Os quarentões (e trintões, também) se lembram do desenho animado Tom e Jerry, os simpáticos gato e rato que viviam às turras para cima e para baixo.

Eram inimigos, mas um não poderia existir sem o outro. Na vida real, a indústria automotiva observa uma reedição involuntária da dupla Tom e Jerry. De um lado, a italiana Magneti Marelli. De outro, a alemã Bosch.

As gigantes de autopeças tornaram-se rivais desde que a tecnologia flex, que permite ao veículo rodar com mais de um combustível, chegou ao grande público em 2003. De lá para cá, Bosch e Marelli disputam a liderança das sucessivas melhorias pelas quais a tecnologia vem passando. O esforço de ambas em conquistar essa posição pode ser explicado pelo seguinte: em apenas cinco anos, a participação de carros flex nas vendas da indústria saltou de 3,7% para 85,2%, ou de 48,2 mil unidades para 1,6 milhão até outubro deste ano. É por esse mercado bilionário que as duas se digladiam.

O mais recente round nessa concorrência aconteceu na semana passada. Com uma diferença de dois dias, as empresas apresentaram seus inéditos sistemas de partida a frio para os veículos bicombustíveis. Para o consumidor, o nome pomposo significa o fim do tanquinho de gasolina que fica sob o capô e que precisa ser abastecido de quando em quando para acionar o motor em dias frios. Para as montadoras, o sistema significa redução de custos. Afinal é menos um componente na montagem de mais de 1,5 milhão de veículos, além de uma redução estimada em 35% nas emissões de hidrocarbonetos. Marelli e Bosch garantem que os primeiros veículos com o sistema chegam ao mercado no ano que vem. Nenhuma, no entanto, anunciou assinatura de contrato com uma montadora. A primeira que o fizer, o fará com pompa e circunstância. Assim acontece desde 2003, assim aconteceu na semana passada e assim continuará a acontecer. A Bosch, por exemplo, garante que foi a primeira a desenvolver o sistema bicombustível no início da década de 90. A Marelli, no entanto, orgulhase em afirmar que foi a pioneira no lançamento comercial do sistema com a comercialização do Gol 1.0 Total Flex.

O melhor é que as duas continuam a investir em pesquisas para melhorar o seu próprio sistema e superar a concorrência. Na Marelli, o desenvolvimento de tecnologias de combustíveis alternativos consome mais de 9 milhões de euros por ano e a dedicação de 120 engenheiros. ?Temos uma estrutura dedicada que nos permite vanguarda na tecnologia?, diz à DINHEIRO Silvério Bonfiglioli, presidente da empresa no Brasil. Já na Bosch, os investimentos na geração flex ultrapassam R$ 1 bilhão desde 2003. Graças a isso, o sistema bicombustível evoluiu para multicombustível com a possibilidade de funcionar com álcool, gasolina ou GNV (Gás Natural Veicular). ?Naquela época enfrentamos uma questão semântica com nosso concorrente, que alardeou ter inventado o sistema tetrafuel, enquanto o nosso já o era há muito tempo?, diz Besaliel Botelho, vice-presidente da Bosch. Ele se refere à Marelli, que fez um grande lançamento para divulgar que seu sistema tornaria os veículos capazes de rodar com álcool, gasolina brasileira, gasolina pura (usada no Mercosul) e GNV. As provocações existem, mas elas têm ajudado o Brasil a firmar sua liderança no desenvolvimento de combustíveis alternativos.