30/10/2002 - 7:00
A corrida eleitoral começava a esquentar, em junho, quando um banqueiro convidou Luiz Inácio Lula da Silva para um encontro com os maiores financistas do País. Lula alegou agenda apertada e disse que precisava ouvir o presidente do PT, José Dirceu, antes de assumir um compromisso.
Dois dias depois, o Zé, como é chamado por todos que o conhecem a menos de vinte metros de distância, telefonou e disse que Lula iria desmarcar outros encontros para falar aos banqueiros. A reunião aconteceu em setembro e acabou com Lula aplaudido demoradamente por gente com sobrenomes como Setubal, Moreira Salles e Safra. O episódio é singelo, mas ilustra bem o poder de José Dirceu, um homem que, nos anos 60, com pinta de galã, estraçalhava corações e inflamava platéias estudantis. Quem o visse no Congresso da UNE, em 1968, de onde saiu preso, ou no treinamento cubano de guerrilheiros, em 1971, jamais imaginaria a influência que este mineiro, de Santa Rita, um dia alcançaria.
Hoje, Lula não toma decisão estratégica alguma sem ouvi-lo.
É seu braço direito, um lugar conquistado com conselhos,
mas também com muita ação — o expurgo das correntes de
extrema esquerda que habitavam o partido desde a fundação
é obra sua. O Zé foi também o homem que construiu novas pontes com o poder. O presidente Fernando Henrique recebeu-o duas vezes em sigilo no Planalto, durante a campanha eleitoral. Em Nova York, o JP Morgan, uma das mais tradicionais casas financeiras de Wall Street, abriu seus salões só para ouvi-lo. Além disso, a aliança eleitoral com o PL, que garantiu o vice José Alencar, foi negociada pessoalmente por ele. Com tantas realizações, Zé é o nome talhado para a tarefa de articulador político. Poderá fazer isso na Câmara, onde o governo terá uma extensa agenda a ser negociada, ou na Casa Civil. Porém, ele próprio tem mantido um rigoroso silêncio sobre seu futuro. ?Ainda não ganhamos?, dizia antes das eleições. ?Mas, quando assumirmos, pode estar certo de que falarei muito.? O homem que iniciou sua carreira política na esquerda fulgurante dos anos 60 e que saiu da prisão em troca do fim do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick chega agora, aos 56 anos, ao poder pela porta da frente. Ou da porrrrta, como o Zé diria com seu sotaque incorrigível.