16/06/2001 - 7:00
A pequena Helena já veio ao mundo para reinar absoluta. Como todos os pais de primeira viagem, Geraldo e Samira ainda têm muitas dúvidas a respeito da criação da filha, de apenas seis meses de vida. Mas há uma certeza: ela não terá irmãos. ?Queremos dar tudo do bom e do melhor e não vai custar pouco.Com mais um filho, acho que não seria possível?, explica Geraldo Guimarães Prado, diretor de marketing da Electronics Arts. Helena não está sozinha. A garota faz parte de uma legião de filhos únicos que vai ocupar o mundo neste século 21. Atualmente, há 20 milhões de crianças sem irmãos nos Estados Unidos. Segundo o censo americano, as famílias com apenas um filho são as que mais crescem, saltando de 9,6% em 1976 para mais de 17% em 1999. No Brasil, a média atual é de 1,3 filho por família, segundo o IBGE. Há 40 anos, girava em torno dos 6,3. O principal argumento desses pais é o financeiro. Após algumas contas de cabeça, eles chegam a conclusão de que vão gastar menos com um único filho. A má notícia: em muitos casos, um filho pode custar mais que dois. Adote as tradicionais lições administrativas e você vai descobrir o porquê. A básica: economia de escala. Toda aquela parafernália (berço, carrinho, cadeirão etc.) que foi adquirida para o primeiro filho será herdada pelo segundo.
O orçamento de Geraldo e Samira, por exemplo, teve um acréscimo de 25% com a chegada de Helena. Boa parte desse investimento poderia ser ?amortizado? com o hipotético segundo filho, que acabaria usando as mesmas coisas. Há outra questão importante: com dois ou mais filhos, o casal pensa bem mais antes de ter rompantes consumistas. A tentação é maior quando há um filho só. ?Boa parte dos pais tenta suprir com presentes a falta de atenção e de tempo para com o filho?, afirma a educadora financeira Cássia D?Aquino. O risco é criar um cenário irreal, onde tudo será fácil de conseguir. Claro, ninguém quer isso para o filho. O difícil é resistir na frente da loja de brinquedos. Muitas vezes, os pais perdem o controle e acabam extrapolando nas compras para o herdeiro. O pai de Helena, Geraldo Prado, concorda. ?Acho provável que isso aconteça de vez em quando?, admite. Assim como a maioria dos casais atuais, ele e a mulher trabalham. Ou seja, cada um tem a sua renda. ?Já aconteceu de eu e minha mulher comprarmos uma mesma coisa para a Helena, pois não havíamos combinado antes?, diz ele.
Apesar desse pequeno deslize, a vida de Helena está sendo muito bem planejada. ?Estou me preparando para que ela possa ter uma formação básica para os dias de hoje?, conta Geraldo. A formação básica de Helena será a seguinte: vai falar três idiomas, irá fazer um MBA no exterior e ainda será uma boa atleta. Ainda este ano, ela entra na natação e começa a freqüentar uma escola de música para bebês. ?Vou precisar de muito fôlego para fazer tudo isso, pois não deixa de ser um investimento a fundo perdido?, admite.
De fato, se pensar na família como se fosse uma empresa, o risco de focar em apenas um produto é grande. À medida que se tem mais filhos, aumenta-se geometricamente as chances do retorno desse investimento. Quando? Na hora em que você deixar de ser economicamente ativo. Essa é uma questão que não pode ser desconsiderada. Com a falência do sistema previdenciário, cada vez mais as famílias dependem da renda que seus rebentos vão trazer para dentro de casa. No Brasil, mais da metade dos membros da terceira idade é totalmente bancada pelos filhos. Sem irmãos para dividir a conta, isso pode ficar bem pesado.
Se nenhum desses argumentos mudou os seus planos, tente ao menos seguir algumas regras para não mimar demais a criança. Os presentes, por exemplo, devem ter data marcada, que não necessariamente precisa ser as convencionais tipo Natal. ?Pode ser uma lembrancinha todo final de mês. Mas não deve ser condicionado a resultados como tirar notas boas na escola?, ensina Cássia. Ela defende a mesada, principalmente para os filhos únicos. Deve equivaler, mais ou menos, a R$ 1,00 por semana e por ano de vida. Exemplo: 5 anos, R$ 5 por semana. E nada mais.