A companhia de desenvolvimento agrícola BrasilAgro estreou na Bolsa de Valores de São Paulo em maio de 2006, com uma oferta pública inicial que captou R$ 584 milhões. Na data, a empresa não tinha nenhum ativo. Contava apenas com dois funcionários, um computador e uma sala alugada. “Fomos o primeiro plano de negócios a abrir capital”, diz Julio Toledo Piza, CEO da BrasilAgro. Milagre? Não. O prestígio de investidores como o incorporador Elie Horn, fundador da Cyrela, e de Zeca Magalhães, gestor do fundo de private equity Tarpon, que apostavam no negócio, atraiu recursos. Seis anos depois, a BrasilAgro parte para outro lance inédito. 

 

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De olho no touro: “O objetivo é atrair investidores que não têm acesso a empresas brasileiras”,

diz Julio Toledo Piza, CEO da BrasilAgro

 

No início de novembro seus papéis serão listados na Bolsa de Nova York, por meio de uma emissão de American Depositary Receipts (ADRs) de nível 2, os primeiros títulos de uma empresa de desenvolvimento agrícola em Wall Street. A meta é levar a companhia a um novo nível e oferecer ações para um universo mais amplo de investidores. Segundo Toledo Piza, não haverá captação de recursos. “O objetivo é entrar em um mercado muito maior do que o nosso e atrair investidores que não têm acesso a empresas brasileiras.” Para Pedro Herrera, analista do HSBC, ao negociar os ADRs, a BrasilAgro se torna mais visível e mostra ser mais madura. 

 

“As exigências para uma empresa ser negociada em Nova York são grandes, e as companhias que passam por esse crivo são consideradas mais seguras”, diz Herrera. A chegada da BrasilAgro em Wall Street é um marco para o setor e para o mercado de capitais brasileiro. Além de o segmento de agronegócios ser muito bem visto no Exterior, será a primeira companhia nacional a levar seus papéis para a New York Stock Exchange (NYSE) em 2012, um ano bastante ruim para o mercado. Segundo Rodolfo Amstalden, analista da Empiricus Research, a iniciativa pode significar a retomada desse movimento de listagem internacional, que deve ser seguido por outras companhias em 2013. 

 

Com a BrasilAgro, serão 33 empresas brasileiras na Bolsa de Nova York. A listagem na bolsa americana, de acordo com o analista, está em linha com a estratégia da companhia de aumentar a liquidez de seus papéis. “Além disso, é uma forma de medir o apetite dos investidores estrangeiros”, afirma. Atualmente, 40% das ações estão nas mãos do controlador e os 60% restantes estão concentrados em poucos acionistas. “O que queremos é ampliar a base acionária e aumentar a liquidez”, diz Toledo Piza. A concentração de investidores é uma herança do IPO. Como a empresa ainda estava em fase pré-operacional, as ações foram oferecidas apenas a investidores qualificados, com conhecimento necessário para avaliar os riscos de adquirir ações de empresas do gênero. 

 

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A chancela da Tarpon: A participação de gestores como Zeca Magalhães

atraiu investidores para o IPO da BrasilAgro, em 2006

 

Além do prestígio de Horn e de Magalhães, a BrasilAgro contava com a experiência na exploração de propriedades agrícolas da argentina Cresud, sua atual controladora. Listada na Bolsa de Buenos Aires desde a década de 60 e na americana Nasdaq desde 1997, a Cresud gerencia, atualmente, um milhão de hectares na América Latina. No prospecto da oferta da BrasilAgro, um dos pontos fortes era o de ser uma das poucas empresas dedicadas ao setor agrícola emergente no Brasil. Segundo Toledo Piza, o diferencial é, também, um desafio. “Por ser uma área nova de exploração, os investidores ainda têm uma certa cautela”, diz. A principal atividade da empresa inclui a aquisição e o desenvolvimento das terras não cultivadas em usos agrícolas produtivos e, posteriormente, sua venda, mediante um ganho financeiro, que pode superar 400% (veja quadro ao final da reportagem). 

 

Na produção, a empresa foca-se em grãos como soja e milho, mas também atua com cana-de- açúcar, algodão, gado e silvicultura. É exibindo números positivos que a empresa tenta driblar os receios dos investidores. A companhia, em pouco mais de seis anos de atuação, está presente em cinco Estados, adquiriu 11 fazendas e já revendeu três delas. A última transação foi a venda da Fazenda Horizontina, no Maranhão. Adquirida em abril de 2010, por R$ 37,7 milhões, a propriedade foi passada adiante em outubro deste ano, por R$ 75 milhões, um retorno de 100%. Descontando-se a depreciação e os investimentos feitos desde 2010, a taxa interna de retorno do investimento chega a 27% ao ano. 

 

“Para o investidor, o ganho vem tanto da valorização da terra quanto dos resultados com a produção, enquanto a fazenda estiver de posse da empresa”, afirma Toledo Piza. Para Herrera, do HSBC, as perspectivas para a companhia são boas para o fim deste ano e para 2013. “É uma empresa jovem, que começou a apresentar resultados há pouco tempo, mas que vem agradando o mercado”, diz. Amstalden, da Empiricus, concorda. “Apesar de a empresa não ter vendido todas as terras, os poucos anúncios feitos foram bem representativos”, afirma. Com o mercado satisfeito, Toledo Piza brinca com o imaginário do investidor. “Quem nunca sonhou em comprar uma fazenda?”, diz Toledo Piza. 

 

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