas do México, Estados Unidos e Coréia do Sul?, afirmou Markelin à DINHEIRO. A meta para este ano é garantir uma receita de US$ 100 milhões em exportações, o que representará 10% do faturamento de US$ 940 milhões computados aqui em 2000. A jogada de Markelin é um drible de mestre na crise brasileira e faz parte dos planos ambiciosos do conglomerado, que há anos estava afastado do rentável mercado de infra-estrutura de telefonia móvel e agora comemora o primeiro contrato para fornecer a plataforma de telecomunicação GSM à Telemar. A operadora pagará US$ 680 milhões para a implantação do sistema na banda D, que começa a operar no início de 2002. Para Markelin, trata-se do início de uma nova fase da companhia. ?Ficamos fora deste mercado até agora porque não trabalhamos com a tecnologia CDMA e TDMA, que vigora ainda no País. Mas novos contratos com GSM estão em análise e a receita com infra-estrutura deverá representar 30% do nosso faturamento no ano.?
A Nokia está finalizando no momento os preparativos para fabricar também os celulares GSM, que serão desovados no mercado assim que o sistema entrar em operação. ?Eles vão superar a comercialização dos atuais modelos.? Estuda-se até a produção local do badalado Communicator, modelo que inclui agenda, browser de navegação na Internet, e-mail e mesmo modem para fax. O equipamento custa cerca de US$ 700 no exterior. Dentro de alguns anos, a fábrica de Manaus poderá produzir ainda os celulares de terceira geração, que têm altíssima velocidade de navegação na web. Markelin guarda ainda outra carta na manga. Acompanha atentamente as discussões para a definição do sistema de televisão digital, e caso vingue o modelo europeu, estuda entrar em uma área que ninguém suspeitava, o de bens de consumo propriamente ditos. ?Vamos analisar seriamente a possibilidade de produzir no Brasil o minicomputador Media Terminal?. O aparelho, a ser lançado nos EUA até dezembro, faz a interface entre a televisão e a Internet. Permite gravar imagens ou armazenar músicas.
Enfim, planos não faltam na Nokia. É verdade que vários problemas estão no seu caminho. No exterior, a matriz anunciou que o desaquecimento em países como os EUA não permitirá que o faturamento global cresça 20% sobre os US$ 27 bilhões de 2000. A meta agora é 10%. No Brasil, a alta do dólar e as incertezas sobre as conseqüências do racionamento de energia já resultaram em queda de 30% nas vendas de celulares em geral, entre janeiro e maio, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Tudo por questões conjunturais. Outras tormentas devem vir pela frente. ?As operadoras de telefonia móvel estão absorvendo com seus subsídios os reajustes nos preços dos celulares devido à alta do dólar. Só que a facilidade tende a acabar.? Os modelos pré-pagos devem ser o alvo principal, pois não geram a receita em minutos de conversação que se esperava. Markelin admite que nunca teria previsto em outubro passado a reviravolta negativa no mercado. E pensaria duas vezes antes de pagar à Gradiente os US$ 415 milhões pelos 49% das ações da fábrica de Manaus. ?Agora talvez pagássemos um valor mais baixo ou mesmo obrigaríamos o empresário Eugênio Staub a compartilhar os problemas no setor conosco.? Mas Markelin diz que está mesmo atento no futuro. Tanto que a Nokia está estreando aqui no segmento de programas de segurança da Internet. Algo que não rende nem 1% da receita mundial do grupo atualmente. Mas pode render milhões de dólares no País em pouquíssimo tempo.