28/10/2009 - 8:00

“A Cemig é um exemplo de estatal bem administrada” Aécio Neves, governador de Minas Gerais
Avenida Barbacena, 1.200, centro de Belo Horizonte, sede da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Entre os mineiros, o endereço é tão popular quanto doce de leite e pão de queijo. Mas pode ser que, muito em breve, este também seja o principal centro de comando do setor elétrico brasileiro. Tudo depende do andamento de um plano que, mineiramente, tem sido conduzido pelo governador Aécio Neves.
O objetivo é fazer da Cemig a maior empresa de energia do País. Ela já comprou a Terna, uma distribuidora que atua em 11 Estados do País, finaliza a aquisição da Light, que fornece eletricidade ao Rio de Janeiro, e desenha uma proposta pela espanhola Endesa, dona da Coelce e da Ampla, que estão no Ceará e no interior fluminense.
“Onde houver boas oportunidades, vamos comprar”, disse à DINHEIRO o governador Aécio Neves. “Temos dinheiro em caixa e estamos, sim, em busca da liderança”, confirmou o presidente da companhia, Djalma Bastos de Morais, em sua ampla sala no 18º andar. Com essas aquisições, a Cemig, que hoje tem um valor de mercado de R$ 16 bilhões, superaria a própria Eletrobrás, valendo mais de R$ 32 bilhões (leia gráfico na próxima pág.).
Que Minas Gerais tenha uma das maiores empresas de energia do País, é até natural. Apelidado como a “caixa d’água” do Brasil, o Estado sempre foi a principal base das hidrelétricas nacionais – não só da Cemig, como também de empresas federais como Furnas. Mas o expansionismo de Aécio também atende a uma finalidade política.
Postulante à vaga do PSDB na disputa presidencial de 2010, ele tem construído um novo discurso: o de “Estado capaz”. Seria uma contraposição ao Estado forte do PT, tido por muitos como intervencionista, e também ao Estado mínimo, que marcou o período governado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
“A Cemig é a prova de que uma estatal pode ser bem administrada”, insiste Aécio. Não custa lembrar que, em 2006, um dos fatores determinantes para a derrota de Geraldo Alckmin foi sua tibieza em defender as privatizações tucanas. E Aécio quer se consolidar como um tucano que abraça a ideia de desenvolvimentismo. “A Cemig está para Aécio assim como a Petrobras está para Lula”, avalia o cientista político Wladimir Nunes Coelho, da UFMG.
De fato, nos corredores da Cemig, a empresa é tratada pelos executivos e diretores como uma míni-Petrobras. E a companhia também tem arriscado algumas tacadas no setor de óleo e gás.

“Temos dinheiro em caixa e estamos, sim, em busca da liderança”
Djalma Morais, presidente da Cemig
A empresa mineira arrematou, no final do ano passado, dez lotes para a exploração de gás no leilão da ANP. A prospecção começará por meio da Gasmig, empresa de gás em que é sócia da Petrobras, dona de uma fatia de 40%. A ousadia na diversificação dos negócios deu à Cemig 17% de participação no mercado nacional de transmissão de energia, 13% em distribuição e 8% em geração.
No mercado de gás, a Gasmig tem 4%. Sob a ordem de Aécio e com apoio do BNDES, a Cemig também desembarcou no Chile, elevando a empresa ao status de multinacional. Com isso, de 2003 até hoje, o valor de mercado da companhia subiu 220%.
A estratégia de Aécio também surpreendeu muitos analistas. Em 1995, quando Minas era governada pelo PSDB, na gestão de Eduardo Azeredo, decidiuse vender 33% das ações de controle da companhia para um bloco de sócios estratégicos, liderados pela americana AES. O valor, de R$ 1,1 bilhão, foi parcelado em dez anos, com financiamento do BNDES, e a Cemig pôde não só ampliar o percentual de dividendos distribuídos aos sócios, como também antecipar o pagamento.
Para completar, estes investidores também passaram a ter poder de veto em todos os negócios relevantes da companhia. Foi uma operação tão polêmica que acabou se tornando símbolo daquilo que se convencionou chamar de “privataria”. Esse quadro mudou em 1998, quando Itamar Franco venceu a disputa para o Palácio da Liberdade e tomou posse prometendo rever o contrato da Cemig. Ele não apenas venceu a parada, retomando o controle, como praticamente expulsou a AES de Minas – e a empresa norte-americana acabou se tornando inadimplente no BNDES.
Em 2003, quando Aécio Neves assumiu, ele referendou todas as decisões tomadas por Itamar e foi além, ao dar impulso às aquisições da companhia. Cheia de dinheiro, a Cemig aproveitou oportunidades que surgiram na crise e só no ano passado desembolsou R$ 4,3 bilhões em aquisições. “Podiam até nos chamar de doidos, mas acabamos comprando barato ativos que estavam muito depreciados”, avalia o presidente Djalma Morais.
E esse fôlego financeiro tem sido decorrência de um acordo proposto por Aécio. O governador fechou com os acionistas um pacto pelo crescimento. Sob chuva ou sol, 50% do lucro deve se reverter em investimentos – antes, o percentual era de 25%.
Se é fato que Aécio é o personagem principal na arrancada da Cemig, também é ponto pacífico que a estatal é peça-chave para o futuro do líder tucano. Indiscutivelmente, a possível caminhada de Aécio ao Palácio do Planalto passa pela avenida Barbacena, 1.200.
