23/04/2008 - 7:00
O CENÁRIO É DE UM FILME FUTURISTA E MOSTRA uma cidade feita de metal e cimento, onde 13 mil trabalhadores se deslocam freneticamente. Há torres gigantescas cravadas no chão. Tudo ali é pesado, é resistente. Tem-se clara impressão de que algo importante está para acontecer. A sinfonia de sons domina o ambiente: o barulho do bate-estaca mistura-se às sirenes que avisam que guindastes estão se movendo e ao ruído das faíscas que as soldas saltam no ar. Esse é o berço da mais nova siderúrgica do País: a Siderúrgica do Atlântico, encravada em um terreno na zona oeste do Rio de Janeiro, nas margens da baía de Sepetiba. O último empreendimento com essas feições no Brasil foi inaugurado em 1986, no município de Ouro Branco (MG), e deu origem à Açominas, hoje um dos braços do Grupo Gerdau. ?É realmente um grande projeto, que poderá se repetir com mais freqüência a partir de agora no Brasil?, diz o professor Germano Mendes de Paula, do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia e especialista em siderurgia.
A inauguração já tem data marcada: março de 2009. Naquele mês, um dos dois altos-fornos será ligado e irá produzir a primeira tonelada de aço. O segundo entrará em funcionamento meses depois. Uma vez acesos, os gigantes movidos a carvão mineral somente deverão ser desligados 30 anos depois. A reportagem da DINHEIRO esteve neste dinâmico canteiro de obras. Foi a primeira equipe de um veículo de comunicação a visitar toda a área e ver de perto o preparativo de um novo e histórico capítulo da siderurgia brasileira, com impacto direto na economia do Rio de Janeiro e do País. O projeto é da empresa alemã ThyssenKrupp. O investimento na Siderúrgica do Atlântico soma 3 bilhões de euros e seu objetivo é exportar placas de aço para suas unidades nos Estados Unidos e na Europa. A Vale participa do empreendimento, com 10% do capital, e se comprometeu a fornecer, por trem, o minério de ferro para a usina.
Se tudo der certo, os embarques no porto desta siderúrgica ? sim, foi construído um terminal marítimo ? terão enorme impacto nas exportações de aço do País. Cálculo inicial indica que a siderúrgica representará um aumento de 40% nas vendas externas de aço brasileiras. A contribuição para a balança comercial do País é estimada em US$ 1 bilhão ao ano, somadas a importação de carvão mineral e a exportação de aço. Tudo lá, no distrito de Santa Cruz, é superlativo. Quando estiver em funcionamento, o complexo industrial terá capacidade para produzir cinco milhões de toneladas de aço por ano, equivalente à CSN e à Usiminas. A Siderúrgica do Atlântico empregará 3,5 mil pessoas. A folha de pagamento será de R$ 90 milhões ao ano. Para suprir a necessidade de mão-de-obra, a companhia firmou um convênio com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, Firjan, para a formação de 1,5 mil trabalhadores no Senai ? um investimento de R$ 10 milhões bancados pela Thyssen. Trata-se do maior convênio já assinado pelo Senai do Rio de Janeiro. Além disso, movimentará uma vigorosa economia em seu entorno. A usina gerará 14 mil empregos indiretos. A nova empresa ainda comprará R$ 250 milhões em produtos e serviços na região, excluídas as matériasprimas. O complexo industrial contará ainda com uma usina termelétrica. ?Por mar, virá o carvão mineral de qualidade e por terra, o minério de ferro. Tudo isso seguirá para os altos-fornos de onde sairá o aço?, afirma Ricardo Brito, diretoradjunto do projeto ThyssenKrupp CSA Siderúrgica do Atlântico, nome oficial do empreendimento. Engenheiro brasileiro, Brito diz que esta é uma oportunidade rara de o País ver nascer, do zero, uma indústria moderna do setor de aço. Além dos benefícios financeiros do projeto para o Rio e o País, há, segundo ele, enorme repasse de tecnologia por conta do treinamento fornecido pela empresa na Alemanha, para onde viajam permanentemente técnicos e engenheiros envolvidos no projeto.
Um dos aspectos de ponta da Siderúrgica do Atlântico é sua relação com a comunidade e com o meio ambiente. A construção de um píer de 3,5 quilômetros e de um terminal marítimo respeitou a vida marinha, inclusive de um manguezal, uma área sensível. Biólogos foram consultados e o píer foi construído de forma a permitir a passagem de caranguejos e outros animais sob sua estrutura. ?A vida marinha passa de um lado para outro do píer sem dificuldades?, diz Brito. Além disso, graças à inventividade do arquiteto alemão Friedrich von Garnier, de 72 anos, as estruturas desta gigantesca usina serão coloridas. Há no canteiro de obras estruturas pintadas de verde-claro, verde-escuro, azul e até rosa. A usina já está sendo montada em cores e, uma vez pronta, em nada deve lembrar as antigas estruturas pesadas e cheias de fuligem dos primórdios da revolução industrial. A estrutura que suportará a esteira que ligará o terminal marítimo à área de armazenagem do carvão mineral, por exemplo, está pintada de azul. Nesta linha, a empresa já lançou projetos sociais para a comunidade de Itaguaí, ao lado da usina. Foram doados caminhões para o corpo de bombeiros local, e criado um programa de doação de computadores para escolas da região. Em breve, será inaugurada a Escola Técnica em Itaguaí, que deverá formar mão-de-obra especializada para a área de metalurgia. A empresa não fala abertamente, mas evidentemente estão todos lá na torcida para que o mercado internacional de aço continue aquecido pelos próximos anos, apesar da redução registrada no ritmo da economia americana. A demanda internacional é que vai dar o tom da produção na Siderúrgica do Atlântico.
Mas, por outro lado, a Siderúrgica do Atlântico já deu o tom na vida de muita gente, como Juliana Vieira de Magalhães. Sob as roupas pesadas e os capacetes inexpugnáveis, Juliana, de 27 anos, mãe de um menino, deixou o trabalho em uma videolocadora em Itaguaí, município vizinho, para atuar nas gigantescas soldas. Ela fez um curso no Senai e diz que não quer outra ocupação profissional. ?Não me imagino fazendo outra coisa?, afirma ela, que pretendia ser fonoaudióloga antes de conhecer a usina e tentar uma vaga como soldadora. ?Nós mulheres temos mãos leves e somos organizadas, qualidades necessárias a quem trabalha com solda?, conta ela. Quem assistiu a Flashdance, um sucesso de bilheteria dos anos 80, não deve se surpreender. No filme, a protagonista era uma soldadora e, no tempo livre, dançarina que cultivava o sonho de participar dos grandes musicais. Na realidade da zona oeste do Rio de Janeiro, Juliana já conquistou seu sonho.