Pergunte a nove entre dez caixas do supermercado BomPreço se eles conhecem Tom Den Hartog e a resposta será um sonoro ?Quem??. Hartog é um holandês de 54 anos, que mora no bairro de Boa Viagem, em Recife, e preside a filial brasileira do grupo Royal Ahold, dono do BomPreço. Não por culpa dos funcionários do supermercado, mas por opção própria, o executivo faz questão de manter o anonimato. Até na sede da empresa, no bairro de Iputinga, há quem não o identifique como o mentor principal da rede líder do Nordeste. ?É o meu trabalho que tem que aparecer?, justifica ele à DINHEIRO, numa de suas raras entrevistas. Foi assim quando o grupo Royal Ahold arquitetou a compra do BomPreço ou quando abocanhou o concorrente G Barbosa, em dezembro de 2001. Nem os executivos que trabalham junto de Hartog sabiam das negociações, que duraram três meses. Na surdina, bem ao seu estilo, Hartog vem preparando agora o ataque do Royal Ahold além das fronteiras nordestinas. Há, no mercado, quem jure de pés juntos que o executivo está armando a entrada da rede holandesa no Sudeste por meio da compra do Sé, pertencente ao grupo português Jerônimo Martins. Em Portugal, Royal e Martins são sócios, o que reforçou as suspeitas de um repeteco da parceria também no Brasil. ?Não há nada de concreto sobre este assunto?, despista o holandês.

Caixa cheio. Não é de hoje que a Royal Ahold procura um espaço na região dominada por Pão de Açúcar e Carrefour. Desde que desembarcou no Brasil, a potência holandesa não fez tanto barulho como era esperado. Focou suas operações totalmente no Nordeste brasileiro. Verdade que, por lá, é líder incontestável, com suas 154 lojas e faturamento de R$ 3,2 bilhões. Mas a julgar pelo porte da Royal Ahold no mundo, a hegemonia na região é uma conquista ainda pequena. Para se ter uma idéia, o mercado estimado no Brasil é de R$ 75 bilhões e o Nordeste representa 12,6% ou R$ 9,4 bilhões. Além disso, o País responde apenas por 3% dos negócios do grupo. ?Ainda temos muito para crescer?, diz Hartog. E faz um adendo: a empresa tem dinheiro em caixa e pode, sim, partir para aquisições. Hartog afirmou que busca oportunidades de negócios no Pará, Minas Gerais e Espírito Santo. O crescimento seria, segundo ele, um movimento natural e obedeceria a estratégia de expansão gradual até a hora do duelo maior: com Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart no Sudeste. ?Estamos preparados?, garante Hartog.

Por preparado entenda-se disposição para aquisições e uma série de novidades para não deixar brecha aos concorrentes. Entre elas, a retomada do projeto Balaio, rede de lojas populares. São espaços desprovidos de luxo, instalados em 700 metros quadrados (um hiper tem cerca de 10 mil m2), onde não há ar-condicionado, os poucos funcionários trabalham sem uniforme, não existem sacolas de compras e apenas 2 mil artigos estão à venda. Outra idéia que Hartog trabalha é entrar na linha de food service, fornecendo alimento para restaurantes e hotéis. A Royal Ahold age silenciosamente, assim como seu principal executivo. Mas talvez
seja a hora de mostrar-se mais.