12/03/2008 - 7:00
E jeito delicado, Ana Cláudia Akie Utumi, de 37 anos, é a responsável pela área tributária do escritório de advocacia Tozzini Freire Advogados, uma das maiores bancas do País. Sócia do escritório desde 2001, menos de um ano após entrar na Tozzini como advogada sênior, ela tem sob sua tutela 60 profissionais. Desde que assumiu a área, o faturamento cresceu dez vezes. Só em 2007, apresentou alta de 20% em relação ao ano anterior. Mesmo assim, Ana Cláudia já enfrentou situações embaraçosas ? simplesmente por ser mulher. Certa vez foi visitar um potencial cliente. Ao iniciar a apresentação, ouviu um executivo perguntar para o outro: ?Quando o chefe dela vai chegar?? Sutilmente, Ana Cláudia olhou para o executivo e disse: ?Eu sou a chefe.? Histórias como a de Ana Cláudia ainda são comuns nas companhias brasileiras. Elas estão ascendendo na carreira com menos idade e algumas chegam ao cargo máximo dessas corporações em tempo recorde. Mesmo assim, situações que refletem machismo ? mesmo que sutil ? e surpresa quanto à idade acabam fazendo parte do diaa- dia delas, principalmente se o cargo exige postura sênior. Ou seja, é uma nova geração de mulheres que enfrenta antigos problemas. Aos 28 anos, a responsável pelo recrutamento do Google na América Latina, Aline De Lucca, já sentiu isso de perto e lembra de situações como essas com bom humor. Quando trabalhava em um banco de investimentos, recorda-se que, durante uma reunião, perguntaram para ela: ?A Aline vem a que horas?? Os participantes a consideravam muito jovem para ser uma executiva. No Google, não há esse tipo de reação, já que a faixa etária dos funcionários gira em torno dos 30 anos. Por isso, ela se dá ao direito de vestir-se mais informalmente. ?Dei todos os meus tailleurs e saltos altos quando entrei aqui.? Firmeza e recato na maneira de se vestir são os requisitos básicos para quem assume posto de chefia, na opinião dessas executivas. ?Costumo dizer para as profissionais que trabalham comigo que devem deixar o traje sexy para as baladas?, comenta Ana Cláudia, da Tozzini Freire.
“Dei todos os meus tailleurs quando entrei no Google” Nome: Aline De Lucca, 28 anos Cargo: responsável pelo recrutamento e seleção de profissionais do Google na América Latina
COM 1,54 M DE ALTURA
ELAS AINDA GANHAM MENOS QUE ELES
Não é à toa que as mulheres se preocupam. Recente relatório publicado pelo World Economic Forum revela que o Brasil ocupa o 105.º lugar entre 128 países no que diz respeito à igualdade de trabalho em tarefas similares entre homens e mulheres. E elas ainda ganham menos do que eles. Enquanto a renda média do gênero feminino é de US$ 6 mil, a do masculino circula na casa dos US$ 10,4 mil.
Não bastasse a discriminação, as mulheres continuam a enfrentar a ?jornada dupla?, conciliando as tarefas profissionais com a administração da casa e da família. Aos 35 anos, a gerente de marketing da Electrolux, Sandra Montes, por exemplo, continua a trabalhar, mesmo estando no período de licença-maternidade. ?Acho impossível ficar quatro meses ausente do trabalho com as responsabilidades que tenho.? Conciliar esses mundos é uma eterna fonte de angústia para as mulheres. ?Com a correria do trabalho, é difícil dar atenção para um namorado no dia-a-dia?, diz Flávia Conrado, de 32 anos, diretora financeira da Diagnósticos da América, Dasa. Por outro lado, ela não vê dificuldades no relacionamento com os subordinados. Acostumada a conviver com os funcionários da fazenda do pai, Flávia herdou um hábito que considera sagrado para manter o bom ambiente de tra- 52 Negócios balho. ?Meu pai me ensinou a pedir e nunca mandar.? Com esse preceito, diz, aliado a sorte e competência, alcançou cargos mais elevados.


Isso não impediu que ela enfrentasse uma situação curiosa quando era diretora financeira da Fotoptica. A empresa se tornou alvo do interesse de investidores estrangeiros e Flávia começou a trocar e-mails com eles. ?As correspondências vinham endereçadas a Flávio Conrado, mas eu considerava irrelevante corrigi-los. No dia em que marcamos uma reunião pessoal e eles viram que era uma mulher e tão nova levaram um susto. Até ligaram para um dos executivos que estava chegando para avisá-lo?, conta, entre risadas.
Ela considera situações como esta um mal-entendido, principalmente porque aconteceu com estrangeiros, em tese mais habituados à presença de mulheres próximas dos centros de decisões nas empresas. Talvez por ter passado três anos no Exterior a diretora do Goldman Sachs, Cristina Bueno, de 28 anos, não se recorda de qualquer fato relevante vivenciado nesse sentido. Ela entrou no banco em 2001 e, a convite da instituição, morou em Londres e em Nova York. Feliz de estar de volta, Cristina adquiriu certas manias, como pontualidade britânica e confiança no trato com os executivos. ?Você deve chegar à reunião com postura de que vai comandá-la. Daí, não importa qualquer comentário.? Cristina resume nesta frase a atitude da nova geração de mulheres, competentes, audaciosas, femininas e que vieram para ficar.

