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A resistência do Brasil à crise internacional fez do ministro Guido Mantega um dos homens fortes da Esplanada dos Ministérios. Quase um czar da economia, como nos velhos tempos do Ministério da Fazenda. Mas esse status não foi construído sozinho. Mantega tem um braço direito. Seu escudeiro é o economista Demian Fiocca, amigo de longa data, ex-aluno na USP e novo presidente da Nossa Caixa, banco que passou recentemente do governo paulista às mãos do Banco do Brasil.

Junta, a dupla Mantega e Fiocca tem redesenhado discretamente a política econômica. Quando Mantega estava no Planejamento, Fiocca participou do desenho das parcerias-público privadas. Quando o professor seguiu para o BNDES, levou também seu aluno e os dois bateram recordes de desembolsos no banco. Com Mantega na Fazenda, ambos passaram a defender uma política anticíclica, que prega mais gastos públicos em períodos recessivos.

Agora, Fiocca recebeu mais uma missão: a de induzir, por meio da Nossa Caixa, a redução dos spreads bancários. “A ordem é emprestar. Os bancos públicos têm esse dever em tempos de crise e Demian sabe disso”, disse Mantega, durante a posse do pupilo na segunda- feira 7. “Não só vamos emprestar mais, mas também com juros menores”, disse Fiocca à DINHEIRO .

À frente de uma instituição com patrimônio de R$ 2,8 bilhões, carteira de crédito de R$ 13,8 bilhões e R$ 54,3 bilhões em ativos, Fiocca é um banqueiro precoce. Com 40 anos, é o mais jovem a assumir a Nossa Caixa.

 

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Os amigos Bendine (à esq.), Mantega e Fiocca afinaram o discurso da redução do spread como forma de estimular a economia durante a crise

 

Mas isso não é novidade para esse economista que se define como keynesiano e que, aos 34, foi também o mais novo a presidir o BNDES. Em paralelo, tornou-se membro do Conselho Monetário Nacional, governador alterno do Brasil no BID, diretor da Corporação Andina de Fomento e membro do Conselho de Administração da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a Chesf. “Foram todas nomeações feitas com critérios técnicos”, afirma Fiocca, que diz manter com Mantega uma “sólida relação profissional”.

Os dois também mantêm estreitas afinidades ideológicas. Fiocca é autor do livro “A Oferta de Moeda na Macroeconomia Keynesiana”, publicação frequentemente elogiada por Mantega e que endossa a atual atuação do governo no combate à crise.

Ao nomear Fiocca para a presidência da Nossa Caixa, Mantega não jogou o amigo no fogo. Junto com a indicação veio um robusto conjunto de medidas para turbinar o banco durante o processo de fusão com o Banco do Brasil. Na última semana, a instituição recebeu R$ 1,5 bilhão para emprestar a empresas, com taxas subsidiadas e prazos alongados.

A carreira de Fiocca no setor público só foi interrompida em 2007, quando deixou o BNDES para se tornar diretor da Vale, de onde saiu em abril. Mas Mantega não o deixou ao relento nem por um mês. “Ele experimentou o setor privado, mas voltou porque gosta mais da área pública. E é bem-vindo de volta”, gracejou Mantega, sorrindo para o amigo.

O novo mandatário da Nossa Caixa também recebeu o aval do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, outro fiel escudeiro de Mantega, indicado ao cargo em abril deste ano. “A chegada de Fiocca será fundamental nesse processo de integração. Ele tem atributos pessoais e profissionais à altura”, enfatizou Bendine.

 

“Temos que emprestar mais”

 

DINHEIRO – Historicamente, a Nossa Caixa é um banco lento e defasado. Ainda nem entrou na era do chip. Isso mudará sob seu comando?
FIOCCA
– Estou aqui para liderar uma transformação. Não é fácil ajustar uma organização a uma fusão ou aquisição, como se dará entre o Banco do Brasil e a Nossa Caixa. Todos os esforços serão concentrados no processo de modernização do banco. A integração dos sistemas dos dois bancos proporcionará um salto tecnológico. Mas, com certeza, será um banco mais ágil e moderno daqui em diante.

DINHEIRO – Qual é sua bandeira?
FIOCCA –
Reduzir o spread e emprestar mais. A relação capital/ empréstimo da Nossa Caixa é muito baixa. Podemos emprestar muito mais e vamos fazer isso. As taxas já estão alinhadas às do Banco do Brasil e seguem uma tendência de queda.

DINHEIRO – Sua experiência profissional inclui o HSBC, um banco privado. É muito diferente de um banco público?
FIOCCA –
Cada empresa tem uma diretriz de trabalho. Mas, público ou privado, o desafio é um só. Tenho de fazer a Nossa Caixa emprestar mais, dentro daquilo que o governo imagina. O banco será um impulsionador da economia.

DINHEIRO – Por que perguntas sobre sua amizade com Mantega incomodam?
FIOCCA
– Não incomodam. É que não faz sentido misturar uma coisa com outra. Minhas nomeações sempre seguiram critérios profissionais. Nos últimos anos, Mantega e eu construímos uma sólida relação profissional. Só isso.