30/07/2009 - 7:00

Karim Rashid: “Está na hora de o Brasil assumir um papel proativo no
cenário do design internacional”

O designer egípcio Karim Rashid, 49 anos, já realizou mais de três mil trabalhos e recebeu cerca de 300 prêmios, como o Red Dot Award, uma espécie de Nobel do design. Os objetos de sua autoria são tão desejados que alguns deles fazem parte dos acervos de 20 museus, entre eles o MoMA, de Nova York, e o Centre Pompidou, de Paris. Mas possuir um produto de sua autoria não é um sonho tão distante assim. É que, mais do que um artista global, Rashid tornou-se o queridinho das empresas. De acessórios para a produtora de champanhe Veuve Clicquot a sapatos para a brasileira Melissa, de cadeiras para a italiana Casamania a torneiras para a fabricante Cisal, de jogos de chá para a turca Gaia & Gino a cartões de débito para o Citibank, seus traços são vistos nos produtos mais distintos. E ele desembarca no Brasil, dia 3 de agosto, com a bagagem recheada de novos projetos. “Vou mostrar meu trabalho na exposição Blobular World, na Galeria Luisa Strina, em São Paulo, e dar uma palestra na Escola São Paulo”, antecipou à DINHEIRO Rashid, que negocia sua colaboração com outras marcas brasileiras. “Estou trabalhando em diversos projetos.”
Para as empresas que se associam a ele, vender um produto com sua assinatura parece trazer bons resultados. “Ainda não temos os números exatos, pois inauguramos em fevereiro deste ano, mas temos certeza de que Rashid trouxe muito mais visibilidade ao nosso hotel”, disse à DINHEIRO Marco Nussbaum, diretor administrativo do Prizeotel, em Bremen, na Alemanha, referindo-se ao projeto que contou com a decoração de Rashid. O Brasil não ficou de fora desse movimento que Rashid gosta de chamar de democratização do design. A Grendene, dona da grife Melissa, famosa por suas sandálias de plástico, soube aproveitar. “No Exterior, o nome dele agregou muito. Rashid teve um papel fundamental, pois reforçou nossa estratégia de internacionalização da marca”, disse Paulo Pedó, gerente de operações da grife. Ele conta que desde o começo da colaboração de Rashid, em 2005, mais de 100 mil pares (de quatro modelos diferentes) foram vendidos. O contrato é bom para ambos. Afinal, Rashid recebe royalties sobre cada calçado vendido. “Neste ano foram relançadas as sandálias High, criadas por ele, porque as consumidoras estavam pedindo que o modelo voltasse às lojas”, comemora Pedó.
Se para uma marca mais popular o efeito Karim Rashid já é impactante, para grifes de nicho, ele é ainda maior. Em 2006, a Method, marca americana de produtos de limpeza domésticos, sentiu dificuldade de entrar num mercado dominado por gigantes como a multinacional P&G. Para se diferenciar, os executivos tiveram uma ideia arriscada para um setor no qual a funcionalidade é a alma do negócio. Eles contrataram Rashid para desenhar as embalagens de seus produtos. Em um ano, o faturamento da companhia dobrou para US$ 71 milhões e a imagem de detergentes e desinfetantes com suas linhas arredondadas e cores fortes ganhou o mundo, tornando-se um dos casos de maior sucesso do designer. “A Method é um bom exemplo de como marcas pequenas têm que lançar mão de recursos diferenciados para ganhar competitividade e se destacar. Eles apostaram no design, conquistaram publicidade espontânea e focaram no público de nicho que queriam atingir”, explica Beto Almeida, diretor de criação da consultoria de marcas Interbrand.

“As grifes que procuram o designer também seguem uma tendência de mercado: a visão multicultural. Elas conquistam o consumidor pelo seu estilo de vida e ampliam a oferta de produtos para atingi-lo em várias áreas. Com a parceria com o designer, acabam ganhando os clientes que apreciam seu trabalho e consomem sem problemas cadeiras, lixeiras, mesas, torneiras e sandálias criadas por ele”, conclui Almeida. O estilo de Rashid é facilmente reconhecido e repleto de linhas curvas, superfícies lisas e agradáveis ao toque. Ele também é adepto de cores fortes, com predominância do rosa seu tom preferido. É essa imagem lúdica que conquista tantos admiradores e que inspira o artista. “Eu gostaria de viver num universo suave, amigável e flexível”, diz Rashid. Além da beleza de sua linguagem, é certo que contar com a participação do artista – de hábitos exóticos, como o de se vestir de cor-de-rosa dos pés à cabeça – resulta em benefícios para as marcas, mas quanto custa usufruir desse designer estrelado e de tudo o que ele representa? Ele não divulga, mas acredita-se que seus honorários comecem na casa dos US$ 30 mil, sem contar os custos de produção, matériaprima e marketing.,
“O Brasil é um incrível epicentro para cultura, arte e design”
Antes de sua vinda ao País, Rashid falou à DINHEIRO sobre seu apartamento, seus projetos e o design brasileiro. Confira:
Dinheiro – Qual foi o primeiro objeto que o sr. desenhou em sua vida?
Rashid – Foram telefones com PABX para a Mitel, do Canadá, no começo da década de 1980.
Dinheiro – Para quais outras áreas o sr. ainda gostaria de desenhar?
Rashid – Muitas áreas. Para começar, automóveis, barcos e habitação, com a preocupação de tratá-los de forma mais democrática.
Dinheiro – Em seu apartamento há somente objetos desenhados por Karim Rashid?
Rashid – Vivo no oitavo andar de um loft em Chelsea, Nova York, com minha esposa, Ivana. Fui eu que projetei e desenhei todo o espaço. Criei uma galeria inteiramente branca, com piso rosa em epóxi emborrachado e toques de prateado nas paredes. Posso dizer que 90% dos objetos do meu apartamento são fruto de desenhos meus para clientes como Umbra, Galerkin, Edra, Kovacs, Idee.
Dinheiro – Que impressão o sr. tem do Brasil?
Rashid – O Brasil é um incrível epicentro para cultura, arte e design. O País deseja design e tem beleza e contemporaneidade por todos os lados. Está na hora de o Brasil assumir um papel proativo no cenário do design internacional. Além disso, estou trabalhando em vários projetos no Brasil, mas eles ainda são confidenciais.