19/10/2001 - 8:00
Quem deixa o quilômetro 14 da Rodovia dos Tamoios em direção à sede da Avibras, no sopé da Serra do Mar, região de São José dos Campos, geralmente se surpreende com a natureza e o ambiente bucólico. Pastagens, rebanhos bovinos e pequenos córregos compõem a paisagem ao longo da estrada que leva à maior indústria bélica nacional. Dá até para sentir o cheiro da fazenda. É lá, numa gigantesca área de 13 milhões de metros quadrados, que o Brasil produz mísseis de longo alcance, foguetes, radares, munição pesada e toneladas de explosivos. É também nessa zona rural que está acontecendo uma das maiores reviravoltas corporativas já vistas no cenário empresarial brasileiro. A Avibras, que nos anos 80 foi o maior grupo exportador do País, mas que enfrentou uma dura crise no início da década seguinte, chegando até a pedir concordata, hoje trabalha a todo vapor. Com o ataque aos Estados Unidos e a instabilidade geopolítica internacional, o mercado para a indústria de defesa, que já estava aquecido, disparou. ?O mundo ficou mais perigoso?, diz João Verdi, presidente e fundador da empresa.
Desde 11 de setembro, o ritmo de encomendas só cresceu. O contrato mais recente, no valor de US$ 250 milhões, foi fechado com o governo da Malásia e prevê a venda de equipamentos do sistema Astros. São caminhões blindados, de grande mobilidade, que disparam foguetes de artilharia e mísseis. Só neste ano, a empresa contratou 780 pessoas e dobrou de tamanho. Até o começo de 2002, serão 2 mil funcionários. A meta é exportar US$ 1,5 bilhão em dez anos e chegar a ter 6 mil operários em suas quatro fábricas no Vale do Paraíba. As consultas têm vindo do mundo todo. ?A reação militar americana criou uma cortina de fumaça que estimulou novas tensões?, diz o engenheiro Verdi. ?Como todos os olhos estão voltados ao Afeganistão, outros conflitos têm acontecido sem despertar grande atenção internacional.? Há vários exemplos. O Irã já ocupou áreas que pertenciam aos Emirados Árabes. Índia e Paquistão estão perto de uma guerra. Além disso, na África, que já é um barril de pólvora, os problemas voltaram a crescer. Verdi não revela quem são seus clientes, mas é só rastrear os conflitos internacionais para identificá-los. Ele só garante que nunca forneceu para o Afeganistão. O Talibã opera com armas americanas, do tempo em que a CIA financiava Osama Bin Laden, e russas, abandonadas no país após a guerra.
Calote de Saddam. Nascida em tempos de Guerra Fria, a Avibras foi fundada por oito engenheiros saídos do ITA, em 1961. Viveu momentos gloriosos, exportando grande parte dos armamentos usados pelo Iraque nos anos 80. Verdi chegou até a ser condecorado pelo Estado Maior do governo de Saddam Hussein pelo desempenho do sistema Astros durante a guerra contra o Irã. Mas essas relações também deixaram seqüelas. ?O Saddam nos deu um calote de US$ 40 milhões?, diz Verdi. Só que, ironicamente, os lançadores Astros também acabaram sendo utilizados, com grande sucesso, na libertação do Kuwait durante a Guerra do Golfo, no início dos anos 90. Foram essas vendas que ajudaram a empresa a sair da concordata. ?A crise aconteceu depois do fim da Guerra Fria, quando os países que formavam o bloco socialista inundaram o mercado mundial de defesa?, diz João Brasil Carvalho Leite, diretor da empresa. Nesse período, o mercado mundial de armas recuou de US$ 1,3 trilhão por ano para US$ 780 bilhões anuais. Uma das saídas encontradas pela Avibras foi a produção de equipamentos civis, como antenas parabólicas, centrais de telecomunicação e explosivos utilizados pelas mineradoras.
Imposto contra exportação. Com o reaquecimento do mercado militar, a meta de exportar US$ 1,5 bilhão por ano até 2010 é realista, mas, segundo os diretores da Avibras, poderia ser alcançada muito mais rapidamente se a empresa contasse com o apoio de Brasília. ?Nesse mercado de defesa, o governo é totalmente alinhado aos interesses dos Estados Unidos, que não gostam de ver países como o Brasil exportando armamentos?, diz Carvalho Leite. Há exemplos concretos de ações do Planalto contra a indústria bélica. No fim do ano passado, o governo editou uma Medida Provisória taxando em 150% as exportações do setor, num caso inédito. A medida já caiu, mas, por muito tempo, a Avibras teve de contestar os impostos munida de uma liminar judicial e a Receita Federal pode, a qualquer momento, ir atrás desses recursos. Nas relações com o governo, a Avibras também alega ter um crédito de R$ 100 milhões, não reconhecido pelo Exército, ligado a um contrato de importação de equipamentos que não foi reajustado após a desvalorização cambial de 1999. ?A máxi quebrou o equilíbrio financeiro do contrato e descapitalizou a empresa?, avalia Leite.
A Avibras enfrenta ainda outra restrição às exportações. Ao contrário de muitos países, o governo brasileiro não oferece garantias nas vendas de produtos bélicos. ?Como só
podemos dar em garantia nossos ativos e algumas coisas que conseguimos em bancos privados, nosso crescimento é mais lento do que poderia ser?, lamenta o presidente João Verdi. Pressões comerciais, comuns em vários setores da economia, são muito mais intensas na indústria bélica. ?A Avibras tem razão quando reclama não ter apoio do governo?, diz Paulo Wrobel, analista de Relações Internacionais, baseado em Londres. Em muitos países, diz Wrobel, o setor de armas pesadas é visto como estratégico. ?Se a prioridade de um governo é gerar empregos e estimular investimentos em pesquisa e desenvolvimento, a indústria bélica cumpre bem essa função?, afirma.
O melhor exemplo de preocupação com o setor militar vem dos Estados Unidos. Lá, o governo lançou uma licitação de US$ 100 bilhões para reequipar suas forças aéreas. Os contratos estão sendo disputados pela Boeing e pela Lockheed Martin. Só para comparar, os investimentos para a compra de novos caças pela Força Aérea Brasileira são muito menores: US$ 700 milhões. Mas a licitação traz oportunidades para a indústria nacional. O ponto positivo é a exigência de transferência de tecnologia colocada no edital. O consórcio vencedor será obrigado a nacionalizar parte da produção. A Avibras, que nasceu há 40 anos como uma empresa aeronáutica, associou-se a vários deles e tem projetos para voltar a fabricar aviões. ?Hoje nós somos a Lockheed e a Embraer é a Boeing?, diz o diretor Carvalho Leite. ?Mas podemos alcançá-los.?
Repetir o sucesso da Embraer, o primo rico de São José dos Campos, é uma das metas da Avibras. No planejamento estratégico da empresa, uma das alternativas que vêm sendo estudadas é a abertura de capital. Alguns bancos de investimento até já visitaram a zona rural de São José. ?Mas o controle será sempre nacional?, diz Carvalho Leite.