13/12/2006 - 8:00
No final de novembro, a direção da americana Pfizer Inc. nutria a ambição de consolidar sua liderança no mercado farmacêutico mundial com o Torcetrapib. A droga havia sido desenhada para substituir o Lipitor, um potente redutor de colesterol e que garante à corporação uma receita de US$ 12,9 bilhões por ano. Trata-se do medicamento mais vendido no mundo. Na segunda-feira 4, no entanto, suas ações desabaram 10,6% na Bolsa de Valores de Nova York, colocando uma nuvem cinzenta sobre a Pfizer. Motivo: a morte de 82 pacientes que participaram dos testes clínicos que incluíam o uso do Torcetrapib aliado ao Lipitor. Avisada sobre o número inesperado de óbitos e da ocorrência de problemas cardiovasculares, por uma comissão independente da Austrália, o laboratório mandou suspender os testes, que não incluíam nenhum voluntário brasileiro. A Pfizer não informa se estuda indenizar as famílias das vitímas. Nesse contexto, existem várias maneiras de medir o impacto dessa decisão no futuro da Pfizer. Uma delas é a erosão, em apenas um dia, de US$ 26 bilhões no valor da companhia, cotada até então em US$ 200,9 bilhões. A outra são os US$ 800 milhões gastos no desenvolvimento do Torcetrapib. Mas, seja qual for a conta, o certo é que esse revés significa um importante complicador na estratégia da gigante farmacêutica. É que no período 2005-2008 a Pfizer perderá a patente de drogas como Zyrtec, Zoloft e Norvasc cujas vendas somadas atingem US$ 12 bilhões por ano. Isso sem contar o campeão Lipitor. ?O mercado ficou desapontado?, disse à DINHEIRO Arthur Wong, diretor da matriz da Standard&Poors situada em Nova York.
Mas como a Pfizer poderá reverter esse quadro? De acordo com os analistas, existem duas opções. A primeira delas é apressar a criação de novas drogas. A outra é adquirir empresas menores de biotecnologia, detentoras de pesquisas ou fórmulas nas áreas que mais interessam à Pfizer: cardiologia, oncologia, infectologia e endocrinologia. E dinheiro não seria problema. ?A companhia dispõe de recursos técnicos e financeiros para superar esse baque?, minimiza João Fittipaldi, diretor médico da filial brasileira da Pfizer. ?Apenas em pesquisas nós gastamos US$ 7,4 bilhões por ano?, completa Mariano Garcia-Valiño, diretor de marketing da unidade. Dar a volta por cima, contudo, não parece ser uma tarefa assim tão fácil. Afinal, a perspectiva do vencimento de patentes está provocando um verdadeiro rebuliço na indústria farmacêutica como um todo. ?As aquisições exigem o desembolso cada vez maior de recursos?, opina Wong, da Standard&Poors.
Garcia-Valiño e Fittipaldi acompanham o caso Torcetrapibcom atenção. Eles sabem que a filial da Pfizer também depende de lançamentos para manter o ritmo de crescimento no patamar de 10%. É o caso do Sutent ? usado no tratamento de tumor gastrointestinal e que desembarcou por aqui em setembro último ? e do Champix, medicamento antitabagismo que chega em meados de 2007 para disputar um segmento que movimenta US$ 11 milhões no País. ?É uma droga inovadora porque atua no sistema nervoso central, eliminando a vontade de fumar?, explica Garcia-Valiño. Neste ano, a operação local avançará 8% em relação ao faturamento de R$ 1,7 bilhão obtido em 2005. Mesmo com o fiasco do Torcetrapib, a direção mundial da Pfizer mantém de pé a promessa de lançar seis novos produtos por ano, a partir de 2010. Se tudo der certo, é claro. ![]()