De pé, ó vítimas da fome, de pé famélicos da terra. Ao som da Internacional, hino comunista, no original em russo, e não em português, dá-se a abertura do site do Partido da Causa Operária, o PCO. Depois, basta clicar na imagem de Leon Trótski (1879-1940), à direita, e aí sim penetra-se no universo de uma candidatura a presidente da República de escassos R$ 200. Na semana passada, o TSE divulgou a primeira parcial da declaração de arrecadações e gastos da campanha de 2006 (acompanhe no quadro ao lado). A candidatura a presidente do jornalista Rui Costa Pimenta, de 49 anos, cujo avô, gráfico, foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro, indicava zero na coluna de gastos e os tais míseros R$ 200 em doações, feitas em nome do partido e não do candidato. Diante de valores altos como os do PT (R$ 22,3 milhões) e do PSDB (R$ 21 milhões), soa franciscanamente pobre. A estrutura do PCO é infinitamente mais econômica que a das duas outras agremiações, mas cabe um olhar atento para entender o que ocorre. No último dia 5, o TSE impugnou a candidatura operária porque o PCO não apresentou em tempo hábil a prestação de contas das eleições de 2002, quando teve 38.619 votos, ou 0,045% do total. Os advogados contestaram a decisão, que agora está sub judice. O nome de Pimenta, portanto, aparecerá na urna eletrônica, já que a decisão final só acontecerá em 2007. Como resultado desse quiproquó, a campanha presidencial transformou-se em movimento contra a impugnação. É uma anticandidatura que não atrai dinheiro, nem mesmo de militantes aguerridos.

?Todos os outros partidos são membros da classe dominante, da burguesia, inclusive Lula, que não pode ser chamado de operário, nem metaforicamente?, afirma Pimenta. ?Somos os únicos a realmente defender os mais pobres?. O raciocínio é interrompido pelo filho, João Jorge, de nove anos, recém-chegado da escola, ainda de uniforme, encostado no ombro do pai. ?Sei que não é boa hora, papai, mas cadê minha mesada??, cobra o garoto, insinuante. Induzido a explicar o que fará com o dinheiro, o menino não vacila. ?Saiu um game novo do PlayStation.? Pimenta retruca carinhosamente. ?Diz aí ao jornalista que você gosta também de matemática e idiomas?, pede o candidato, cercado de livros (coleções completas das obras de Trótski, Marx e Lênin) na sede do partido, na Saúde, bairro da zona sul de São Paulo. O filho sai de cena, à espera da mesada. Pimenta retoma o tema dos fundos eleitorais.

Ele reconhece que a guerra com o TSE representou uma oportunidade para o PCO, chance de exibir a pobreza de modo a denunciar as campanhas milionárias. ?Mesmo se tivéssemos R$ 80 milhões, gastaria muito pouco com as eleições?, assegura. ?Poria o dinheiro em outras atividades, na defesa da revolução socialista.? E os duzentinhos? São mais. No início de setembro, o partido promoveu uma série de jantares de apoio em 15 Estados, a R$ 50 por cabeça. Compareceram cerca de mil pessoas. Resultado: pelo menos R$ 50 mil. Não há crime eleitoral com a franciscana apresentação dos rendimentos. O TSE, por meio da nova legislação, estabeleceu a divulgação de prestações preliminares, e estas servem apenas como instrumento de transparência. Não tem o poder de fiscalização. O PCO pode deixar o cenário claro nas contas finais, e tudo bem. ?Há dezenas de candidatos acusados de corrupção, e o TSE se insurgiu contra o nosso nome?, diz Pimenta. ?O povo saberá reconhecer essa incoerência.? Para comprovar sua honestidade, ressalta o tamanho do patrimônio pessoal. ?Tenho apenas 1/3 de um apartamento que não passa de R$ 300 mil, onde hoje mora meu irmão. Eu vivo em outro lugar, de aluguel.?