Nos dois últimos meses, o executivo Gilmar Camurra tem dedicado parte de seu tempo a atender fiscais do Banco Central. As visitas são periódicas, como acontece em toda instituição financeira. Só que Camurra não trabalha num banco. Ele é o vice-presidente financeiro do Grupo Telefônica no Brasil e comanda o banco de investimento doméstico. Sob a batuta de Camurra estão R$ 25 bilhões em ativos financeiros. Se o departamento fosse um banco estaria em quinto lugar no ranking do sistema bancário. Perderia apenas para os gigantes Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Unibanco. Nos últimos três meses, a Telefônica movimentou US$ 1 bilhão em operações próprias. A quantia chamou a atenção do BC. Na semana passada, os fiscais fizeram uma constatação. ?Se fosse um banco, certamente seria dealer?, disse um fiscal, referindo-se aos
poucos bancos que operam para o BC.

É no 21º andar do prédio central da Telefônica que funciona o departamento financeiro da empresa. Ali, um visitante desavisado poderia se confundir. Assim como num banco, o departamento tem uma área de mercado de capitais, fusões e aquisições, administra-
ção de fundo de pensão e relação com investidores. ?O fluxo de capital da empresa é alto e por isso eles operam como banco?, diz Guilherme Castilho, analista da ABM. A diferença é que todo o trabalho, das análises econômicas à captação de recursos, são voltadas apenas para negócios da Telefônica. Por isso, o departamento tem uma outra diferença em relação aos bancos.
Como seu principal negócio são telefones e não as aplicações financeiras, a filosofia da casa é muito conservadora. O banqueiro
da Telefônica, Camurra, não faz investimentos arriscados e aplica
a maior parte da sobra de caixa em CDBs e títulos públicos.

Camurra não foi contratado pelos espanhóis à toa. Trabalhou quase 30 anos no sistema bancário. Ficou 18 anos no Citibank e saiu para fundar o ABC Roma. De lá, foi para o HSBC. Saiu do banco inglês direto para a Telefônica. ?O departamento financeiro tem esse porte porque ele enxerga tudo com a lógica de um banqueiro, apesar de trabalhar numa empresa?, diz o amigo Emilson Alonso, diretor-superintendente do HSBC. Quando Camurra aceitou o convite para trabalhar com os espanhóis, achou que diminuiria o ritmo frenético de trabalho. Depois de quatro anos à frente do departamento financeiro, ele continua trabalhando quase 13 horas por dia e reconhece que a área financeira tem tamanho e jeito de banco. Só faz uma ressalva quanto à comparação. ?Diferentemente de um banco, não tomamos empréstimos além do necessário?, afirma. Para definir cenários, tem ajuda de duas consultorias e realiza reuniões toda segunda-feira. Durante o encontro, discute sobre a necessidade de dinheiro da empresa, além de fazer análises das perspectivas para o País nos próximos anos. A projeção tem de ser certeira. Boa parte do futuro
da Telefônica está nas mãos de Camurra.