UMA SEMANA DEPOIS DE perder a liderança bicentenária do setor bancário brasileiro para o novo Itaú Unibanco, o Banco do Brasil iniciou seu contra-ataque. O primeiro passo foi a aquisição do pequeno Banco do Estado do Piauí (BEP), com ativos de R$ 330 milhões, anunciada na terça-feira 11. O pagamento de R$ 81,7 milhões será feito através de troca de ações. A outra conquista pode estar muito próxima e é muito mais vistosa. As negociações com o governo do Estado de São Paulo para a compra da Nossa Caixa Nosso Banco parecem estar bem adiantadas. Foi o que indicou a presença de Guido Mantega, ministro da Fazenda, na assinatura da linha de crédito de R$ 4 bilhões para as montadoras de veículos, na segundafeira 10, no Palácio do Governo paulista (leia reportagem à pág. 78). Sem função oficial, Mantega participou como testemunha, sentou-se à mesa com o governador José Serra, o secretário estadual de Finanças Mauro Ricardo e o presidente do banco estadual, Milton Luiz de Mello Santos. O clima amistoso entre os principais nomes que negociam a venda da instituição é um indicativo de que as negociações estão indo muito bem.

A tranqüilidade também esteve presente na quinta-feira 13, quando Nossa Caixa e BB apresentaram seus resultados trimestrais em São Paulo, com poucas horas de diferença. Na região central da cidade, Mello Santos enfatizava a tendência mundial de fusão entre bancos para formar novas instituições, mais fortalecidas. E resumiu a sua situação: ?O desenlace vai acontecer o mais rapidamente possível?, disse o presidente da Nossa Caixa, após apresentar o lucro líquido de R$ 596 milhões no ano e ativos de R$ 53,4 bilhões. Na avenida Paulista, o coração financeiro de São Paulo, Antonio Francisco de Lima Neto, presidente do BB, demonstrava serenidade ao falar da possível aquisição. ?Continuamos em processo de negociação, mas não temos um prazo estabelecido?, contou Lima Neto, ao anunciar um lucro de R$ 5,85 bilhões até setembro. Com R$ 459 bilhões em ativos, a soma daria ao BB uma carteira total de R$ 512,4 bilhões. ?O Itaú Unibanco colocou uma nova musculatura de ativos. Queremos crescer para esse novo patamar?, enfatiza o presidente do BB, citando os R$ 575 bilhões alcançados pelas famílias Moreira Salles e Villela-Setubal. No alvo do BB também está o Banco de Brasília (BRB), com ativos de R$ 4,8 bilhões. Mas a negociação com o governador José Roberto Arruda se arrasta há um ano e meio.

O banco Nossa Caixa é parte importante nos planos de crescimento de Lima Neto. Ganhar escala no centro financeiro e bancário do país é a maneira que ele enxerga do banco não ficar estagnado e se tornar, no futuro, ?um banco médio?. Atualmente, o BB ocupa uma posição secundária no Estado, atrás de Bradesco, Itaú Unibanco e Santander (que comprou o Real e o antigo Banespa, o banco estadual). ?A rede de atendimento é deficiente em São Paulo. Estar em 4º lugar no principal mercado bancário não é interessante?, afirma Lima Neto. O que estaria emperrando a batida do martelo é a forma de pagamento. O governador José Serra manifestou o desejo de receber em dinheiro, enquanto o BB oferece a troca de ações. No entanto, Lima Neto deixou claro que essa não vai ser uma barreira. ?Pode ser um mix das duas (ações e dinheiro). Estamos tranqüilos?, reforçou.

O segundo problema é de ordem contábil. Comenta-se que o valor da operação seria em torno de R$ 7 bilhões, sem contar o pagamento aos acionistas minoritários. Analistas acreditam que a relação entre preço e valor patrimonial da ação estaria acima do normal. No caso da Nossa Caixa, essa relação seria de duas vezes. O Bradesco e o próprio BB possuem o preço da ação 2,1 vezes o valor patrimonial. O problema é que o banco estadual possui rentabilidade pouco mais da metade que a alcançada por essas outras instituições. ?Pode até ser que, historicamente, esse seja o valor justo da Nossa Caixa, mas não nas condições atuais de mercado?, considera João Augusto Salles, da consultoria Lopes Filho. Mas o que importa é o resultado final de uma aquisição desse porte em termos de conquista de fatias de mercado. ?A compra do Banespa pelo Santander também foi considerada cara pelo mercado na época, mas para o banco espanhol era um novo negócio e uma oportunidade única?, lembra Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating.

A aprovação da Medida Provisória 443 pela Câmara Federal na quarta-feira 12 aumentou o leque de opções do BB. Com a assinatura dessa MP, os bancos públicos agora poderão negociar aquisições de concorrentes privados. Com a mudança no ranking do setor, o quarto maior de capital privado, o Votorantim, passou para o terceiro lugar e estaria na mira. O assédio faz sentido, mas isso não quer dizer que o negócio vai ocorrer. O problema é que, segundo pessoas próximas aos Ermírio de Moraes, a família não tem intenção de vender seu banco ? a menos que, é claro, apareça uma oferta escandalosamente tentadora, que compense a saída de um setor que hoje responde por uma boa parte dos resultados do grupo. Nesse mercado, tudo é possível, como prova a fusão do Itaú e do Unibanco. Mas, por enquanto, há mais especulação e disseminação de boatos do que fatos concretos. ?Eles têm dinheiro de sobra, o banco é sólido, cresce muito e dá lucro no atacado e no varejo. Por que iriam vender??, questiona um graduado funcionário do BB. Lima Neto é enfático ao falar sobre o negócio. ?Não existe. Quando tiver qualquer fato concreto, vamos falar.?

O presidente do BB não nega que esteja de olho num mercado no qual o Votorantim nada de braçadas. ?Queremos aumentar nossa participação no varejo de automóveis, oferecendo crédito diretamente para os clientes?, conta. Atualmente, o banco do grupo Votorantim é líder na concessão de empréstimos para concessionárias e montadoras. Dessa maneira, não seria nos ativos de R$ 73 bilhões do Votorantim que o BB estaria de olho. Nos corredores da sede do banco, em Brasília, os funcionários chegam até a cogitar o modelo de negócio ideal: uma parceria do BB com a BV Financeira. É justamente a área mais atrativa para o banco oficial, que tenta avançar no segmento de financiamento de veículos, onde detém apenas 4% de participação no mercado. Como o BB já tem parceiros estratégicos em outras áreas, como seguros, poderia unir forças aos Ermírio de Moraes, que ganhariam muito dinheiro sem ter de vender seu banco. Fala-se numa operação de R$ 6 bilhões a R$ 7 bilhões. Dessa forma, o controle do negócio continuaria em mãos privadas, numa espécie de PPP financeira. ?Seria o melhor dos mundos para as duas partes?, admite um funcionário do BB. O presidente Lima Neto não quer deixar o esquema tático furar sua defesa e procura bancos que complementem seus negócios. Tudo para o contra-ataque continuar fortalecido.