19/11/2008 - 8:00
AO FINAL DE UMA HORA e meia de palestra num evento sobre sustentabilidae, na sala lotada de um hotel do centro de Manhattan, o CEO mundial da Ikea, Anders Dahlvig, decide ouvir o que os especialistas têm a dizer sobre a empresa que comanda, a maior varejista de móveis e decoração da Europa. Primeira pergunta: ?Os consumidores precisam pegar seus carros poluentes e andar por 20, 30 quilômetros para ir até uma loja do senhor. Isso não o preocupa?? Segundos de silêncio e Dahlvig não nega que isso é uma pedra no sapato da rede. ?Precisamos abrir unidades em locais de fácil acesso ao transporte público e já estamos fazendo isso.? A mais nova unidade da Ikea, inaugurada em junho ao sul do bairro do Brooklin, em Nova York, disponibiliza um barco aos clientes para o percurso até Manhattan. Cerca de 15 mil pessoas usam o ?Hook Rock Ikea Boat? todas as semanas ? e não precisam tirar seus automóveis da garagem. Para montar a loja, Dahlvig comprou uma briga feia. Os moradores do Brooklin reclamaram da obra e analistas questionaram o tamanho do investimento (acima de 40 milhões de euros, valor 50% superior ao gasto em unidades na Europa). Pode ser caro? Até pode, mas está exatamente dentro do que a Ikea quer.
A rede colocou na rua um plano de expansão de lojas sustentáveis nos EUA. E isso custa até 50% mais do que o modelo convencional. Evidentemente os resultados sofrem um forte impacto ? para baixo. Mas a Ikea nem pensa em mudar de rumo. Isso porque precisa aumentar as vendas ? e são as novas unidades que têm mantido a taxa de expansão do grupo. Seu plano é inaugurar de cinco a seis lojas por ano no solo americano. Mas pela frente há dois problemas nada desprezíveis.
Em primeiro lugar, o momento não poderia ser pior. Em 2008, a venda de casas nos EUA terá o pior desempenho dos últimos 28 anos. Se o americano não muda de lar, a Ikea vende menos. A relação é tão direta que o próprio comando da empresa anda resmungando dos resultados de suas 30 unidades espalhadas na América. Para completar, a rede precisa fazer isso gastando mais. A empresa diz que não irá alterar o projeto de abertura de lojas sustentáveis. E todas as unidades da Ikea são sustentáveis. Não se trata de colocar mais jardins de inverno internos ou usar a luz do sol como iluminação natural. Na Ikea, madeira de florestas não passa da porta. Os copos vendidos não podem ter chumbo. As lojas, armazéns, escritórios e fábricas têm 45% de energia renovável. E 71% dos produtos usados na composição de qualquer mercadoria podem ser reutilizados.
Nada disso é barato ou simples. A rede opera no azul há anos e cresce a dois dígitos. Mas para ser fornecedor da Ikea é preciso responder a uma lista com 90 perguntas sobre seus produtos. O questionário é avaliado por um dos 80 auditores independentes, que decidem se vale a pena ou não fechar negócio com a companhia. Cerca de 1,3 mil fornecedores já passaram pela peneira. Mais de 100 mil desvios foram verificados e foi solicitada mudança n forma de produção.
Quem usava PVC em qualquer mercadoria (exceto isolantes elétricos) foi barrado. O uso de freons (gás usado em geladeiras) também é proibido. Para se ter uma idéia do que essa política faz com os custos da companhia, o PVC (que, se queimado, polui o ar) baratearia a compra pela Ikea em 20%. O freon utilizado em geladeiras custa até 50% a menos no mercado. Ao optar sempre por madeira reutilizada, ela paga até cinco vezes mais. Se desembolsasse menos pelo insumo, a Ikea até poderia operar com margens de lucro maiores. Tiro no pé, então? Não, necessariamente. A Ikea negocia grandes volumes com seus fornecedores, por isso, consegue respeitar normas internas e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto no bolso.
Sem pestanejar, Dahlvig diz que vai manter tudo como está. ?O modelo não está em discussão?, disse ele à DINHEIRO. ?O planejamento de lojas sustentáveis não poderia ser mais válido do que nesses tempos de crise, visto que é possível criar lojas econômicas e corretas. Nossas exigências podem até comprometer as margens, mas estamos olhando para a frente.? Esse conceito se espalha pelas unidades em várias cidades do mundo. A mais recente loja da Ikea, aberta em Karlstad, na Suécia, é a primeira da rede aquecida com uma bomba de calor. A instalação reduz o consumo de energia em 80%, o equivalente ao consumo de 150 casas por ano. O retorno sobre o investimento, porém, só acontecerá em oito anos. A loja aberta neste ano em Wurzburg, cidade no sudoeste da Alemanha, também usa bombas de calor alimentadas por caldeiras de biocombustíveis líquidos, que exigiram investimentos de R$ 3 milhões e que trarão retorno ao investimento em sete anos. A sustentabilidade custa caro.
?O Brasil tem muito potencial para nós?
Com mais de 260 lojas e presente em 34 países, a Ikea, uma das maiores varejistas de móveis do mundo, diz que pretende entrar na América do Sul. Leia a seguir trechos da entrevista de Anders Dahlvig, CEO mundial da rede, concedida à DINHEIRO na última semana, no hotel Hyatt, em Manhattan, Nova York.
DINHEIRO ? Há rumores a respeito da entrada da Ikea no Brasil em 2009. Isso é possível?
ANDERS DAHLVIG ? No momento, não estamos com um projeto preparado para entrada no Brasil, mas deveremos ter operações na América do Sul. Nós temos pleno entendimento de como o mercado consumidor brasileiro tem potencial e de como o País está crescendo nos últimos anos. Mas não há nada fechado.
DINHEIRO ? O que impede o investimento?
DAHLVIG ? Temos um plano de expansão nos Estados Unidos e também definimos planos de atuação cada vez mais forte na China, mercado onde já estamos. Ainda há muito o que fazer.
DINHEIRO ? Como a crise financeira atinge a rede?
DAHLVIG ? Nós estamos sendo afetados negativamente, mas em geral isso pode até ser bom para a rede. Temos um modelo vencedor, crescemos muito nos últimos anos e estamos em melhores condições de enfrentar a crise do que nossos concorrentes.