28/12/2025 - 9:00
O agro brasileiro vive um momento complexo. De um lado, safras de grãos batem recordes e o PIB do setor teve uma alta de 11,6% nos três primeiros trimestres do ano. Do outro, o número de recuperações judiciais no agronegócio nunca foi tão alto, registrando 628 processos abertos no terceiro trimestre de 2025, de acordo com o Índice de Recuperação Judicial do Agronegócio divulgado pela Serasa Experian. O número representa crescimento de 147,2% em relação aos 254 pedidos registrados no mesmo período de 2024.
Uma combinação de falta de planejamento financeiro dos produtores, juros altos e um incentivo pelas saídas judiciais para resolver dívidas com credores são os principais ingredientes para esse cenário de incertezas no agro, de acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA), Renato Buranello.
Em entrevista a Istoé Dinheiro, ele afirma que os produtores precisam negociar com seus credores ao invés de apostar pela saída judicial. “Isso seria melhor para todos”, disse.

Confira os melhores momentos da entrevista.
O que explica a crise
Quem olha os dados do agronegócio brasileiro pode ver um cenário de bonança: a safra 2024/25 de grãos atingiu um recorde histórico de 350,2 milhões de toneladas, somando soja, milho, algodão, arroz e feijão. No entanto, ela não foi suficiente para melhorar a condição financeira dos produtores. Apenas no terceiro trimestre, havia 628 empresas do agro sob regime de RJ, um avanço de 147,2% ante o mesmo período do ano anterior, o maior nível já registrado desde o início da série histórica. Renato explica porque essa conta não está fechando.
“O produtor quando tem uma safra boa, ele escolhe comprar terra e não mantém liquidez, não deixa uma reserva para os momentos amarelos e vermelhos. Essa é a grande diferença. É preciso ter gestão de risco”, explicou.

Indústria de RJs
Após a descapitalização do produtor, Renato afirma que ao invés dele buscar um acordo com os seus credores, ele é levado a acreditar que a recuperação judicial é a melhor opção para proteger o seu patrimônio. O especialista aponta que há no país uma espécie de indústria das RJs.
“A recuperação judicial deixou de ser exceção e passou, em muitos casos, a ser estratégia de negócio, ela bate recordes por mau uso. O produtor, muitas vezes desavisado, acha que isso é a primeira solução e não é. Vejo colegas incentivando esse mecanismo, mas não contam a história inteira. Esse é caro, é longo e muitas vezes não vai resolver o seu problema. A RJ é uma consequência de uma coisa que tá sendo muito mal conduzida e analisada”
Ambiente dificulta acesso a crédito
Com um cenário de crédito cada vez mais estreito, os produtores rurais buscam alternativas para o financiamento. De um lado, os bancos privados estão com as torneiras fechadas por conta dos altos juros. De outro, o mercado de capitais e o agro vivem um clima de divórcio por conta do alto número de recuperações judiciais.
“O casamento está em fase de divórcio, pelo menos por um período. O sistema privado de financiamento, que vinha crescendo, está sofrendo uma inflexão, que vai durar mais tempo. Os investidores deixarão de alocar mais recursos a esse sistema por enquanto, com medo desse cenário tão adverso. O ambiente das RJs faz o mercado retroagir em tamanho justamente quando o agronegócio precisa de mais recursos, fontes e diversificação para ter custos menores, maior concorrência. Se esse investimento não for protegido, a pessoa física, que compra grande parte dos títulos incentivados no mercado de capitais, pagará o preço”, ponderou.
O que esperar para 2026?
Diante desse cenário, o especialista acredita que o cenário de aumento das recuperações judiciais deve se manter crescente em 2026 e que uma mudança deve partir do sistema judiciário brasileiro, que deveria endurecer as concessões de RJs, e dos próprios produtores rurais.
“Eu diria que esse cenário vai durar 2026 inteiro e parte de 2027, já que a dor está sendo grande. A solução deve ser menos judicial e mais econômica, com os lados buscando uma negociação, a reestruturação e o prorrogação de dívida para 3, 4, 5 anos, com a exigência de garantia e a oferta de uma parcela de novo dinheiro para continuar girando. Além disso, o Judiciário tem que parar de autorizar esse número desenfreado de pedidos [de RJ], exigindo que eles sejam fundamentados e seus requisitos exigidos, e o produtor precisa melhorar a gestão de risco e os instrumentos de monitoramento deste setor”, encerrou.
