O BicBanco, da família Bezerra de Menezes, vem ganhando no mercado a fama de ?banco do contra?. Sua última ?excentricidade? é ser um banco médio que cresce sem depender do crédito consignado ? modelo de negócio preferido de nove entre dez instituições de sua categoria. Os empréstimos com desconto em folha de pagamento respondem hoje por apenas 9,4% da carteira de crédito da casa e, em respeito a uma norma interna, não podem ultrapassar a marca de 10%. Em tempos de recrudescimento da inadimplência e queda das margens de lucro desse tipo de operação, essa regra vem rendendo frutos dentro e fora do Brasil. O BicBanco acaba de captar US$ 150 milhões com emissões de bônus na Europa e na Ásia. E descolou sua imagem do batalhão de concorrentes de porte similar que têm sua solidez questionada por uma corrente de eventos iniciada pela quebra do Banco Santos em novembro de 1994. ?O BicBanco não desviou seu foco do middle market (financiamento a pequenas e médias empresas) e não teve tanto apetite pelo consignado como a maioria de seus pares?, avalia Erivelto Rodrigues, sócio da agências classificadora de risco Austin Rating. ?Por isso, não sofreu tanto com a crise de liqüidez pós-Banco Santos.?

 

É verdade. Mas também é inegável que, nestes últimos dois anos, a demanda por CDBs de bancos médios praticamente secou, forçando essas instituições a buscar outras fontes de captação. É o que explica as investidas do BicBanco no mercado internacional. Hoje, 46% dos seus recursos já vêm de fora.

O principal negócio do BicBanco é fornecer capital de giro a empresas de porte médio ? principalmente indústrias, que ficam com 48,5% do bolo. ?É a atividade mais tradicional do mercado. Mas tudo bem, não queremos o prêmio de originalidade?, diz o vice-presidente Milto Bardini. Veterano das finanças com passagens por BMC, Sudameris e Unibanco, o executivo foi o responsável por implementar, a partir de 2001, a reestruturação que recolocou o banco na rota do crescimento. Seu lema não escrito é pulverizar os riscos sem perder o foco. O BicBanco trabalha, sim, com pessoas físicas, tem agências e faz consignado. Seu maior devedor responde por apenas por 2% da carteira de crédito. Mas a prioridade absoluta seguem sendo as empresas, que respondem por 62,8% dos depósitos. A participação do investidor institucional, hoje em 16,2%, nunca passou de 20%. Melhor assim, já que foram os fundos de pensão que lideraram as retiradas de recursos dos bancos médios nos meses seguintes à intervenção no Banco Santos. ?Fomos menos atingidos por aquela onda, mas a crise não passou ao largo?, lembra Bardini. Os resgates feitos por investidores assustados obrigaram a uma redução da carteira de crédito de 7,5% no quarto trimestre de 2004 ? menor, entretanto, do que a dos principais concorrentes. ?Não foram tempos agradáveis, mas você não forma marinheiros na calmaria?, diz o executivo.

A necessidade de navegar em mares turbulentos explica o limite de 10% para o consignado. ?Nenhum produto muito bonito tem vida longa?, adverte Pardini.? A beleza provoca o afã dos concorrentes em se precipitar sobre ele. E há limites para o crescimento de qualquer bolo.? Neste momento, o mercado de empréstimos com desconto em folha está sofrendo severo ataque por parte de um grupo cada vez maior de instituições financeiras. Com o aumento da concorrência, naturalmente as margens estão decrescendo.

Mesmo com seu foco firmemente mantido no atendimento a companhias com faturamento entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões, a instituição dos Bezerra de Menezes não evitará o confronto com os gigantes do setor. Com a queda dos juros, os bancões de varejo precisam emprestar mais. Inclusive para as médias empresas. Bardini concorda, mas pondera que nesta faixa do mercado o que vale são relações antigas e estreitas com os clientes e o know-how para fazer análise de crédito para grupos que muitas vezes nem auditados são. ?Nesse particular, somos melhores que os bancos grandes.?