Final de jantar no La Bagatto, um aconchegante restaurante localizado no centro de Trieste, cidade portuária do norte da Itália, próxima à Eslovênia. Antes da conta, vem o café, que o empresário Ernesto Illy bebe de uma golada só. E decreta: ?Há um certo toque de chocolate na bebida, um leve sabor de pão torrado e aroma de flores. É um blend muito bem feito do café brasileiro, etíope e da Guatemala. Divino?. Um dos presentes provoca:
? Divino porque o café é feito pela Illy, sr. Ernesto?
? Divino porque eu percorro o mundo sempre atrás dos melhores grãos, da melhor mistura, dos mais conceituados fornecedores. Divino porque eu treino meus parceiros e funcionários para ter o melhor café do planeta. Hoje, somos a Ferrari do café.

Pois a Ferrari agora está correndo atrás de novos fornecedores. Tenta repetir, em outras partes do mundo, a bem-sucedida estratégia de excelência no cultivo do café que implementou no Brasil, hoje responsável por quase 60% do fornecimento de grãos arábica para a Illy Caffè. ?O Brasil, durante muito tempo, vendeu quantidade. De duas décadas para cá, passou a vender qualidade?, afirma Ernesto. Sem a menor modéstia, ele diz que a Illy fez parte dessa transformação, ao enviar para cá técnicos e agrônomos para ensinar os segredos do manejo do café, ao criar uma universidade itinerante para produtores e depois premiar, em dinheiro, os melhores fazendeiros. Muitos deles acabaram virando parceiros da Illy. Pois a Illy já fez algo parecido na Índia, na Guatemala e agora parte para a Etiópia. ?Temos que ter alternativas no mundo. Como em qualquer segmento da agroindústria há fatores naturais que prejudicam ou beneficiam determinadas safras?, explica. ?Além disso, nossas vendas vêm crescendo e existem novos mercados, como a Ásia, a serem explorados?. Ernesto, então, saca o palm top para mostrar o trabalho de campo. Nesse começo de novembro estará em Bangalore, na Índia. Depois segue para a Adiz Abeba, na Etiópia, passa em Vitória, no Brasil, e em dezembro desembarca na Guatemala. ?Só na última semana, acumulei 43 horas de vôo?, conta.

O empresário, de 79 anos, não pára. Uma vitalidade que, segundo ele, pode ser explicada por dois hábitos que conserva desde os 20 anos de idade: acordar cedo e beber seis xícaras de café por dia. ?O café é a vida de Ernie?, comenta Anna Illy Belci, filha de Ernesto e diretora de marketing da indústria fundada por seu avô, Francesco, em 1933. Ernie, como os filhos gostam de chamá-lo, entrou na empresa nos anos 50. Queria ser mais que um negociador de café, mais que um re-exportador de grãos como fizera seu pai no início da Illy. Ernesto preparou-se. Estudou química. Embrenhou-se na biologia molecular. Passou anos devorando livros sobre café e percorrendo plantações no mundo. Virou expert, tão obcecado por qualidade que quando lhe perguntam sobre a possibilidade de quadruplicar, quintuplicar suas vendas de 200 milhões de euros, ele responde assim: ?Crescer mais um pouco, sim. Mas o dia que minha empresa exibir receitas de 1 bilhão de euros eu estarei como os outros, vendendo apenas quantidade. Não quero. Deixe isso para a Nestlé e Sara Lee?.

Para crescer mais um pouco, além de buscar novos mercados, Illy andou investindo em seu maior orgulho: a fábrica de Trieste, única da corporação. Recentemente, ele aplicou 25 milhões de euros em máquinas de torrefação, separadoras de grãos e nas linhas de embalagem para dobrar a produção das atuais 10 milhões de toneladas de café ao ano. Também concluiu o Aroma Lab, centro de pesquisa que dá ao empresário bioquímico a exata alquimia de sabores e aromas dos cafés de diferentes regiões. É ali que nasce grande parte da qualidade do café Illy. Planos para uma nova fábrica? ?Acredito que em cinco anos seremos obrigados a construir outra unidade. Talvez na Ásia?, comenta o empresário. Enquanto a nova planta não vem, ele se diverte com a modernidade. Nos EUA fez sua primeira incursão na internet, vendendo café num recém-inaugurado site de e-commerce da Illy. Pretende dar seqüência, ainda, ao projeto de Concept Bar, que existe nas cidades da Itália. São bares que vendem café de sua marca, ostentam o logo da Illy e cujos funcionários ganham treinamento dos baristas formados dentro da fábrica de Trieste. A Illy não participa da sociedade com o comerciante, ajuda apenas na infra-estrutura e na excelência do atendimento. Em troca, ganha exclusividade no ponto-de-venda. ?A Illy prega a qualidade em toda a cadeia do café. Vamos da planta ao preparo?, diz Andrea Illy, caçula de Ernesto e CEO da empresa. A nova geração segue à risca a alquimia de Ernie.

DE GRÃO EM GRÃO


? 200 MILHÕES
é o faturamento anual da Illy, com a venda de
10 milhões de toneladas de café para 98 países