04/10/2006 - 7:00

Palácio do planalto: À espera de um projeto que leve à expansão
O 1º de janeiro de 2007 será uma segunda-feira. Dia em que o novo presidente da República estará subindo a rampa do Palácio do Planalto para um mandato de quatro anos. Por ser uma segunda-feira, e ainda mais de um ano novo, será a data propícia para uma mudança de rota e um novo plano de vôo para o País. E essa mudança, que começa a ser decidida nas eleições presidenciais deste fim de semana, é urgente. Afinal, há mais de uma década o Brasil vem desperdiçando oportunidades. Cresce menos do que os países vizinhos, tem um desempenho sofrível na comparação com os emergentes mais dinâmicos e ? pior ? não alcança sequer o seu próprio potencial econômico. Para comprovar a tese, basta examinar alguns números. Entre 1990 e 2004, o Brasil cresceu apenas 36% ? um quarto do desempenho chileno e quase um décimo da performance chinesa. O que está por trás disso é um modelo econômico que, embora envelhecido e caduco, vem sendo adotado com fé cega há três gestões presidenciais. Um modelo que dedica ênfase total à conquista da confiança dos mercados financeiros e abandona ao segundo plano o desenvolvimento, a produção e o emprego. Por isso, o que realmente importa na atual eleição é menos o vencedor da disputa e mais a agenda econômica que terá de chegar ao Palácio. A partir de 2007, o Brasil não terá outra alternativa a não ser crescer, crescer e crescer. ?Um país como o Brasil não poderia estar avançando menos do que 6% a 7% ao ano?, lamenta, inconformado, o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional Kenneth Rogoff, hoje professor da Universidade de Harvard.
Os sinais da ruína do atual modelo econômico são visíveis por toda a parte. Na quinta-feira 28, o próprio Banco Central revisou para baixo a previsão de crescimento econômico para o Brasil em 2006. A estimativa agora é de apenas 3,5% ? 30% abaixo da média mundial e menos da metade do desempenho dos emergentes. A imagem que melhor corresponde a esse modelo é a do cachorro que corre, em vão, atrás do próprio rabo. Ao adotar a maior taxa de juros do mundo, que consome R$ 160 bilhões por ano, o País desequilibra suas finanças públicas, impõe ao setor produtivo uma carga tributária insuportável ? hoje em 40% do PIB ? e, apesar de todos os esforços e superávits primários no campo fiscal, mal equilibra sua dívida pública. Por isso, o resultado tem sido tão frustrante. No novo ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil caiu nove posições, saindo do 57º para o 68º lugar. Ficou atrás de países como México, China, Índia e Chile. Outro sinal da decadência brasileira é a perda de rentabilidade das exportações, como reflexo da valorização da taxa de câmbio. De janeiro a julho, por exemplo, o setor de calçados brasileiro deixou de exportar dez milhões de pares de sapatos. Além disso, um estudo elaborado pela Federação Industrial de São Paulo, a Fiesp, apontou que somente sete dos 31 setores exportadores ostentam perspectivas positivas para o futuro. ?A administração pública não soube fazer uma lição de casa capaz de colocar o Brasil no caminho do crescimento?, lamentou à DINHEIRO Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
O mais grave é o fato de o Brasil continuar andando a passos de cágado num dos períodos mais exuberantes da história econômica mundial. Essa bonança pode estar chegando ao fim. Todos os sinais que vêm do Exterior indicam uma diminuição do ritmo de crescimento nos Estados Unidos e uma tendência de queda nas cotações das principais commodities exportadas pelo Brasil. Por isso, estima-se que o Brasil poderá perder até US$ 11 bilhões em exportações já em 2007, se os preços voltarem aos patamares de três anos atrás. Isso agravaria ainda mais a situação da agropecuária, que já perdeu R$ 30 bilhões em dois anos e cujo PIB deverá recuar mais 2% neste ano, segundo estimativas da Confederação Nacional da Agricultura. Na indústria, a situação não é diferente. A cada ano ela perde mais e mais participação na economia e os analistas já falam que o Brasil entrou num processo de desindustrialização precoce. ?O motivo do desastre é a falta de um plano estratégico capaz de apontar o caminho do desenvolvimento?, alerta o economista Fernando Cardim, professor do Instituto de Economia da UFRJ. ?Hoje, não há um rumo claro para o País.?

Reta final: Lula fez seu último comício e não vai ao debate com Alckmin, Cristovam e Heloísa Helena
O mais grave é que, apesar da débâcle, o tema econômico praticamente passou ao largo das discussões de campanha. O presidente Lula, que não entregou seu prometido espetáculo do crescimento, apenas exaltou programas sociais, como o Bolsa-Família. Geraldo Alckmin, do PSDB, fez considerações vagas sobre um futuro choque de gestão, enquanto Heloísa Helena, do PSOL, nem sequer apresentou um programa, e Cristovam Buarque, do PDT, limitou-se ao tema da educação, cuja importância é indiscutível, mas que tem de ser parte da agenda a ser implantada. Na prática, nenhum deles apontou os caminhos para que o Brasil retome rapidamente o crescimento. Entre os economistas, um dos consensos é a necessidade de se encolher o tamanho do Estado e, ao mesmo tempo, ampliar a eficiência dos gastos públicos. Portanto, será necessário, já no início do novo mandato, implantar novas reformas nas áreas tributária e previdenciária. Outra mudança urgente diz respeito à atual política monetária. ?Com juros menores, o País conseguirá diluir a valorização do câmbio e poderá resolver o problema de falta de competitividade das exportações?, avalia Edgar Pereira, economista do Iedi, o Insituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. Diante de tantos desafios, o que se espera do próximo presidente é que ele comece a virar a página do atraso e do desenvolvimento medíocre. Mesmo que seja Lula reeleito. ![]()