13/11/2002 - 8:00
O que mudará na economia?
O que nós propomos é construir um amplo mercado de consumo de massa, promovendo a inclusão social de milhões de brasileiros. São pessoas que não são produtores, não são consumidores e nem propriamente cidadãos.
Como fazer isso?
A construção desse mercado começa por setores que não pressionem a balança comercial. O primeiro é a agricultura, a base do programa de combate à fome. De 1999 até agora, bastou ter uma taxa de câmbio realista para que a safra agrícola aumentasse em 20 milhões de toneladas de grãos. Já somos hoje o maior exportador líquido de alimentos. Que outro país consegue um salto dessa magnitude? Nosso saldo comercial no agribusiness será de quase US$ 19 bilhões. É um setor que pode continuar crescendo, exportando e atendendo à demanda popular por uma alimentação melhor.
O programa de combate à fome não reduziria o saldo exportador?
Não, porque quando você organiza uma compra coletiva, há um aumento de demanda mas a oferta também pode reagir. Esse esforço não pressiona a inflação, não gera ágio e também não prejudica o saldo externo. Em 1929, no auge da crise americana, esse programa foi lançado por Franklin Roosevelt. Era o Food Stamps, que existe até hoje e contempla 27 milhões de americanos. Esse programa, que aumenta a eficiência da produção, se vier acompanhado de uma boa reforma agrária, também gera emprego. Temos 11 milhões de desempregados e 5,4 milhões de jovens que chegarão ao mercado nos próximos quatro anos.
E além da agricultura?
Outro setor fundamental é o de habitação e saneamento. Dá estabilidade social, gera empregos, mas tem um grande problema: a falta de financiamento.
Como resolvê-lo?
Com essa taxa de juros, de fato, é muito difícil. Mas, olhando
para o resto do mundo, o financiamento imobiliário é um dos
grandes pilares do sistema financeiro. Os bancos têm também interesse em contribuir para uma solução porque a base de
crédito no Brasil é muito pequena. Apenas 28% do PIB. Não
dá para sustentar o sistema financeiro apenas com a rolagem dos papéis da dívida pública.
Os credores teriam mais garantias?
Temos um grupo de trabalho que apresentará o projeto ao País.
Esse setor, à base de cimento, telhas e tijolos, não pressiona
em nada a balança comercial e haverá, sim, mudanças
institucionais importantes. O sistema de hipotecas dará mais garantias aos investidores.
Quais serão as outras prioridades?
A educação é um estrutural. A Bolsa Escola está em todos
os nossos municípios. Existe um programa federal também, mas
com valor pequeno. No nosso caso, haverá uma grande
articulação entre União, Estados e municípios. Além disso,
temos de aumentar muito a oferta de vagas no ensino médio e no ensino superior. Nas universidades, 74% dos alunos pertencem à faixa dos 20% mais ricos da sociedade. O pobre não tem acesso à educação superior e isso perpetua a má distribuição de renda. O social deve estruturar a economia.
Como pretendem superar a atual crise econômica?
Paralelamente ao processo de inclusão social, o País terá que gerar megasuperávits comerciais. Neste ano, teremos um superávit superior a US$ 10 bilhões, mas que está sendo marcado por uma retração da atividade econômica e por outras deformações, como uma taxa de câmbio que prejudica muito as finanças públicas e gera pressões inflacionárias.
Daria para ser diferente?
Nós temos que gerar superávits iguais ou maiores, mas com uma economia em crescimento, com uma taxa de câmbio equilibrada e, de preferência, aumentando tanto as importações quanto as exportações. Isso envolve desde políticas de financiamento, utilizando o BNDES, como boas negociações internacionais.
No esforço exportador, como seria a política comercial brasileira?
Precisamos de uma diplomacia agressiva. O Chile tem 95 acordos bilaterais e o Brasil não explorou essa possibilidade. Até porque o governo Fernando Henrique Cardoso, principalmente no primeiro mandato, ficou entorpecido pelo populismo cambial. Eles acreditavam que o Brasil deveria ter déficits comerciais. Era a tese Gustavo Franco, pela qual estamos pagando o preço até hoje.
Haverá mais proteção?
O Brasil pode proteger seu mercado, dentro das regras, e podemos exigir reciprocidade dos nossos parceiros. Veja o caso dos Estados Unidos. Mais de 60% das nossas exportações para lá sofrem algum tipo de barreira. No caso do suco de laranja, é uma sobretaxa de 480 dólares. No açúcar, temos uma cota limitada. Fora disso, pagamos 300% de imposto. O que aconteceu? No primeiro governo FHC, os americanos aumentaram as exportações para o Brasil em 116%. Nós aumentamos em 5%. O comércio entre os dois países é de US$ 30 bilhões. Em cinco anos, pode ser de US$ 100 bilhões, desde que haja reciprocidade. Seria bom para eles, seria fundamental para nós.
Como o Brasil deve aderir à Alca?
De forma soberana e inteligente. Eu estive no USTR, o ministério do comércio americano. Sabe qual é a prioridade deles em relação ao Brasil? O combate à pirataria. E por que nós não combatemos? Isso não é interesse apenas dos americanos. É interesse nosso. Temos uma indústria fonográfica que já foi a sexta maior do mundo e hoje é 12ª. Somos o terceiro país que mais pirateia CDs em todo o mundo. Isso não paga direito autoral, as lojas fecham, as gravadoras empregam menos e por aí vai. Nós queremos aumentar ? e muito ? o comércio com os Estados Unidos.
E os outros mercados?
Temos que aprofundar a relação comercial com nossos vizinhos. Veja o caso da Venezuela. O que o país importa de produtos industrializados corresponde a 30% daquilo que o Brasil exporta de manufaturados. Mas só 1% daquilo que a Venezuela compra vem do Brasil. Seria muito mais inteligente para o Brasil comprar mais petróleo e derivados de lá do que de países do Oriente Médio.
Isso não prejudicaria a relação com os Estados Unidos?
Falo da Venezuela hipoteticamente. Não sei qual é o futuro governo deles, se será o Hugo Chávez ou não. Mas temos que nos integrar com os vizinhos.
O sr. atuará nessas negociações internacionais?
O papel de cada um no governo será definido pelo Lula e só por ele. Ninguém está autorizado a fazer qualquer tipo de especulação. Eu tenho uma definição, que eu assumi na campanha e quero cumprir. Fui eleito senador com mais de 10 milhões de votos. O Senado é uma instituição central. É lá que se homologa a diretoria do Banco Central, que se negociam acordos internacionais, empréstimos para Estados e muitas outras questões relevantes. Por isso, vou iniciar a próxima legislatura como senador. Mas não descarto exercer função de ministro.
Da Fazenda?
O Lula decide.
Há quem diga que o sr. está à esquerda do governo Lula?
Nunca estive à esquerda do Lula.