A hipótese de se permitir uma aposentadoria calma e confortável nem passa pela cabeça do
ex-banqueiro Aloysio Faria. Dono de uma das maiores fortunas do País, o bilionário resolveu estrear aos
82 anos em um setor inédito em seu currículo como empresário. Faria
está debutando na construção
de residências. Seu projeto de estréia é um megacondomínio em Campinas, a 126 quilômetros de São Paulo. Não é um empreendimento tímido, do tipo que se espera de um iniciante. O terreno comprado para o projeto tem 4,83 milhões de metros quadrados, área quase igual à do Distrito Federal. O ex-banqueiro se recusa a chamar o empreendimento de condomínio. Para ele, trata-se de um novo e completo bairro. Faria levantará do chão uma comunidade inteira, com direito inclusive a serviços públicos como escolas, corpo de bombeiros, hospital e delegacia de polícia. O condomínio, ou bairro, como prefere, terá o nome de Santa Paula e, segundo os técnicos encarregados de seu desenho, será pioneiro no gênero no Brasil. Sua construção tomará quatro etapas. Somente a primeira deverá consumir R$ 200 milhões.

Recursos para bancar o projeto não são problema. Em 1998, Faria vendeu o seu Banco Real para os holandeses do ABN Amro em troca de um cheque de US$ 2 bilhões. Poderia ter se retirado para uma tranqüila vida de bilionário, mas começou a buscar novas frentes para aplicar sua fortuna. Para começar, manteve um pé firme no mundo das finanças ao abrir um banco de investimento, o Alfa. Ampliou sua rede de flats e hotéis, agrupados sob a bandeira Transamérica, e arrematou as redes de lojas de materiais de construção Conibra, Di Cicco e Madeirense, hoje fundidas em uma só, a C&C. O projeto imobiliário abre uma nova vereda para seus investimentos, mas alimentará os demais negócios do grupo. Por exemplo, toda a construção será feita com materiais fornecidos
pela C&C.

As obras começarão em março do ano que vem e deverão tomar dez anos para chegar à sua última etapa. Ao fim, a previsão é que o Santa Paula abrigue 25 mil moradores em 7 mil imóveis residenciais. Deles, 70% serão casas, como forma de garantir ao projeto uma textura urbana típica de bairros comuns. A segurança será 24 horas, como nos condomínios comuns, mas a sensação de vida artificial que há nos empreendimentos desse tipo será combatida com veemência. A idéia por trás do projeto é que nenhum de seus moradores precise pegar o carro na garagem para ir à padaria. ?O Santa Paula será voltado para a vida real?, sustenta Antônio Luiz Ribeiro, do escritório AIC Arquitetura, responsável pelo projeto. Isso terá um custo. As menores unidades terão 150 metros quadrados e custarão R$ 225 mil, preço relativamente alto para uma cidade do interior ? mesmo uma cidade rica como Campinas. As maiores terão o dobro do tamanho. E custarão o dobro do preço.

Ecologicamente correto. A demanda para tornar viável o bairro de Faria virá de funcionários e executivos de grandes empresas instaladas na região do Santa Paula. Motorola, Lucent e Ambev, por exemplo, estão a um passo do terreno que abrigará o projeto. Como grande atrativo, o condomínio pretende ser ecologicamente correto do desenho à construção. Faria desprezou um terreno na mesma região, que abriga hoje o parque de diversões Hopi Hari, e preferiu um outro, no qual manterá três lagos e uma área de preservação ambiental de 400 mil metros quadrados. O bairro será atravessado pelo que o ex-banqueiro chama de corredor ecológico, uma imensa área verde que cruza o terreno de ponta a ponta. O esgoto produzido pelos moradores será tratado e sua água será usada na irrigação do próprio Santa Paula. Por último, Faria entregará aos moradores um manual sobre a flora e a fauna locais. Cada um deles conhecerá as aves que vivem na região, por exemplo, e qual o
alimento que pode ser dado a elas.