O engenheiro Renato Albuquerque tem um problema mal resolvido com espaços pequenos. Ele não sabe bem por que, mas detesta sentir-se privado do horizonte. Já lhe disseram que talvez seja um resquício inconsciente dos tempos de recém-formado, quando, nos anos 50, montou o seu primeiro negócio ? uma empresa de estudos topográficos. A firma funcionava numa caixa de sapatos de 20 m2, no centro de São Paulo. Ali se espremiam, além dele, o amigo e sócio Yojiro Takaoka, um contador e um desenhista. Só que os quatro não cabiam ao mesmo tempo no lugar. Trabalhava-se no sistema de rodízio. Albuquerque hoje tem uma sala só para ele cuja mesa de reuniões comporta 20 pessoas com folga. Há até um enorme jogo de sofás de couro e estante de parede inteira. Um verdadeiro latifúndio. É que o engenheiro tornou-se também um empresário construtor de bairros e aprendeu a pensar grande ? tão grande quanto seus olhos pudessem alcançar. Albuquerque é pai do Alphaville, o condomínio sinônimo de ?vida boa? e sonho de consumo da classe média que almeja o andar de cima.

Essa espécie de Beverly Hills encravada em Barueri (SP) está fazendo 30 anos. No começo era só mato. Cinco milhões de metros quadrados, ou 600 Macaranãs, de mato ? que por obra de Albuquerque e Takaoka deu lugar a alamedas arborizadas, mansões cinematográficas, jardins sem muros, duas mil empresas e um potencial de consumo de R$ 1,4 bilhão ao ano. A área dobrou de tamanho, chegou à vizinha Santana de Parnaíba e gerou nove filhotes em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Goiânia, Fortaleza, etc. No total, os Alphavilles espalhados pelo Brasil ocupam 20 milhões de metros quadrados. Mas Albuquerque vem se sentindo meio ?preso? ultimamente. Por isso, resolveu lançar 15 novos empreendimentos até 2005 (em Porto Alegre, Juiz de Fora, Natal, Recife, Cuiabá, etc).?Vamos investir R$ 750 milhões na urbanização dessas áreas?, contabiliza ele, que prevê faturamento de R$ 300 milhões para a Alphaville Urbanismo em 2004. ?Quando tudo estiver pronto, teremos urbanizado 45 milhões de metros quadrados ao longo de nossa história.?

O projeto de expansão, na verdade, começou em 1995, depois da morte de Takaoka. Na ocasião, Albuquerque deixou a construtora
para os herdeiros do sócio, ficou com a marca e abriu outra empresa, a Alphaville Urbanismo. Com a nova companhia nasceu uma nova forma de tocar o negócio. Albuquerque não compra mais terrenos.
Ele apenas os comercializa, providencia toda a infra-estrutura (incluindo campos de golfe de R$ 6 milhões em alguns casos) e repassa uma porcentagem da venda aos proprietários. Foi assim
que a grife Alphaville expandiu-se rapidamente. Agora Albuquerque quer levar o seu conceito de moradia aos menos abonados. Há seis meses ele esquadrinha o projeto do VillasAlpha, para famílias com renda média de R$ 2,4 mil mensais. Serão lotes de 300 metros quadrados (a metade dos vendidos nos Alphavilles) e preço de
R$ 40 mil. Na mira para receber investimentos de R$ 30 milhões
cada, três cidades: Gravataí (RS), São José dos Campos (SP) e Salvador (BA). ?Eu acho que nós temos a obrigação de resolver
o problema desse pessoal?, afirma Albuquerque.

Alguns urbanistas, no entanto, dizem que o modelo Alphaville não resolve problemas, e sim os cria. ?É um conceito perverso de moradia?, fustiga a arquiteta Raquel Rolnik, chefe da Secretaria Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades. ?São guetos, fortalezas que acirram os conflitos sociais. Do ponto de
vista do desenvolvimento humano, nada mais pobre do que o con-
vívio exclusivo entre iguais. É da diferença que nasce cultura. E Alphaville não permite isso.? Albuquerque rebate: ?Eu não estou me separando dos pobres de bom caráter. O problema é que eu não consigo distingui-los além do muro?. Seja como for, as prefeituras adoram ter um Alphaville por perto. Só em Barueri, 65% da arrecadação municipal (R$ 400 milhões) vem dos 14 residenciais
e das empresas ali instalados. E Albuquerque, aos 76 anos, avisa
que não vai parar. ?Quero morrer trabalhando.?