29/12/2004 - 8:00
Idriss Deby é presidente do Chade, país miserável que fica no centro do Saara. Quando soube que o presidente Lula passaria pelo Gabão, Deby voou até a costa ocidental da África e fez de tudo para arrancar uma audiência privada com o líder brasileiro. O que ele queria? Que o Brasil enviasse tropas para conter hordas de tribos berberes que assolam seu país a partir do Sudão. Afinal, argumentou, se Lula estava enviando soldados ao Haiti, por que não ajudar também os irmãos do Saara? Lula desconversou. Mas festejou diante dos assessores mais uma prova de que sua liderança internacional está se consolidando. Só naquela viagem à África, em fins de agosto, o segundo giro ao continente em sua gestão, Lula perdoou cerca de US$ 500 milhões em dívidas. Naturalmente, foi aplaudido pelos colegas africanos. Um mês depois, seria igualmente aplaudido em Nova York, quando aproveitou a Assembléia Geral da ONU para debater sua proposta de um Fome Zero Mundial. Pergunta: o que o Brasil ganha quando transforma países sem relevância em prioridade de política externa? Resposta: depende. Do ponto de vista econômico, são nulas as chances de se comprar ou vender algo ao Chade. O presidente faz uma aposta política.
?Ganha espaço no cenário internacional, inclusive nas negociações econômicas, e credibilidade na defesa de um mundo mais justo?, diz o professor Marco Aurélio Garcia, assessor internacional do presidente e ideólogo dessa nova política externa. ?Se uma nação quiser fazer diferença como líder global, também precisa assumir responsabilidades de ajuda humanitária?. Pode ser. É preciso, contudo, separar a nova política em dois movimentos. O primeiro é a militância terceiro-mundista do presidente Lula, que o leva a propor o Fome Zero Mundial e a colocar soldados no atoleiro do Haiti. Mas o chanceler Celso Amorim acredita existirem razões práticas para o Brasil ajudar nações miseráveis: pode-se granjear simpatias para que o
Brasil conquiste uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Aposta-se, por exemplo, em que o carisma do presidente arrebate a simpatia dos países africanos. ?Nossa política nada tem de ideológica?, diz Amorim à DINHEIRO. ?Ela é altamente pragmática.?
O segundo pilar dessa política externa é a busca por mercados alternativos. Em
2004, o Brasil intensificou suas relações com China, Índia e Rússia, que junto com o Brasil formam as quatro nações-baleias do planeta ? grande território, população e potencial econômico. ?Não dá mais para concentrar todo o comércio só nos parcei-
ros tradicionais?, diz Garcia. Nos últimos meses, o Brasil também intensificou as relações com os Países Árabes (Lula visitou cinco deles este ano) e os vizinhos da América do Sul. ?É mais vantajoso dar mais atenção aos Estados Unidos?, fustiga Ruben Barbosa, ex-embaixador em Washington, hoje na Fiesp. Mas a nova política externa já começa a apresentar resultados. As exportações para os árabes, por exemplo, cresceram 67% em um ano. Com a África negra, o comércio cresceu 52% no período. Quando dezembro terminar, Lula deverá ter um novo número para festejar. Pela primeira vez na história, o comércio com países em desenvolvimento deverá representar 50% da nossa balança comercial. Há dois anos, 60% estava concentrado nos EUA, União Européia e Japão. Enfim, pode ser que o Brasil ganhe nas parcerias com o Haiti e o Chade