Na semana passada, o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Gesner de Oliveira, iniciou a liturgia da despedida.

Limpou gavetas, fez balanços da sua atuação, proclamando-se vitorioso no jogo de perdas e danos. Nos quatro anos em que esteve à frente do Cade, Gesner contabilizou apenas uma perda ? a de um velho Opala Diplomata roubado em Brasília ?, mas sua imagem saiu, aqui e ali, chamuscada com as polêmicas decisões tomadas pelo Cade. A seu favor registra-se o fato de que, nos dois mandatos em que esteve no comando, as decisões da autarquia mexeram com poderosos interesses econômicos, embora ainda não se possa assegurar se elas foram efetivas ou não. Na fusão entre a Kolynos e a Colgate, por exemplo, Gesner de Oliveira imaginou a engenhosa fórmula de suspender a marca Kolynos por quatro anos, provocando a oferta pública da capacidade da Colgate.

Isso resultou, na sua avaliação, no surgimento de seis novas marcas. Também derreteu o aço ao não permitir que a Gerdau recorresse a instância ministerial para invalidar a proibição de compra de uma siderúrgica de Minas Gerais. No caso mais momentoso, o da criação da AmBev, a decisão foi muito criticada. Ao permitir a fusão da Brahma com a Antarctica, embora tenha estabelecido algumas restrições, acabou bombardeado por empresas do setor.

Economista com doutorado em Berkeley, onde foi orientando de Albert Fishlow, Gesner de Oliveira passará os primeiros meses de quarentena, exigidos por lei, na condição de professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Depois, pretende seguir uma carreira de consultor. Foi pensando nisso que passou os últimos dias em Brasília, articulando-se nos bastidores para influir na escolha de seu sucessor. ?Aposte em um economista do Ipea ou da USP e não nesses nomes que estão aí?, cochichava em sua cerimônia de adeus. Entre os nomes cotados para sucedê-lo estavam os dos economistas Cláudio Considera e Paulo de Tarso. Correndo por fora, com apoio de assessores palacianos, está ainda o ex-deputado verde Fábio Feldmam, que pertence ao tucanato desde a origem do PSDB. Feito o sucessor, Gesner espera virar, após a quarentena, o mais influente consultor da área. E aí já não conta apenas recuperar o carro roubado, como também acumular muitos outros bens. Deixa a Capital Federal no próximo dia 13 com o mesmo patrimônio de quando desembarcou no governo, ainda no início do Real, com um escritório herdado do pai e sem apartamento próprio. ?Continuo com os mesmos bens?, diz.

O que, então, mudou em Gesner de Oliveira? Ele mantém o mesmo sotaque paulistano, mas adquiriu um fraseado sinuoso em que, para cada afirmação, apresenta sempre duas ponderações em sentido contrário. É uma espécie de Marco Maciel do direito econômico. Nunca se compromete. Ele não era assim. O pai, dentista, o colocou para trabalhar aos 11 anos porque Gesner era brigão de rua. No Cade foi mais conciliador, mas, ainda assim, espera um julgamento favorável da sua gestão pela opinião pública. ?Eu apresentei ao longo desses quatro anos um padrão de voto sempre muito bem definido e espero ser avaliado pelo que fiz.?