23/04/2008 - 7:00

CINCO ANOS ATRÁS, COM A SUA maleta de vendedor nas mãos, o executivo Marcus Vinícius Pratini de Moraes desembarcou nas Filipinas e puxou conversa com uma funcionária do hotel. ?A gente não come carne aqui, doutor, é caro?, disse ela. Pratini, que representava os exportadores de carne bovina, não desanimou. ?Milhões de pessoas emergiram da pobreza e a primeira coisa que fizeram foi colocar um bife no prato?, disse ele à DINHEIRO. O resultado foi surpreendente. As vendas brasileiras quintuplicaram e Hong Kong, porta de entrada para os mercados emergentes da Ásia, já é o terceiro destino das exportações nacionais. Como proteínas animais exigem uma quantidade ainda maior de grãos, consumida pelos rebanhos na forma de ração, o mundo passou a enfrentar uma situação nova: terras escassas, estoques mínimos e preços agrícolas em disparada. Um problema global? Certamente. Sem solução? Definitivamente, não. ?Somos a única saída?, diz Pratini, que já foi ministro da Agricultura. ?E digo isso sem ufanismo.?
O BRASIL PODE TRIPLICAR SUA ÁREA PLANTADA
Pratini está deixando o comando da associação dos exportadores de carne e assumindo a presidência do comitê global do Friboi. A empresa é o melhor exemplo das multinacionais que o Brasil tem formado na área de alimentos e que estão surfando na onda da ?agroinflação?. No início da década, o Friboi já era um dos maiores frigoríficos do País, com vendas de R$ 1 bilhão. Mas de três anos para cá, o grupo iniciou um banquete de aquisições e foi engolindo concorrentes na Argentina, Itália, Estados Unidos e Austrália. O resultado é que, neste ano, com US$ 22,5 bilhões em vendas, o Friboi já será a terceira maior multinacional brasileira, atrás apenas de Vale e Gerdau, e com cerca de 80% da receita fora do País. Nisso, Pratini teve um papel fundamental. ?Quando muita gente reclamava do câmbio, eu mostrei o outro lado da moeda?, diz ele. ?As empresas brasileiras ficaram valiosas e passaram a ter mais poder de compra no Exterior?, diz ele.
Outro aspecto relevante nessa arrancada foi a chegada de Luciano Coutinho ao BNDES. Nacionalista, ele enxergou no setor de alimentos um terreno fértil para a criação de multinacionais brasileiras. E, se antes o banco apenas financiava investimentos dessas empresas, agora passou a comprar participações acionárias. No caso do Friboi, a BNDESPar adquiriu 13%. O banco é também sócio do Marfrig, outro frigorífico, e da Santelisa Vale, a segunda maior produtora de açúcar e álcool do País. ?Estamos conversando com muitas empresas e a nossa previsão é investir R$ 3 bilhões até julho nessas companhias?, antecipou à DINHEIRO Jaldir Freire, que é chefe do departamento de agroindústria do BNDES. Embora o maior investimento tenha ocorrido no Friboi, ele refuta a tese de que a empresa teria sido ?escolhida? pelo banco. ?As portas estão abertas para todos que tiverem bons projetos.?
Na visão de muitos analistas, e Pratini é um deles, a bola da vez é o leite. Empresas tradicionais nas carnes, como Perdigão e Bertin, fizeram compras recentes de laticínios, com apoio do BNDES. ?Somos o único país do mundo que pode aumentar significativamente a produção?, diz Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil, a associação do setor. Entre as vantagens comparativas do País, destacam-se as condições naturais, a capacidade empresarial e a imensa disponibilidade de terras (leia gráfico abaixo). Além disso, devem entrar na conta futuros ganhos de eficiência. A Parmalat, que foi adquirida pelo fundo Laep, do empresário Marcus Elias, colocou em marcha o projeto Integralat, que visa aumentar a produtividade dos rebanhos nacionais. ?Isso vai fazer com que o Brasil gere grandes excedentes exportáveis, num primeiro passo antes da internacionalização?, disse ele à DINHEIRO. Outro movimento foi feito pela GP. A gestora de fundos, controlada por Fersen Lambranho, está adquirindo por R$ 308 milhões a Leitbom, de Goiás. E deve levar a empresa ao mercado de capitais, num futuro lançamento de ações.
Nos últimos dois anos, várias empresas agrícolas, como Agrenco, SLC e Marfrig, fizeram IPOs. Outras estão a caminho. É o caso da Vanguarda, do empresário Otaviano Pivetta, que cria gado e planta grãos em 330 mil hectares de terras. ?Vou à bolsa e quero chegar a 500 mil hectares?, diz ele. Outro rumor diz respeito à Agropecuária Santa Bárbara, que já é a maior empresa do ramo no País, com quase 500 mil cabeças de gado. ?A pecuária bovina viveu uma revolução tecnológica e hoje é possível produzir muito mais em menos área?, avalia Carlos Rodenburg, presidente da Santa Bárbara. Nas suas fazendas, há 2,7 bois por hectare, enquanto a média nacional é de 0,6.
O setor de aves é outro em que o Brasil se destaca e também se internacionaliza. A Sadia, de Walter Fontana, está investindo US$ 100 milhões numa fábrica nos Emirados Árabes e a Perdigão, comandada por Nildemar Secches, adquiriu a Plusfood, da Holanda. ?A nossa meta é ampliar as vendas na Europa, com maior valor agregado?, diz Secches. E enquanto as empresas brasileiras avançam, os estrangeiros não têm tido vida fácil aqui. A americana Tyson Foods chegou perto de comprar a avícola gaúcha Pena Branca, mas foi ?atropelada? pelo Marfrig, que pagou um preço maior. Alguns anos atrás, dizia-se até que a Tyson viria ao Brasil para comprar Sadia ou Perdigão. Só que pelo andar da carruagem, já não será tão surpreendente se, no futuro, empresas brasileiras repetirem o exemplo do Friboi e decidirem jantar gigantes internacionais, como ADM, Cargill ou Dreyfus. ?Seria um sonho?, admite Jaldir Freire, do BNDES.