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Um ano atrás, a Argentina estava mergulhada na mais profunda crise de sua história. Pouquíssimos investidores apostariam um dólar ? ou um peso sequer ? na recuperação do país. Quando Néstor Kirchner tomou posse, no fim de maio de 2003, os prognósticos tornaram-se mais agourentos. Afinal, Kirchner decidiu romper com o Fundo Monetário Internacional, colocou seu país em moratória e disse que pagaria a dívida de seu país com crescimento, não com mais sacrifícios. Tornou-se um pecador. Pois bem: como está a Argentina hoje? O PIB cresceu nada menos que 11% no primeiro trimestre de 2004; já havia aumentado 9% em 2003. A taxa de juros caiu de 10% para 3% ao ano ? em termos reais, é negativa ? e a inflação, em vez de subir, cedeu. Ficará em 5% neste ano, abaixo da brasileira. Mais: a carga de impostos, que já preocupa os empresários, está em 21% do PIB, enquanto a brasileira resvala nos 38%. O desemprego ainda é alto, mas caiu de 22% para 14%. A taxa de investimentos privados registrou, no último trimestre, o maior salto já captado em toda a história argentina. Resultado: Néstor Kirchner tem 70% de popularidade e um dos itens mais procurados nas luxuosas livrarias de Buenos Aires é a história em quadrinhos do personagem NeKi, um pingüim vesgo que subiu da Patagônia ? Kirchner vem da província austral de Santa Cruz ? para redimir os argentinos de seu fracasso.

Como se explica tamanho espetáculo? Com a palavra, os empresários. ?Estamos confiantes e competitivos?, disse à DINHEIRO Darío Castellan, um dos donos da Magalcuer, empresa de artefatos de couro voltada para exportação. Na sexta-feira 24, ao inaugurar a planta industrial que recebeu US$ 8 milhões e já emprega 650 pessoas, Castellan protagonizou uma cena que tem se tornado comum na Argentina de NeKi. De um ano para cá, instala-se uma fábrica depois da outra no distrito industrial de Pilar, próximo a Buenos Aires. Em doze meses, o número de empregos em Pilar saltou de 8 mil para 10 mil. ?Nada seria possível sem a desvalorização do peso e a queda dos juros?, reforça Nestor Mildenberger, diretor-executivo do distrito industrial. ?Os empresários voltaram a acreditar no país.? A frase de Mildenberger ajuda a entender o que se passa na Argentina. Logo que Kirchner anunciou o calote da dívida, propondo pagar apenas 30% do total, os sábios economistas apostaram que o país, tão acostumado a depender de recursos externos, não sobreviveria sem a ajuda de fora. Esqueceram-se do dinheiro dos próprios argentinos que, atraídos pelo preço vil dos ativos e capitalizados pelas exportações, voltaram a investir internamente, num fenômeno que começou no campo e se alastrou pelo país. Em doze meses, o preço do hectare dobrou ? e em dólares. No setor de máquinas agrícolas pesadas, as vendas anuais saltaram de
300 unidades para 2,4 mil. ?Os agricultores hoje pagam quase tudo à vista, porque ainda têm muito receio de lidar com os bancos?, revelou à DINHEIRO Francesco Pallaro, da New Holland.

É claro que o modelo argentino tem custos. O país segue sendo visto como um pária no sistema financeiro internacional e, embora esteja renegociando a dívida de US$ 98 bilhões, ainda está em moratória. Mas o trauma financeiro, numa crise em que a população viu até seu dinheiro ser bloqueado no corralito, acabou sendo, por vias tortas, favorável aos investimentos. Quem tem dinheiro na Argentina hoje investe na produção ? não na especulação fácil e sem suor dos juros altos. É o caso do empresário Juan Ciminari, dono da companhia têxtil Softbond. Seu plano é ampliar a capacidade da fábrica de 600 toneladas mensais para mil toneladas, num projeto de US$ 4 milhões, que será financiado pelo Banco Galicia. ?Os bancos estão se dando conta de que todos que sobreviveram à crise passaram pelo mais duro teste de qualidade possível e, portanto, merecem crédito?, disse Ciminari à DINHEIRO ? nos anos 80, ele foi secretário de Indústria e Comércio da Argentina, antecedendo a Roberto Lavagna, o atual chefe das Finanças, que costura a renegociação da dívida. Ciminari vê com entusiasmo os novos tempos. ?Quando o peso valia um dólar, alguns diziam que era bom mas a Argentina estava se endividando e os empresários nacionais vendiam suas empresas?, afirma. ?Agora, estamos acertando nossas contas e voltando a investir: o que é melhor?? Hoje, o dólar é negociado a 2,95 pesos. Como o valor da moeda local é próximo ao do real, tem havido debates crescentes sobre a viabilidade da moeda única entre Brasil e Argentina. ?A idéia está amadurecendo?, disse à DINHEIRO Martín Redrado, vice-ministro de Comércio (leia entrevista na página seguinte).

Aos poucos, o esplendor do campo e das indústrias também contagia as grandes cidades. Na capital, os restaurantes da Recoleta e do Puerto Madero estão apinhados de turistas ? no último ano, o número de visitantes cresceu 25%. Nos bairros da moda, como Palermo Viejo e Las Cañitas, os jovens portenhos têm lotado os cafés e as casas noturnas. Bom para a Quilmes, maior cervejaria local, que retomou sua capacidade plena de produção. ?Renegociamos nossas dívidas, voltamos a investir e a contratar pessoal?, disse à DINHEIRO Fernando Lascano, diretor do grupo Bemberg, que, junto com a Ambev, divide o controle da empresa. No mercado imobiliário, termômetro da confiança, os números impressionam. ?As vendas cresceram 100% em um ano?, afirmou Mario Korn, dono da maior corretora local, à DINHEIRO. ?E muitos brasileiros têm nos procurado.? Em Buenos Aires, os preços dos imóveis
ainda são atrativos, quando comparados aos de outras grandes metrópoles. Uma mansão num condomínio fechado de alto luxo, que os argentinos chamam de countries, custa entre US$ 200 mil e US$ 600 mil.

É claro que ainda existem problemas. Nas ruas, muitos mendigos e crianças estendem a mão por uma moeda. São resultado do desemprego causado pela política ruinosa de defesa do peso, ainda no governo de Fernando de la Rúa. Os grupos de desempregados, conhecidos como piqueteiros, também têm radicalizado seus protestos, invadindo restaurantes e bloqueando praças de pedágio ? grandes empresários já acusam Kirchner de ser leniente em relação ao problema. Há riscos também de uma crise de escassez de energia. Além disso, sempre haverá quem diga que a Argentina só está crescendo muito na era NeKi porque caiu demais em 2002. Os porta-vozes desse discurso, porém, são os mesmos que louvam os ajustes fiscais do FMI e se conformam com a inevitabilidade dos juros altos. Para eles, é o pecado ? e não o espetáculo ? que mora ao lado. Mas não custa nada convidá-los a dar uma passadinha em Buenos Aires. Nem que seja para ouvir um tango de Carlos Gardel.

?QUEREMOS A MOEDA COMUM?

O economista Martín Redrado, vice-ministro de Comércio da Argentina, é uma das principais lideranças intelectuais do país. Em 1994, ele criou a Fundación Capital, um dos mais respeitados think-tanks de Buenos Aires. Na chancelaria, onde está desde 2002, Redrado falou à DINHEIRO.

DINHEIRO ? O que explica o crescimento argentino?
MARTÍN REDRADO ? Uma política que se apóia em bases sólidas, como o câmbio flutuante, a responsabilidade fiscal, as metas de inflação e uma inserção externa que tem como pilar o Mercosul. A corrente de comércio entre Brasil e Argentina neste ano será de US$ 11,6 bilhões, próxima do nosso recorde histórico. E o Brasil será superavitário.

A reestruturação da dívida é um exemplo a ser seguido?
No caso argentino, a renegociação melhorou os resultados fiscais. Mas o Brasil desfruta de muita credibilidade no mercado e também está crescendo.

Por que os industriais argentinos voltaram a se queixar do Brasil?
O que se pede é uma isonomia competitiva. O temor, me parece, é que haja
uma desvalorização ainda maior do real.

Como o sr. vê a idéia da moeda comum?
Nossas economias, em muitos aspectos, são complementares. Os países ajustaram suas taxas de câmbio, seguem políticas parecidas e estão livres de futuras crises cambiais. A união monetária seria um desfecho natural, que nos traria grandes vantagens. Mas ainda vejo mais vontade do lado de cá do que do lado brasileiro. Talvez porque a Argentina ainda esteja em moratória.