Uma tradição secular na história do Citibank no Brasil está para ser quebrada. A instituição, que sempre repeliu qualquer forma de crescimento que não fosse orgânica, resultado da expansão natural de seus negócios, deu uma guinada brusca e, em plena negociação com o Banco Mercantil de São Paulo, é mais compradora do que qualquer outra no mercado. A expansão para o varejo, duas vezes tentada e fracassada nos últimos dez anos, não ocorrerá mais dentro da marca Citibank. A última aventura foi definitivamente sepultada na virada do ano, quando o banco fechou as portas para a abertura de novas contas de poupança e decidiu se desfazer de suas carteiras de financiamento imobiliário e de automóveis. O varejo virá, mas através de aquisições e fora das cada vez mais exclusivas e elitistas lojas do Citi. Foi com essa estratégia na cabeça que o banco se aproximou da noiva que há mais tempo espera no altar do sistema financeiro. O grupo americano montou uma ofensiva para arrematar a Finasa, a tradicional financeira do Mercantil , e acabou induzido a levar a conversa mais longe. O Banco Central enfatizou que gostaria de ver todo o Mercantil vendido e as conversas estão agora em torno do controle do banco.

O Mercantil publicou nota na semana passada falando em conversas ?com um banco americano? para uma associação, mas para o Citi o que existe é mesmo uma negociação para a compra do banco de Gastão Eduardo Bueno Vidigal, 82 anos. A convivência de um grupo de cultura corporativa à americana com um banqueiro centralizador à moda antiga como Vidigal é tida como inviável. Mas o anúncio do Mercantil surpreendeu sobretudo porque fazia o negócio parecer mais fechado do que estava. O Mercantil mantinha conversas em paralelo com outros candidatos e não tinha ainda um acerto definitivo com o Citi. Soou como uma cartada para apressar as negociações, que corriam nos bastidores já há seis meses.

A atuação do BC foi decisiva para que o acordo começasse a ganhar corpo. Vidigal, tido como um negociador firme, alimenta já há um ano o hábito de negociar longamente até dizer não aos pretendentes nos últimos instantes. Foi assim com praticamente todos os bancos grandes do País, inclusive com o próprio Citi, em uma outra ofensiva no ano passado. Mas dessa vez o BC deixou claro que esperava que Vidigal capitalizasse o banco logo ou procurasse alguém que estivesse disposto a fazer isso em seu lugar. O Mercantil estourou o limite para as aplicações em imóveis, que estava fixado em no máximo 80% do patrimônio até junho do ano passado e foi reduzido pelo BC a 70%. Houve uma cisão em dezembro, que retirou imóveis do banco e fez o patrimônio líquido cair de R$ 1,007 bilhão, em 1999, para R$ 963 milhões em 2000, mas o banco continua desenquadrado. E, sem uma capitalização, a perspectiva é sombria: o limite cai para 60% do patrimônio em junho de 2002 e em seguida para 50%, em dezembro. O BC cobra uma solução desde junho passado, e o banqueiro informou que a opção era por buscar uma instituição que pusesse dinheiro no banco. Os técnicos do BC concordaram, mas cobraram atos que comprovassem as intenções anunciadas. O fato relevante publicado na semana passada soou como música em Brasília.

O interesse do Citi na Finasa é tanto que, para o banco, vale a pena aceitar o Mercantil a reboque. Parte da equipe de Álvaro de Souza, o vice-presidente para a América Latina, passou todo o ano passado em busca de uma financeira forte para comprar no Brasil. É prioridade para o projeto de varejo do grupo. Financeiras encabeçam os negócios do grupo com a baixa renda nos demais países da América Latina e, no fim do ano passado, entraram no cardápio também nos Estados Unidos. É o caminho para ganhar escala rapidamente no varejo, o que o grupo jamais conseguiu no Brasil pela via do crescimento orgânico. E com a vantagem colateral de não contaminar a marca Citibank, tão identificada com o cliente de alta renda que vinha inviabilizando as tentativas de expansão do banco. ?Vamos nos posicionar no segmento de cima?, resume um executivo do banco. ?A classe média não tem coragem de se aproximar de nós e a classe alta não quer perder a exclusividade. Não vamos mais tentar contrariar essa vocação?, explica. A opção pela compra de uma instituição é sinal dos tempos após a fusão do Citi com o Travelers Group. O presidente desde o ano passado do Citigroup, Sanford Weil, construiu a maior instituição financeira americana na base das aquisições. A fililal brasileira, sob o guarda-chuva vermelho do Travelers, que é agora a marca do grupo, aprendeu a lição.