08/06/2004 - 7:00
Para que descansem em paz, os mortos dispõem em São Paulo de 3,2 milhões de metros quadrados de áreas nobres, exclusivas, muradas e protegidas por um pequeno exército de seguranças armados. Mesmo assim, a cada noite se quebra o silêncio sepulcral nos 22 cemitérios públicos. Saqueadores de túmulos, à cata de verdadeiros tesouros expostos sobre as lápides, agem à sombra das madrugadas, atacando o patrimônio tumular das famílias e movimentando uma vasta indústria de receptação. O campo é fértil e a polícia começa a rastrear o mapa desse comércio ilegal dos mortos. ?Antiquários e compradores de ferro são os principais suspeitos da recepta-
ção mais grossa?, diz o delegado dr. Manoel Adamuz Neto, responsável pelo bairro da Consolação, no qual ficam três dos maiores e mais antigos cemitérios da cidade.
Acima da terra, as sepulturas mais nobres, desenhadas por arquitetos especializados, chegam a ter um custo estimado em até R$ 800 mil, protegidas por colunas granitadas, cobertas por abóbodas douradas e ornadas com porcelanato espanhol, vasos florentinos e um estatuário em que despontam obras de imortais como Victor Brecheret. Mármore, bronze, latão, ferro e até, raros casos, peças banhadas a ouro circundam essas ricas lápides. A cobiça dos piratas de cemitérios, por meio de operações sofisticadas ou dilapidações raivosas, termina por roubar tudo o que lhes parece ter valor. ?Há ocorrências praticamente todas as noites?, assinala o chefe da Guarda dos Cemitérios, Edson de Araújo, que atua à frente de uma equipe de 32 policiais especializados no combate às quadrilhas fúnebres.
Numa das mais recentes prisões em flagrante, dois saqueadores foram surpreendidos quando agiam no cemitério do Araçá, na região central de São Paulo, hoje com 116 anos de fundação. Ali repousam quatrocentões cercados por relíquias de diferentes quilates. Os parceiros Luiz Rodrigues e Silvio Antônio foram apanhados e obrigados a mostrar onde escondiam 36 ricas peças tumulares. Com cerca de 25 mil jazigos, o Araçá reúne um dos mais atraentes butins aos olhos dos salteadores. Como mandava a tradição até meados do século passado, os jazigos ostentavam bastante luxo e pouca preocupação com a segurança. As melhores peças desta fase foram sendo uma a uma surrupiadas pelas quadrilhas, a ponto de, entre suas sepulturas, apenas 84 exibirem atualmente o status de abrigar a chamada arte tumular. No atual esquema de receptação que forma uma cadeia entre ladrões, antiquários e ferros-velhos, apenas um vaso das décadas de 20, 30 ou 40 pode valer até R$ 400 para seu portador. ?Tudo é muito rápido entre o furto e a venda?, constata Glauco Piai, chefe de gabinete do Serviço Funerário Municipal. ?Mas estamos atentos?.
Na periferia da cidade, a vigília do patrimônio dos mortos se torna uma operação de altíssimo risco. Um posto policial completo, com homens e viaturas, vai ser instalado nos próximos dias exatamente no centro do Cemitério São Luiz, na conturbada Zona Sul. Ali, os ataques chegaram ao ponto extremo de fazer com que quase metade das 1,2 mil sepulturas já terem sofrido ataques. Poucos meses atrás, a situação era ainda pior. A atual administração funerária da cidade investiu R$ 15 mil na compra de cinco quilômetros de arame farpado, suficientes para encimar os muros de 11 dos 22 cemitérios sob sua guarda. O número de furtos diminuiu, mas é difícil derrubá-lo a zero. Primeiro porque qualquer pessoa pode entrar e sair sem que lhe seja pedida identificação. A grande área dos cemitérios também favorece. Os ladrões costumam se esconder no final da tarde entre os jazigos, esperam a noite e, com apenas os mortos por testemunha, limpam as sepulturas. ?É humanamente impossível fazer uma proteção cem por cento eficaz?, admite Araújo.
O histórico problema de segurança findou por mudar o perfil no modo de sepultar os que se foram. As famílias de maior poder aquisitivo passaram a optar pelos chamados cemitérios-jardim, como o Ghetsêmani, no bairro do Morumbi. Ali há apenas grama e flores sobre as covas. ?Mas não descuidamos da segurança?, diz o administrador José Luís Benestrelo. Dos 100 funcionários do Ghetsêmani, vinte cuidam da vigilância. E um sistema de monitoramento e alarmes se encarrega de apoiá-los nesta tarefa.
Em São Paulo, todo o serviço funerário é administrado pelo governo municipal. Essa situação de estatização gerou no passado recente uma série de outros crimes. A começar pelos de extorsão e corrupção. A atual administração promoveu uma caça aos corruptos e exonerou 40 funcionários nos últimos três anos. Eles cobravam propina de fornecedores de flores, caixões e de todos os paramentos dos enterros, obtendo ilegalmente cerca de R$ 1, 5 milhão anuais. Famílias também eram levadas a pagar por propina para conseguir vaga nos cemitérios públicos. Com tantos fantasmas, é compreensível que os mortos se revirem nas tumbas. ![]()