O primeiro abraço de Antônio Carlos Magalhães após renunciar ao Senado, em junho, foi no embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima. Por alguns dias, ele e sua esposa Lúcia trocaram a Piazza Navona, em Roma, para prestar solidariedade, em Brasília, a um amigo de décadas. Foi a senha para que o presidente Fernando Henrique começasse a pensar em outro nome para a embaixada italiana. A notícia de sua remoção veio na sexta-feira, 27, em um telegrama do próprio presidente ao embaixador, que, dentro de dois meses, será substituído pelo atual secretário
de Comunicação do governo, Andrea Matarazzo. Com a troca de comando no luxuoso Palazzo Pamphilli, chega ao fim a era do mais poderoso e polêmico diplomata brasileiro dos últimos trinta anos. Assim como o Barão do Rio Branco, no início do século, e Oswaldo Aranha, no Pós-Guerra, Flecha de Lima marcou época. No
Itamaraty, ele estruturou o Departamento de Promoção Comercial
e, com seu estilo ?trator?, inspirou lealdade absoluta entre os
aliados e ódios profundos entre os inimigos. Embora tenha
sido um empreendedor em um terreno dominado por intelectuais,
seu fim de carreira não poderia ser mais melancólico. Com as seqüelas de um derrame sofrido em 1996 e em depressão há
quase um ano, desde a morte de Paulinho, o filho a quem mais amava, Flecha de Lima ficou abaladíssimo com a forma de seu desligamento. O embaixador jamais esperava ser removido
por força de acomodações políticas do governo. Na última vez
em que esteve no Brasil, pediu uma audiência com o presidente,
mas sequer teve a chance de uma última conversa. Interlocutores próximos a ACM dizem que o desligamento foi um ato vingativo do presidente e avisam: o senador baiano dará o troco.

?O Paulo Tarso Flecha de Lima sempre foi leal aos seus amigos?, diz Wolfgang Sauer, empresário que presidiu a Volkswagen e foi muito ligado ao embaixador. Na década de 70, quando o Brasil passou a sofrer os efeitos dos choques do petróleo, Flecha de Lima estruturou negócios que vinculavam a importação de petróleo pela Petrobras a exportações de empresas brasileiras. Como o Brasil não tinha divisas, o negócio veio a calhar. A Volks, por exemplo, exportou 170 mil Passats ao Iraque, que já era governado por Saddam Hussein, e faturou US$ 1,7 bilhão. ?Antes do Paulo Tarso, o Brasil era um país conhecido lá fora só pelo samba, pelo futebol e pelas exportações de café?, diz Sauer. Não foi um caso isolado.

A Sadia, uma empresa que só no primeiro semestre deste ano exportou US$ 300 milhões, começou a descobrir o mercado internacional também pelas mãos do embaixador. ?Ele foi o nosso professor?, diz Luiz Fernando Furlan, presidente da empresa. Os primeiros negócios foram feitos em 1975, no Oriente Médio, ehoje a Sadia está presente em 60 países. ?Ele sempre fez uma diplomacia de resultados?, diz Furlan. Foi por esse perfil que o banqueiro Olavo Setúbal, chanceler no primeiro ano do governo Sarney, o escolheu para ser secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores. ?Eu achava que o Itamaraty deveria deixar de lado o que os diplomatas chamavam de grande política, ligada ao período militar, e abraçar a pequena política, que é a econômica?, diz Setúbal.

O trânsito que Flecha de Lima construiu com empresários e entre os países árabes também foi muito importante alguns anos mais tarde, quando eclodiu a Guerra do Golfo, em 1990 ? o governo Collor determinou a saída de todos os brasileiros que viviam no Iraque, mas 350 pessoas que trabalhavam para a Mendes Júnior ficaram retidas. Flecha de Lima, que era embaixador em Londres, embarcou para Bagdá, juntamente com sua esposa Lúcia, quando diplomatas de todo o mundo tentavam fugir do Oriente Médio. ?A presença dos dois foi muito importante para tranqüilizar os que ainda estavam como reféns?, diz Murillo Mendes, dono da construtora. Assim que chegou a Bagdá, a primeira providência de Lúcia foi comprar um carneiro para oferecer um jantar às autoridades iraquianas. Dois meses depois, todos os brasileiros estavam liberados, mas Lúcia ficou magoada por não ter sido condecorada, como foi seu marido.
Esse episódio ilustra bem sua personalidade. Amiga íntima
da falecida princesa Diana, Lúcia teve mais presença pública
do que qualquer outra embaixatriz.

Só que a postura imperial do casal também teve conseqüências negativas. Não foram poucos os diplomatas que aceitaram
convites para trabalhar com a dupla e, depois, arrependeram-se amargamente. Ambos também se desgastaram com as acusações
de desvios na Fundação Visconde Cabo Frio, órgão que cuidava
dos seguros dos diplomatas no exterior. Os inquéritos acabaram sendo arquivados e os inimigos insinuam que isso ocorreu
por ordem do amigo de todas as horas, Antônio Carlos Magalhães. Essa nódoa também impediu que Flecha de Lima alcançasse seu maior sonho: o posto de chanceler. ?Mas mesmo sem chegar lá,
foi ele quem mandou no Itamaraty por muito tempo?, diz um alto funcionário da casa.

Ao deixar o Brasil, para servir nas principais embaixadas, de Londres, Washington e Roma, Flecha de Lima deixou sua marca. Quando assumiu o posto nos Estados Unidos, sequer era recebido por Mickey Kantor, representante de comércio americano. O embaixador telefonou para vários senadores de Estados que mantinham negócios com o Brasil e disse que a postura de Kantor traria prejuízos aos Estados Unidos. Pouco depois, era recebido com honras por Bill Clinton. Mais tarde, em meados de 1998, no auge da briga em torno da lei brasileira de patentes, delegações dos dois países sentaram-se para negociar. De um lado da mesa estava Flecha de Lima. Do outro, a poderosa Charlene Barshefsky. Na acalorada discussão que se seguiu, a secretária ironicamente usou a palavra ?pirataria?. O diplomata não pensou duas vezes para contra-atacar: ?Vamos continuar nos tratando como gentleman ou, a partir de agora,
iremos agir como realmente somos??.

Depois de tantas brigas, na terça-feira, 31, o embaixador telefonou a um velho amigo da carreira em Brasília. Contou que pretende retornar ao Brasil até outubro. Aos 68 anos, ele não está disposto a passar os dias numa cadeira de balanço na sua chácara no Lago Sul ou na fazenda de 10 mil hectares que possui no noroeste de Minas Gerais. ?Volto para Brasília, mas vou continuar produzindo?, disse. Ainda não decidiu, porém, se vai abrir uma consultoria internacional ou assessorar grupos privados.

MATARAZZO, O SUCESSOR

Horas antes de sua indicação para o cargo de embaixador do Brasil em Roma, na noite da quinta-feira 2, o secretário de Comunicação Social de Governo, Andrea Matarazzo, repelia o assunto. Ele queria muito a nomeação, mas temia que qualquer ruído pudesse atrapalhar a mudança. ?Ainda demoro um pouco para sair?, disse ele a DINHEIRO já com a nomeação confirmada pelo Planalto, na sexta, 3. ?Falta a sabatina no Senado.?

A ida para Roma, que Matarazzo vê como ?um prêmio para uma família italiana com 100 anos de Brasil?, deixa em aberto um dos postos mais cobiçados e estratégicos do governo. A Secretaria de Comunicação Social tem orçamento modesto, de R$ 3 milhões este ano, mas dá a palavra final sobre toda a propaganda oficial. Os gastos anuais do governo e das estatais em publicidade giram em torno de R$ 500 milhões. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, é o mais cotado para o cargo. ?Esse é craque?, comenta-se entre auxiliares diretos de Fernando Henrique. Jungmann é considerado veloz, corajoso e criativo. Mesmo quem poderia estar reclamando saiu satisfeito com a mudança. Matarazzo tem ligações políticas com o ministro da Saúde, José Serra. À primeira vista, o gesto de tirá-lo do Brasil foi visto como um sinal contra a candidatura de Serra à Presidência, mas há outras interpretações. ?Quando precisarmos do Andrea, ele volta?, diz um auxiliar do ministro da Saúde. Com largo trânsito entre empresários, Matarazzo atuou na arrecadação de recursos para a campanha de reeleição de Fernando Henrique e pode exercer o mesmo papel se Serra for o candidato em 2002.