Desta vez o petardo que atingiu o governo mostrou que, na prática, ninguém se entende na economia. Titular da pasta do Desenvolvimento e do Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan foi a Hong Kong para uma reunião da Organização Mundial de Comércio e, de lá, fez um desabafo que ampliou a discórdia. ?Há uma sensação de desânimo?, apontou Furlan na noite da segunda-feira 12. ?O governo não traça cenários e objetivos nem estabelece meios para atingi-los?. O presidente Lula foi o primeiro a perceber que o ministro do Desenvolvimento havia aberto mais uma crise em seu governo. ?Mas o Furlan disse isso??, indagou o presidente ao assessor que levou-lhe, na manhã da terça 13, a declaração do ministro. ?Como é que ele me apronta uma dessas, meu Deus!?. Outro empresário que faz parte do governo, o vice-presidente José Alencar, assinou embaixo as palavras do ministro. ?Há uma conscientização nacional sobre isso?, afirmou Alencar. ?Mas eu comecei a falar antes. Avisei!?.

Atende pelo nome de Antônio Palocci o principal motivo para o desabafo de Furlan. Mentor da MP do Bem 2, capaz de desonerar as empresas em R$ 3 bilhões em impostos, Furlan não conta com a aprovação da Fazenda para seus planos. ?Há sempre uma reação defensiva, na Fazenda e, principalmente, na Receita?, conta o empresário Armando Monteiro, presidente da CNI. Neste pacote, Furlan quer tratar de desonerações na cesta de alimentos e na construção civil, além da redução do spread em operações de financiamento ao investimento. O que ele não consegue engolir é porque suas iniciativas nem sequer merecem uma reflexão mais profunda de Palocci e sua equipe. ?Sem sinalizações para o crescimento, o governo perde e a iniciativa e fica esperando que o mercado demarque o caminho?, tem dito Furlan a seus assessores de confiança. ?A China cresceu nos últimos dez anos a taxas anuais de 10 por cento ? acentua o ministro nos diálogos com seus auxiliares ? porque instituiu metas de crescimento?. Nessas conversas, Furlan diz que um índice próximo a 2% de variação positiva do PIB a cada ano já seria um avanço para a política econômica. ?É o mínimo que poderíamos esperar do Brasil?, completa ele a seus auxiliares.

Por mais que o governo tenha tentado minimizar as declarações de Furlan ? Palocci chegou a afirmar, com forte ironia, que iria telefonar para o ministro e pedir que não perdesse o ânimo ?, o fato é que colegas da Esplanada têm endossado a desilusão quanto ao rumo do governo. ?Não é incomum que ele esteja se sentindo dessa forma?, disse à DINHEIRO um ministro da área social. ?Com o empresariado reclamando, os juros nas alturas, o câmbio lá embaixo e o retrocesso do PIB, ele está se sentindo isolado dentro do governo?. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, é outro insatisfeito que vai procurando se preservar de críticas públicas. Ele já confidenciou a amigos que gostaria de ter liberado todo o investimento previsto para este ano ? e são R$ 3 bilhões. ?Está tudo atrasado?, desabafa o ministro. ?Não consigo entender até agora porque não gastamos o que já está liberado?.

No Ministério da Fazenda, naturalmente, a dura declaração de Furlan foi recebida surpresa. Lá, comenta-se que os ataques à política econômica desferidos nas últimas semanas pela ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, eram abastecidos por Furlan. ?Ele nunca fez questão de esconder que estava feliz pela posição tomada por Dilma?, afirmou um assessor da Fazenda. ?Como ele não tem experiência política nem trâmite dentro do PT, acabou usando a ministra como válvula de escape para as suas críticas?.

No empresariado, a sensação diante das palavras de Furlan foi de forra. ?O governo realmente está andando em marcha lenta. Os programas são capengas e não vemos, no curto prazo, uma posição oficial para mudar esse quadro?, afirmou o presidente da Fiesp, Paulo Skaff. E é justamente na Fiesp, na qual Furlan foi diretor, que é possível encontrar explicações mais sobre o arroubo do ministro. ?Ele está cansado da lentidão da máquina governamental?, afirma um diretor que conviveu com ele de perto. ?Qualquer idéia que brote da cabeça dele ? e garanto que são muitas ? tem de ser ratificada por dezenas de pessoas. Ele não quer mais isso?.

R$ 3 bilhões é o volume de desoneração em impostos que a MP do Bem 2 poderia proporcionar às empresas