05/01/2005 - 8:00
Elas são as calouras da turma. Juntaram-se às veteranas da Bovespa há menos de um ano e, aplicadas nas lições de casa de governança corporativa, já estão entre as melhores alunas da classe. Da Natura, em maio, à Porto Seguro, em novembro, sete companhias de diferentes setores acrescentaram o sufixo S.A. a suas razões sociais em 2004, abrindo seu capital à participação de terceiros. Todas elas, ainda que em diferentes medidas, lucraram com a emissão de ações e mantêm seus papéis valorizados desde que entraram no pregão.
O principal caso de sucesso é o da Natura. Além de ter puxado a fila, quebrando dois anos de jejum de lançamentos no mercado, a empresa atingiu 120,7% de valorização de maio a dezembro, período em que o Ibovespa registrou alta de 38,7%. Outra boa aluna entre as calouras, a Gol chegou ao mercado em junho e acumulou alta de 58,1% até o último mês do ano, batendo o Ibovespa, que subiu 25,6%% no período. Nem todas as novatas, porém, tiraram notas tão boas. A CPFL Energia, lançada no fim de setembro, não foi além de 11,6% em três meses de pregão ? período em que o Ibovespa avançou 12,6%. Somadas, as sete novas empresas já respondem por mais de 2,5% do volume financeiro movimentado no mercado à vista da Bolsa (R$ 25,5 bilhões em dezembro).
O que se vê no momento é o maior movimento de abertura de capital de empresas no País desde 1986 ? e bem mais saudável do que aquele. Em vez de empresários em busca de dinheiro fácil em um mercado de capitais turbinado pelo Plano Cruzado, o que se observou em 2004 foram empreendedores dispostos a conquistar a confiança do investidor com a bandeira do tratamento respeitoso ao acionista minoritário. Cinco dos sete novos registros na Bovespa se deram no chamado Novo Mercado. Ali, só se negociam ações com direito a voto e, se houver uma oferta de compra para os acionistas controladores, ela tem de ser estendida aos minoritários nas mesmas condições.
O processo de aberturas de capital significa também a chegada de novos setores (cosméticos, logística e saúde) à Bolsa. ?Foi muito importante sobretudo a abertura da Diagnósticos da América (Dasa)?, avalia Alexandre Atherino, diretor da Fator Corretora. ?Esta área de cuidados com a saúde é um sucesso fantástico nos Estados Unidos. É provável que muito médico tenha entrado na Bolsa ou pense em entrar por causa da Dasa?, diz Atherino. Esta é a idéia. Novas empresas e novos investidores ampliam o universo da Bolsa. E isto é meio caminho andado para uma forte diminuição da volatilidade (altas e baixas abruptas) e para o crescimento do mercado. Mas atenção: corretores atentos avaliam que há muita empresa veterana na Bolsa com fundamentos bem superiores aos das novatas, mas valendo menos do que elas. As estreantes, diz um deles, surfam uma onda que mistura novidade com promessa de boa governança corporativa. ?Os gringos (investidores estrangeiros) adoram, mas em algum momento elas vão ter que trocar boa vontade por performance. E nem todas vão conseguir.?