Ano novo, vida nova. Depois de comer o pão que o diabo amassou no ano passado, com o racionamento de energia e a disparada do dólar, que reduziram as vendas em 6,8%, a indústria eletroeletrônica entrou em 2002 disposta a recuperar o tempo perdido, desde que não haja contratempos. Os planos de investimento saíram da gaveta, dezenas de lançamentos estão programados e a expectativa é de um crescimento de 6%. Há razões para esperar um ano melhor. De um lado, o governo flexibilizou as metas de contenção do consumo de energia. O Sudeste, maior mercado consumidor do País, provavelmente ficará livre do racionamento já em março. Além disso, a Copa do Mundo promete esquentar o mercado. Tradicionalmente, as vendas crescem 15% nos meses que precedem o campeonato mundial. Até as eleições, que ajudam a economia como um todo, podem dar um empurrão aos negócios.

No meio empresarial, prevalece o otimismo, principalmente entre os fabricantes de som e imagem. São eles o fiel da balança no setor. A coreana Samsung, que faturou R$ 650 milhões no ano passado, espera crescer 30% em 2002. Novos produtos também estão a caminho. A empresa, que chegou em 1995 à Zona Franca de Manaus e produz monitores e celulares, irá lançar no mercado seus discos rígidos para computadores e prepara os últimos detalhes de sua grande tacada: a venda da TV digital no País. ?Não queremos fabricar o que todo mundo faz?, diz Seung Woo Choi, presidente da empresa para a América Latina. ?Nosso foco são os produtos de altíssima tecnologia.? Outra novata no mercado nacional, a coreana LG Eletronics, também está confiante. Desde 1997, a fabricante de TVs, videocassetes e DVDs, define metas agressivas de expansão. Para este ano, a projeção é crescer 25% sobre o faturamento de R$ 1,4 bilhão de 2001. Nem o conhecido stop-and-go da economia brasileira assusta os coreanos. ?Mesmo em um ano difícil, como foi 2001, conseguimos crescer?, diz Un Chul Hwang, presidente da empresa, que espera aumentar a participação da subsidiária brasileira no faturamento global da companhia de 6% para 10%. Como a concorrente Samsung, a LG também quer lançar modelos de alta tecnologia, como a TV de cristal líquido e painéis de plasma, produzida na fábrica de Manaus. E mais: se tudo der certo, a empresa vai partir para a produção de componentes eletrônicos.

Entre as empresas nacionais o entusiasmo existe, embora seja mais contido. A Itautec Philco está escolada na instabilidade da economia nacional ?Aqui é sempre assim. Tudo fica difícil e depois vira cor-de-rosa?, conta o experiente Claudio Vita, presidente da empresa. Ele lembra que em 2001 não houve um mês em que os planos não fossem revistos. ?Pior do que 2001, só 1997, com a crise asiática?, diz. Para se defender das intempéries locais, a divisão Philco começou a exportar televisores para a América Latina, em setembro do ano passado. A expectativa é faturar cerca de US$ 100 milhões com as vendas externas em 2002. Por presidir uma empresa aberta, Vita não se compromete cravando uma meta de crescimento, mas acredita que irá acompanhar o desempenho do setor. Até a Eletros, associação que reúne os fabricantes, se mostra cautelosa. Crescer 6% significa recuperar as perdas de 2001, ou seja, chegar ao nível de vendas de 2000, com 35 milhões de unidades – de DVDs a geladeiras. Bom mesmo para os empresários seria reviver o ano de 1996, no auge do plano Real, quando o setor vendeu 47 milhões de aparelhos. Mas já é um começo.