28/12/2005 - 8:00
Existem empresas que parecem ser imunes a crises, tal seu gigantismo. Ninguém poderia imaginar que GM e Ford, os dois maiores ícones da indústria automobilística mundial, passariam sufoco em 2005 ? com perspectivas nada animadoras para 2006. Maior montadora de veículos do mundo, a GM amargou perdas de quase US$ 4 bilhões, enquanto a Ford registrou o primeiro prejuízo trimestral em dois anos, de US$ 1,3 bilhão. Em reação à crise, a GM anunciou a demissão de 30 mil funcionários e o fechamento de 12 fábricas até 2008 nos EUA. A Ford se desfez de ativos, como a locadora de carros Hertz, e demitiu quase três mil funcionários. Na raiz do problema estão os elevados custos médicos e com aposentadoria, que no caso da GM comprometeu US$ 5 bilhões da sua receita em 2005 e, no da Ford, outros US$ 3,5 bilhões. Ambas também perderam bastante mercado para montadoras japonesas. E viram a situação se complicar ainda mais quando o preço do petróleo estourou, diminuindo a demanda por picapes e utilitários esportivos ? conhecidos ?beberrões? de combustível. Com isso, perderam o seu gerador de caixa, os carrões que respondem pela grande margem de lucro das fabricantes.
A crise das montadoras americanas vem de longe. Nos anos 70, quando os japoneses chegaram ao mercado com carros baratos, as empresas americanas tiveram que reestruturar a gestão para se tornar competitivas. Demitiram muita gente, fecharam acordos para lá de vantajosos para os seus funcionários e deram descontos impressionantes nos automóveis, que nunca mais puderam voltar ao preço normal. Esqueceram-se de que um dia a conta chegaria. Ao chegar a esse ponto, a única saída foi a negociação. A Ford tenta se entender com a United Auto Workers, o principal sindicato de trabalhadores do setor, para economizar anualmente mais de US$ 1 bilhão em assistência médica. A GM também conversa com a entidade sobre a redução do valor do benefício dos trabalhadores.
Ao lado da questão dos custos trabalhistas, GM e Ford têm outro grande obstáculo pela frente: os asiáticos. Para se ter uma idéia da ofensiva oriental, há sete anos Ford, GM e Chrysler tinham juntas 70% do mercado mundial de automóveis contra 30% das concorrentes japonesas. Hoje, a participação das americanas caiu para 58%. A Toyota é a maior ameaça. A montadora japonesa passou a Ford em vendas, assumiu a vice-liderança no ranking mundial da categoria e está a um passo de ultrapassar a GM, a número um do setor. ?Há mais de 20 anos que a Toyota já é líder em qualidade e rentabilidade, deve assumir a dianteira em vendas em um ano e meio no máximo?, diz José Roberto Ferro, presidente do Lean Institute, consultoria da área automobilística. A empresa aprendeu a fazer os carros enormes, ao gosto dos americanos, e já abriu seis unidades nos EUA, onde oferece preços e acessórios competitivos, além da qualidade de um carro ?que não quebra?, o que agrada aos consumidores. Sem contar com o fato de que embora a Toyota garanta assistência médica aos seus trabalhadores, o custo com aposentados é bancado pelo governo japonês, um alívio para as contas da empresa. E um tormento para os concorrentes americanos.