Três anos atrás, o Brasil era uma das dez opções dos alemães da Continental. Reunidos em Hanover, os executivos da multinacional, uma das maiores do mundo na produção de pneus, haviam decidido investir US$ 260 milhões numa fábrica com dois objetivos: exportar 90% da produção para os Estados Unidos e vender o restante no mercado interno. Depois de um ano de estudo, o Brasil venceu a disputa deixando para trás concorrentes como México, Malásia e Lituânia. Começava, então, a nova guerra. A dúvida era em que região alocar o investimento ? e a Bahia era uma alternativa remota. Aos poucos, porém, os alemães foram seduzidos por vantagens como o custo da mão-de-obra, a facilidade para exportar pelo porto de Salvador, além, é claro, de um pacote generoso de incentivos fiscais. Resultado: na quarta-feira 5, o alemão Manfred Wennemer, chefe do board da Continental, e o presidente Lula inauguram uma nova indústria em Camaçari, na Bahia. Serão mil empregos diretos e outros 4 mil indiretos. ?É uma de nossas plantas mais modernas do mundo?, disse à DINHEIRO Renato Sarzano, responsável pela área de pneus na América Latina. Com o início da produção, a Continental, localiza a um quilômetro da Ford, deverá ser o 26º fornecedor da montadora instalado em Camaçari. ?Já alcançamos a capacidade plena da fábrica e estamos comprando 76% das peças localmente?, revela Edson Molina, responsável pela logística da Ford em toda América do Sul.

O exemplo da Continental indica uma segunda onda no processo de industrialização do Nordeste, que tem 27,5% da população brasileira e apenas 13,7% do PIB ? metade da renda per capita, portanto. Apesar da distância em relação às regiões mais ricas do País, as empresas que hoje desembarcam no Nordeste chegam não só em função dos incentivos fiscais, mas também interessadas em fazer parte de uma base produtiva já consistente. Camaçari, por exemplo, tem um PIB de R$ 12,2 bilhões, maior até do que o da capital Salvador. Além disso, o governo federal tem priorizado investimentos na região ? os projetos anunciados, como o da Transnordestina e da Refinaria de Pernambuco, somam mais de R$ 10 bilhões. Tudo isso ajuda a entender por que o consumo dos nove estados da região tem crescido tão fortemente. No ano passado, os dados da Anfavea, associação das montadoras de veículos, apontaram uma expansão de 9,6% nas vendas nacionais, que chegaram a 1,6 milhão de unidades ? no Nordeste, porém, o salto foi de 17,6%. A Fiat, líder do setor, cresceu 15,9% no País e 22% no Nordeste. E a tendência vale para todo o varejo. Dias atrás, o IBGE divulgou o desempenho nacional do comércio em 2005. No Sudeste, as vendas cresceram 5,3%. No Sul, região afetada pela crise do agronegócio, houve queda de 0,4%. No Nordeste, porém, o salto foi próximo a 20%. Na área de energia, enquanto o consumo cresceu 4,6% no Brasil em 2005, o avanço foi de 7,5% e de 7,8% em Sergipe e na Paraíba.

Grandes investimentos privados também vêm ocorrendo em Pernambuco. Em julho, o grupo italiano Mossi & Ghisolfi irá inaugurar nos arredores do Recife a maior fábrica de resinas PET do mundo ? é um projeto de US$ 400 milhões. Além disso, o estado conhecido como Leão do Norte foi escolhido para sediar a nova refinaria da venezuelana PDVSA ? são mais US$ 2 bilhões ? e também o estaleiro que está sendo construído pelo grupo Camargo Corrêa, na região do Porto de Suape. ?Nós já temos US$ 9 bilhões em carteira?, comemora Alexandre Valença, secretário de Desenvolvimento Econômico. De acordo com seus cálculos, em apenas oito anos,
a participação da indústria no PIB pernambucano saltará de 30% para 45% do total. A chave para atrair capitais privados, diz Valença, foi um programa pesado de investimentos em infra-estrutura, que incluiu a construção do Aerporto de Petrolina e a duplicação da BR-232, que cruza o Estado. ?Isso ajudou a interiorizar o desenvolvimento?, diz ele. Há algumas semanas, o grupo hoteleiro Accor, de origem francesa, anunciou a construção de oito empreendimentos em Pernambuco, dois deles em Petrolina e Caruaru.

O momento favorável do Nordeste também reverte uma tendência negativa. ?Nos anos 90, nós vínhamos perdendo participação no PIB?, diz José Sydrião de Alencar Júnior, do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Banco do Nordeste, em Fortaleza. ?De alguns anos para cá, o sinal se inverteu?. Além disso, diz ele, há uma série de grandes projetos em andamento nas áreas de infra-estrutura e indústria de base (leia quadro ao lado). Além da ferrovia Transnordestina, que irá do Piauí a Pernambuco, destacam-se a Usina Siderúrgica do Ceará, a duplicação da BR-101, do Rio Grande do Norte à Bahia, e a ampliação da malha de gasodutos da Petrobras. ?O Nordeste é a bola da vez?, aposta o empresário Mario Garnero, do grupo Brasilinvest. Garnero espera viabilizar dois megaprojetos na região. Um, no Norte da Bahia, prevê a construção de uma ferrovia e de um porto, que escoariam a produção de grãos. Seriam US$ 900 milhões. O outro, em Sergipe, prevê a construção de complexo turístico que seria quase uma nova Cancún. Só aí, mais US$ 2 bilhões. ?Já há investidores interessados?, garante Garnero.

Outra explicação para o crescimento do Nordeste tem a ver com a expansão dos repasses de recursos federais para a região. Entre 2000 e 2005, as transferências governamentais saltaram de R$ 10 bilhões para R$ 19 bilhões ? impulsionadas, em parte, por programas como o Bolsa Família. E isso contribui para a euforia do comércio na região. A rede varejista baiana A Insinuante, com 220 lojas no Nordeste, cresceu 58% no ano passado e alcançou uma receita anual de R$ 1,6 bilhão. ?Vamos continuar focados na nossa região e a meta é crescer mais 20% neste ano?, conta o diretor comercial Rodolfo França. Há também grande expectativa com relação ao aumento do salário mínimo para R$ 350 em abril, que irá injetar mais R$ 15 bilhões no comércio popular. ?Nós fomos favorecidos pela expansão do consumo das classes C e D, mas também criamos estratégias locais, ajustadas ao poder de compra da região?, diz Gilberto Pires, da gigante Unilever, que está lançando uma nova versão do detergente Ala, com fragrância de lavanda, só no Nordeste ? o produto popular, produzido perto de Recife e criado em 1996, já tem 23,2% do mercado nacional de sabão em pó. Para servir as consumidoras que podem desembolsar menos recursos, a Unilever lançou embalagens menores ? na de 500 gramas, o custo é de R$ 1,60. Outra multinacional, a Kimberly-Clark, que vende fraldas, absorventes femininos e lenços descartáveis, também tem concentrado vários lançamentos no Nordeste. ?Lá, nossas vendas crescem num ritmo mais de duas vezes acima da média nacional?, diz Hugues Godefroy, diretor de vendas da Kimberly. ?Isso se deve, em grande medida, a uma melhor distribuição da renda?, afirma. Na empresa, as vendas para o Nordeste, de R$ 120 milhões, já são praticamente idênticas às da Região Sul.

Os sinais positivos captados pelos empresários também têm despertado a atenção dos analistas políticos. Pesquisas eleitorais recentes apontam que, se no Sul e no Sudeste é alta a rejeição ao governo federal, a vantagem ainda é muito folgada nas regiões Norte e Nordeste, onde a popularidade o presidente Lula é da ordem de 60%. ?Quando as vendas no comércio crescem a uma taxa de 20% ao ano, fica muito difícil brigar?, admite o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, que é um dos conselheiros do candidato tucano Geraldo Alckmin à Presidência. ?O Nordeste, de fato, pode fazer a diferença?, avalia o cientista político Gaudêncio Torquato. Com 33 milhões de eleitores, que representam 27% do total nacional, a região tem um ?voto emotivo? na definição de Torquato. Para tentar reverter o prejuízo, os tucanos escolheram um coordenador de campanha nordestino e deverão indicar um vice da região (leia matéria nessa edição). ?É lá que a eleição será decidida?, prevê o consultor político Murilo Aragão, da Arko Advice.

Colaborou Fabiane Stefano

R$ 257 bilhões é o PIB da região Nordeste

 

20% foi a expansão do comércio na região em 2005